“Deixar ir talvez seja também olhar os seus olhinhos expressivos e dizer: – Não posso sofrer pela senhora, mas, acredite, estou sofrendo junto”,
Quantas vezes já vi comentários de pessoas na rede social comentando a respeito de pessoas com doenças degenerativas.
“Graças a Deus, minha mãe foi antes de sofrer tanto assim”
“Amar é deixar ir!”
“Eu não queria estar nessa situação!”
E quem gostaria? Não fui eu quem decidi que minha mãe fosse viver nesse limbo de estar e não estar, de ser e não ser mais. E o que é deixar ir? Minha mãe está em estado vegetativo há dois anos e meio. Eu me despeço dela todos os dias. Claro que a única certeza que temos na vida é a morte, mas é como se, em situações assim, ela (a morte) vivesse (contém ironia) em estado de latência. Eu nunca sei se haverá amanhã, mas tento fazer com que o hoje seja possível, sem dores físicas, pelo menos.
Pra mim, deixar ir é ofertar um olhar afetuoso todos os dias, é garantir dignidade nas atividades mais simples do dia a dia que ela não pode desempenhar sozinha, é dizer que dia é hoje e que horas são. Deixar ir é agradecer por tudo, por tanto, por uma vida. Deixar ir é conversar, partilhar meu dia, mostrar vídeos engraçados no celular e colocar Martinho da Vila pra cantar. Deixar ir é diminuir o volume da televisão quando ela não olhando pra tela, é respeitar os olhos dela fechados, mesmo quando não está dormindo, afinal, estar aborrecida/o é um direito de todos/as nós, afinal, ela não está limitada de sentimentos.
Só no Dia das Mães é mais difícil deixar ir. É um dia que convida a ficar. Mesmo ela sempre tendo me dito que eu não sou igual a todo mundo, é um dia que eu quero ser igual a todo mundo que ainda tem mãe viva. Deixar ir não é querer perder. Deixar ir é saber que, um dia, isso vai acontecer e já sofrer um pouco a cada dia. É, aos poucos, aprender a conviver com essa despedida doída, sofrida. É uma sensação de “tenho, mas tá faltando (mãe)”.
Há dois anos e meio, não há mais supermercado juntas. Impossível levá-la àquela cafeteria nova que abriu recentemente, bem hypada, mas ainda posso beijar sua mão quentinha, sempre que quiser, e eu quero fazer isso todos os dias, até o último dia.
Deixar ir talvez seja também olhar os seus olhinhos expressivos e dizer: – Não posso sofrer pela senhora, mas, acredite, estou sofrendo junto.
Quero continuar tentando fazê-la sorrir ou até gargalhar quando ela mesma se denuncia ao ouvirmos um barulho de pum no quarto.
Deixar ir é saber que não temos o controle de nada nessa vida, tudo é ilusão. Não vale a pena gastar tanta energia tentando segurar o tempo com as mãos.
Pra mim, deixar ir é deixar sofrer um pouco também, sofrer de peito aberto, sem medo do que os outros vão pensar.
I Festival de Arte Literária
A literatura também é experiência, encontro e transformação. Neste fim de semana, Fortaleza recebe o I Festival de Arte Literária, uma iniciativa que amplia o conceito tradicional de escrita e propõe um diálogo direto com outras linguagens e com o público.
Durante três dias, de 7 a 9 de maio de 2026, a cidade se torna palco de um movimento que articula reflexão, identidade e impacto social. A programação reúne mesas redondas, palestras, oficinas e apresentações culturais, conectando diferentes gerações de escritores, artistas e criadores.
O festival acontece em dois importantes equipamentos culturais da capital cearense: o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura e a Biblioteca Estadual do Ceará (BECE), espaços que, por si só, já simbolizam a potência da produção artística local.
Mais do que uma agenda cultural, o evento se posiciona como um espaço de troca e pertencimento. A proposta vai além da fruição estética: inclui também uma campanha solidária, reforçando o papel da arte como instrumento de cuidado e transformação social.
Por trás da realização, uma equipe que articula diferentes competências criativas e de gestão:
· Direção Executiva: Henrique Garrel, Eric Magda e Lauana Lessa
· Produção: Nikki Teani
· Assistência de produção: Aryadne Rodrigues
· Design: Paulo Viana e Noah Lourenço
· Ilustração: Ulyzzz
O I Festival de Arte Literária de Fortaleza se consolida, já em sua primeira edição, como um convite direto à participação: sentir, refletir e reconhecer, na literatura, um território vivo — que se constrói coletivamente e se expande para além das páginas.
Quem vamos?
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Que iniciativa incrível e imperdível, só todo mundo deve ir.