Com om título “A Ruptura do Represamento: O Voto Antissistema”, eis artigo de João Arruda, sociólogo e professor aposentado da Universidade Federal do Ceará. “O sistema subestimou a capacidade de tolerância e de reação da população. O cidadão que sofre com o aumento do custo de vida, que vê o salário encolher diante das contas do mês, que é forçado ao endividamento e que enfrenta a precariedade dos serviços públicos e a insegurança diária não precisa de intermediários para interpretar a própria realidade”, expõe o articulista.
Confira:
A menos de uma semana das eleições presidenciais, estamos assistindo a um fenômeno político no Brasil que ultrapassa a lógica do tradicional processo eleitoral. À medida que nos aproximamos do dia 4 de outubro, a dinâmica política brasileira começa a transcender a simples contabilidade dos votos e deve ser compreendida, em boa medida, à luz da psicologia social, como o prenúncio de uma catarse coletiva antissistema.
Em uma eleição marcada por intensa polarização, a migração de parcela do eleitorado indeciso e dos candidatos do espectro conservador em direção a Flávio Bolsonaro não deve ser interpretada apenas como uma opção pelo voto útil ou pelo “menos ruim”, mas como o extravasamento de uma tensão que vinha sendo represada há muito tempo: a ruptura de um recalque coletivo que encontra na manifestação do voto uma poderosa via de escape para a rejeição ao status quo lulopetista e ao sistema que lhe dá sustentação.
Durante as sucessivas gestões petistas, importantes aparelhos ideológicos, como a educação, a cultura e os meios de comunicação, foram progressivamente aparelhados, formando uma ampla rede que passou a funcionar como mecanismo de defesa e legitimação dos horrores do lulopetismo. Essa estrutura contribuiu, por muito tempo, para relativizar suas falhas administrativas e o não atendimento de importantes demandas populares assumidas durante as campanhas eleitorais. Além disso, serviu para justificar a deterioração das contas públicas, neutralizar a percepção da população sobre seus malefícios na inflação do custo dos alimentos e no endividamento das famílias, e esconder os afrontosos gastos que financiam as mordomias e viagens extravagantes do ex-presidiário e da sua cuidadora, Janja.
Nessa última gestão, o sistema usou intensamente seus aparelhos ideológicos e repressivos para encobrir os recorrentes escândalos de corrupção do governo lulopetista. Entre os episódios mais recentes, figuram os casos do INSS e do Banco Master, que contaram com o envolvimento de ministros do Supremo Tribunal Federal; de figurões do Poder Legislativo, a exemplo dos presidentes Davi Alcolumbre (Senado) e Hugo Motta (Câmara); de integrantes da alta cúpula da Presidência; e de familiares do descondenado, como seu filho Lulinha, o irmão Frei Chico e a nora Carla Ariane Trindade.
Como se esses fatos não bastassem, agiram de forma eficiente para minimizar a conivência do governo com a expansão da violência imposta pelas facções criminosas. Funcionando como um Estado paralelo, essas facções já submetem mais de 50 milhões de brasileiros a formas cada vez mais severas de controle territorial e social, extorquindo, julgando e condenando à morte quem ousa desafiar suas ordens, restringindo a liberdade e o próprio exercício da cidadania.
Mas, para a infelicidade do lulopetismo, a internet tornou praticamente impossível apagar o passado, perpetuando os deslizes e as ações criminosas de seu autor. Vídeos, entrevistas, discursos e declarações feitas em solenidades públicas, pelo descondenado, permanecem disponíveis e podem ser revisitados a qualquer momento, permitindo que o eleitor confronte a retórica oficial com aquilo que foi efetivamente dito em seus recorrentes atos falhos.
Declarações consideradas ofensivas ou depreciativas por diferentes segmentos da sociedade, envolvendo mulheres, negros, evangélicos, católicos, tradições familiares e trabalhadores de baixa renda, como garis e ajudantes gerais, reaparecem continuamente nas redes sociais, fora do controle dos antigos filtros da comunicação do sistema. O que antes poderia ser esquecido após uma manchete ou um pronunciamento passou a integrar um arquivo permanente na memória coletiva dos cidadãos.
É justamente aí que se encontra uma das chaves para compreender o fenômeno do represamento. Durante muito tempo, o sistema pareceu acreditar que a capacidade de comunicação de seus aparelhos de controles seria suficiente para anestesiar o descontentamento social. Acreditava que cada crise poderia ser relativizada; cada contradição, explicada; cada declaração inconveniente, esquecida; e que cada fracasso administrativo poderia ser atribuído às circunstâncias ou à herança bolsonarista. Contudo, existe um limite para a capacidade de uma sociedade suportar a distância entre o discurso político e a realidade vivida no cotidiano.
O sistema subestimou a capacidade de tolerância e de reação da população. O cidadão que sofre com o aumento do custo de vida, que vê o salário encolher diante das contas do mês, que é forçado ao endividamento e que enfrenta a precariedade dos serviços públicos e a insegurança diária não precisa de intermediários para interpretar a própria realidade. A experiência cotidiana gera sua própria consciência. E, quando esse descontentamento represado finalmente encontra um canal de expressão política, a força acumulada rompe inevitavelmente as comportas .
É nesse momento que o voto deixa de ser apenas uma escolha entre candidatos e passa a funcionar como instrumento de manifestação de um descontentamento mais profundo. A urna se transforma, então, no ponto de convergência de sentimentos dispersos, frustração, indignação, rejeição e desejo de mudança, que individualmente pareciam incapazes de alterar o equilíbrio político, mas que, somados, podem produzir uma virada significativa no comportamento eleitoral. É essa possível ruptura do represamento que precisa ser compreendida para além da matemática das pesquisas viciadas e da contabilidade convencional dos votos.
Além da mudança de humor de parte significativa da população, o establishment brasileiro dá claros sinais de implosão. Por razões diversas, o mercado, incluindo o influente setor financeiro, soltou a mão do governo. A grande mídia, que por anos foi regiamente paga para chancelar os mandos e desmandos lulopetistas, tenta se distanciar em uma tardia autocrítica. Os institutos de pesquisa, historicamente utilizados para manipular a opinião pública em favor do sistema, começam a convergir para os números reais, alguns já indicando a vitória de Flávio Bolsonaro ainda no primeiro turno. Enquanto o outrora todo-poderoso STF perde a legitimidade perante a nação devido a escândalos e ligações promíscuas variadas, a Câmara e o Senado amargam o descrédito sob suas atuais presidências. Por fim, as Forças Armadas, submetidas à cooptação de seu alto comando, deixaram de refletir o sentimento da tropa e da nação.
É nesse cenário de descalabro institucional, de sofrimento e de profunda indignação que a represa finalmente cede. As urnas serão o canalizador das frustrações e da esperança do povo brasileiro, pondo fim a um dos períodos mais sombrios da nossa trajetória política. Por mais que esse combalido e corrupto sistema tente manobrar ou adulterar a vontade popular, ele já perdeu o que lhe era mais caro, a legitimidade, mostrando-se impotente para conter o curso inexorável da história.
*João Arruda
Sociólogo e professor aposentado da Universidade Federal do Ceará.