“A polarização eleitoral como set terapêutico” – Por Luiz Henrique Campos

Com o título “A polarização eleitoral como set terapêutico”, eis artigo de Luiz Henrique Campos, jornalista, psicólogo e titular da coluna “Fora das 4 Linhas”, do Blogdoeliomar. “O que me inquieta não é a existência de posições políticas divergentes, indispensáveis à democracia, mas a possibilidade de que o indivíduo se perca de si mesmo ao tentar pertencer a determinado grupo”, expõe o colunista. 

Confira:

Quando ainda estudante de Psicologia, era comum refletirmos, em sala de aula, sobre as consequências psíquicas que a pandemia deixaria na subjetividade dos indivíduos. Questionávamos como o isolamento, o medo e as perdas transformariam nossa maneira de existir e de nos relacionar com o mundo. Hoje, formado e atuando na clínica, percebo que outro fenômeno tem exigido nossa atenção de forma bastante intensa, que é a polarização política e seus possíveis efeitos sobre a constituição da subjetividade. Nesse aspecto, tenho observado, no consultório, como determinadas identificações políticas parecem ultrapassar o campo das opiniões e passam a ocupar lugar central na existência de algumas pessoas.

Em certos momentos, é como se o sujeito, ao assumir um lado, também assumisse nova personalidade, reorganizando seus afetos, vínculos e até sua compreensão da realidade. O que me inquieta não é a existência de posições políticas divergentes, indispensáveis à democracia, mas a possibilidade de que o indivíduo se perca de si mesmo ao tentar pertencer a determinado grupo. Demandas pessoais, conflitos familiares, angústias e projetos de vida parecem, por vezes, ceder espaço a disputas que o sujeito reproduz sem sequer compreender plenamente suas origens ou motivações. A literatura científica já investiga fenômenos semelhantes. Estudos sobre polarização afetiva, inclusive no contexto brasileiro, apontam para a tendência de avaliar positivamente aqueles que compartilham nossas identificações políticas e negativamente os que pertencem ao grupo adversário.

Isso, todavia, não explica toda a experiência clínica, mas nos oferece pistas importantes para compreender como a política pode atravessar nossas relações e nossa percepção do outro. Pela perspectiva fenomenológico-existencial, essa questão me conduz a reflexão fundamental. O quanto estamos, de fato, nos apropriando de nossas escolhas ou apenas reproduzindo sentidos que nos foram oferecidos? Existir implica estar aberto às possibilidades, reconhecer a própria condição de ser-no-mundo e assumir a responsabilidade pelos sentidos que construímos. Entretanto, quando uma ideologia se transforma em resposta absoluta para todas as questões, o espaço da dúvida parece diminuir, assim como a disponibilidade para reconhecer a complexidade da experiência humana.

Cada um passa a defender sua própria verdade, relativizando os fatos conforme suas convicções e, não raro, tratando o diferente como ameaça. O outro deixa de ser alguém com história, uma existência e suas próprias contradições para se tornar apenas representante do lado oposto. É nesse cenário que o set terapêutico ganha dimensão particularmente significativa. A clínica pode se tornar espaço para investigar não quem está politicamente certo, mas o que determinada identificação representa na vida daquele sujeito. Que angústia ela ampara? Que pertencimento oferece? Que conflitos pessoais ajuda a evitar? Talvez, assim como ocorreu com a pandemia, ainda estejamos tentando compreender a extensão dos efeitos desse fenômeno sobre a saúde psíquica e os modos de existir contemporâneos.

A diferença é que, agora, o desafio não se resume a elaborar perdas, mas também a reconhecer as perdas que produzimos quando subordinamos nossa singularidade à necessidade de vencer uma disputa. Como psicólogo, entendo que não cabe à clínica determinar em quem alguém deve acreditar, mas favorecer condições para que cada pessoa possa interrogar suas certezas, reconhecer suas contradições e recuperar a autoria de sua própria existência. Afinal, se a política deveria ser expressão da vida em sociedade, por que, em determinadas circunstâncias, parece se tornar o centro em torno do qual a própria vida precisa girar? Talvez a pergunta mais urgente não seja de que lado estamos, mas o que estamos deixando de viver enquanto tentamos provar que o nosso lado tem razão.

*Luiz Henrique Campos

Jornalista, psicólogo e titular da coluna “Fora das 4 Linhas” do Blogdoeliomar.

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