“O que é deixar ir?” – Por Mirelle Costa

“Deixar ir talvez seja também olhar os seus olhinhos expressivos e dizer: – Não posso sofrer pela senhora, mas, acredite, estou sofrendo junto”,

Quantas vezes já vi comentários de pessoas na rede social comentando a respeito de pessoas com doenças degenerativas.

“Graças a Deus, minha mãe foi antes de sofrer tanto assim”

“Amar é deixar ir!”

“Eu não queria estar nessa situação!”

E quem gostaria? Não fui eu quem decidi que minha mãe fosse viver nesse limbo de estar e não estar, de ser e não ser mais. E o que é deixar ir? Minha mãe está em estado vegetativo há dois anos e meio. Eu me despeço dela todos os dias. Claro que a única certeza que temos na vida é a morte, mas é como se, em situações assim, ela (a morte) vivesse (contém ironia) em estado de latência. Eu nunca sei se haverá amanhã, mas tento fazer com que o hoje seja possível, sem dores físicas, pelo menos.

Pra mim, deixar ir é ofertar um olhar afetuoso todos os dias, é garantir dignidade nas atividades mais simples do dia a dia que ela não pode desempenhar sozinha, é dizer que dia é hoje e que horas são. Deixar ir é agradecer por tudo, por tanto, por uma vida. Deixar ir é conversar, partilhar meu dia, mostrar vídeos engraçados no celular e colocar Martinho da Vila pra cantar. Deixar ir é diminuir o volume da televisão quando ela não olhando pra tela, é respeitar os olhos dela fechados, mesmo quando não está dormindo, afinal, estar aborrecida/o é um direito de todos/as nós, afinal, ela não está limitada de sentimentos.

Só no Dia das Mães é mais difícil deixar ir. É um dia que convida a ficar. Mesmo ela sempre tendo me dito que eu não sou igual a todo mundo, é um dia que eu quero ser igual a todo mundo que ainda tem mãe viva. Deixar ir não é querer perder. Deixar ir é saber que, um dia, isso vai acontecer e já sofrer um pouco a cada dia. É, aos poucos, aprender a conviver com essa despedida doída, sofrida. É uma sensação de “tenho, mas tá faltando (mãe)”.

Há dois anos e meio, não há mais supermercado juntas. Impossível levá-la àquela cafeteria nova que abriu recentemente, bem hypada, mas ainda posso beijar sua mão quentinha, sempre que quiser, e eu quero fazer isso todos os dias, até o último dia.

Deixar ir talvez seja também olhar os seus olhinhos expressivos e dizer: – Não posso sofrer pela senhora, mas, acredite, estou sofrendo junto.

Quero continuar tentando fazê-la sorrir ou até gargalhar quando ela mesma se denuncia ao ouvirmos um barulho de pum no quarto.

Deixar ir é saber que não temos o controle de nada nessa vida, tudo é ilusão. Não vale a pena gastar tanta energia tentando segurar o tempo com as mãos.

Pra mim, deixar ir é deixar sofrer um pouco também, sofrer de peito aberto, sem medo do que os outros vão pensar.

I Festival de Arte Literária

A literatura também é experiência, encontro e transformação. Neste fim de semana, Fortaleza recebe o I Festival de Arte Literária, uma iniciativa que amplia o conceito tradicional de escrita e propõe um diálogo direto com outras linguagens e com o público.

Durante três dias, de 7 a 9 de maio de 2026, a cidade se torna palco de um movimento que articula reflexão, identidade e impacto social. A programação reúne mesas redondas, palestras, oficinas e apresentações culturais, conectando diferentes gerações de escritores, artistas e criadores.

O festival acontece em dois importantes equipamentos culturais da capital cearense: o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura e a Biblioteca Estadual do Ceará (BECE), espaços que, por si só, já simbolizam a potência da produção artística local.

Mais do que uma agenda cultural, o evento se posiciona como um espaço de troca e pertencimento. A proposta vai além da fruição estética: inclui também uma campanha solidária, reforçando o papel da arte como instrumento de cuidado e transformação social.

Por trás da realização, uma equipe que articula diferentes competências criativas e de gestão:

· Direção Executiva: Henrique Garrel, Eric Magda e Lauana Lessa

· Produção: Nikki Teani

· Assistência de produção: Aryadne Rodrigues

· Design: Paulo Viana e Noah Lourenço

· Ilustração: Ulyzzz

O I Festival de Arte Literária de Fortaleza se consolida, já em sua primeira edição, como um convite direto à participação: sentir, refletir e reconhecer, na literatura, um território vivo — que se constrói coletivamente e se expande para além das páginas.

Quem vamos?

Mirelle Costa: Mirelle Costa e Silva é jornalista, mestre em gestão de negócios e escritora. Atualmente é estrategista na área de comunicação e marketing. Possui experiência como professora na área de jornalismo para tevê e mídias eletrônicas. Já foi apresentadora, produtora, editora e repórter de tevê, além de colunista em jornal impresso. Possui premiações em comunicação, como o Prêmio Gandhi de Comunicação (2021) e Prêmio CBIC de Comunicação (2014). Autora do livro de crônicas Não Preciso ser Fake, lançado na biblioteca pública do Ceará, em 2022. Participou como expositora da Bienal Internacional do Livro no Ceará, em 2022.

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