“Cada lado conserva força suficiente para assustar o outro, e nenhum precisa melhorar muito: basta anunciar que a alternativa seria uma catástrofe”, aponta o empresário Gera Teixeira
Confira:
Recebi uma imagem de dois grupos de zebras, frente a frente. A legenda dizia que os problemas do mundo começaram quando as zebras de riscas brancas passaram a detestar as zebras de riscas pretas.
A metáfora é quase mais do que perfeita. Só não sei onde caberiam os burros. Talvez na organização do confronto.
Fiquei olhando aquela cena e pensando como uma diferença imaginada pode se tornar uma inimizade verdadeira. Bastaria alguém convencer cada grupo de que suas listras estavam ameaçadas. Depois disso, até beber água no mesmo lugar poderia parecer uma concessão perigosa.
A quem interessa um país dividido ?
A quem consegue transformar o medo em fidelidade. A quem precisa que o eleitor olhe permanentemente para os defeitos do adversário, de preferência sem tempo para examinar os de quem pede seu voto. Também há quem encontre nessa briga audiência, prestígio e uma ocupação bastante rentável.
O cidadão entra com a indignação. Outros recolhem os dividendos.
Há um equilíbrio possível nessa divisão. Cada lado conserva força suficiente para assustar o outro, e nenhum precisa melhorar muito: basta anunciar que a alternativa seria uma catástrofe. O sujeito se decepciona com o seu representante, mas continua a defendê-lo. Já nem espera grande coisa. Quer apenas impedir que o outro vença.
É uma acomodação curiosa. Os dirigentes preservam seus lugares, enquanto famílias deixam de conversar e amizades antigas passam a exigir assuntos previamente selecionados.
Discordar faz parte da vida democrática. Há diferenças sérias, responsabilidades distintas e decisões que precisam ser combatidas. A dificuldade começa quando a adesão dispensa o julgamento. O mesmo comportamento que ontem provocava escândalo hoje encontra uma justificativa engenhosa, dependendo de quem o pratica.
E até onde isso pode ir ?
Pode durar anos, consumindo a paciência e adiando soluções. Pode aumentar a ponto de tornar aceitável uma violência que antes causaria repulsa. Pode também preparar o terreno para alguém que prometa resolver tudo pela força. Gente cansada às vezes confunde silêncio imposto com paz.
Há ainda a possibilidade de o cidadão se cansar dos seus próprios encantamentos. Começar a cobrar de quem escolheu. Admitir um acerto do adversário sem sentir que traiu a família. Reconhecer que um voto não obriga ninguém a passar quatro anos procurando desculpas.
Isso daria algum trabalho aos administradores da discórdia.
Voltei à imagem. As zebras continuavam frente a frente, todas com suas riscas brancas e pretas. Nenhuma parecia disposta a examinar a própria pele.
Quanto aos burros, talvez a ausência tenha sido uma delicadeza com os animais.
A organização do confronto tem coisa demais de gente.
Gera Teixeira
Empresário e jornalista