Com o título “A Simplicidade do Pensar”, eis mais um texto da lavra de Totonho Laprovitera, arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.
Confira:
O verdadeiro intelectual me parece igual ao humilde de verdade: não se apresenta, acontece. A gente reconhece.
Há os que guardam palavras dos outros e as repetem, bem alinhadas, entre aspas. E há os que pensam com os próprios quengos, criando uma linguagem que nasce da alma – feita de ideias vividas, de sentimentos pensados. Para esses, tiro o chapéu e faço silêncio.
Ser intelectual, para mim, é antes de tudo um exercício de clareza. É saber dizer leve. É tornar simples o que poderia ser difícil. E falar de modo que o outro não apenas entenda – mas sinta.
Falar a língua do povo é mais do que escolher palavras simples. É escutar. E, nesse escutar, às vezes, parece que a gente encosta no mistério – como se algo maior passasse baixinho, no meio da conversa.
Talvez por isso os intelectuais mais verdadeiros carreguem um certo humor. Não o riso fácil, mas o que nasce da compreensão das coisas. O riso que acolhe, que entende, que aproxima.
No fundo, tudo isso toca uma mesma ideia: viver melhor.
Encontrar jeitos de ser feliz – esse direito antigo, que pertence a todos os viventes.
Outro dia, ouvi o seguinte elogio a um notável: “Ele escreve tão bem que a gente não entende nada”- sorri por dentro.
Escrever bem, penso eu, é justamente o contrário. É quando a palavra encontra quem a escuta. Quando o que se diz chega inteiro, sem tropeço, sem exibicionismo. Quando a linguagem abre caminho, em vez de fechar portas.
Gosto quando alguém de poucas letras alcança o que desenho com palavras. Gosto quando a fala vira canto – e
sopra sentido antes mesmo de se explicar.
Aprendo com quem lê livros.
E com quem lê o mundo.
Com quem decifra paisagens, silêncios, gestos pequenos.
Há beleza nos sonhos dos inocentes. Há sabedoria no silêncio das pedras.
Tenho me aproximado, cada vez mais, da simplicidade. As coisas complicadas não me seduzem; pesam.
E, quanto aos ditos intelectuais, sigo querendo aprender com eles – não os enfeites do pensamento, mas a sua essência: essa música mansa, clara e prática, que faz o entendimento florescer.
Para começar, já me basta.
*Totonho Laprovítera
Arquiteto urbanista, escritor e artista plastico.