“A solidão que leva a desistir da vida” – Por Suzete Nocrato

Suzete Nocrato tem mestrado em Comunicação Social pela UFC.

Com o título “A solidão que leva a desistir da vida”, eis texto de Suzete Nocrato, jornalista e mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará. “Costumamos acreditar que a velhice é um destino distante. Não é. Se a vida permitir, um dia também estaremos desse lado do tempo, esperando que alguém nos reserve o mesmo lugar que um dia oferecemos aos nossos”, expõe a articulista.

Confira:

Conheci a história de Geiselane e pensei que ela poderia ser a mãe, a avó ou a tia de qualquer um de nós. Viveu como vivem tantas mulheres brasileiras: cuidando da casa, dos filhos, do marido, esquecendo de si mesma, quase sem perceber que também se tornava invisível. Sem notar e sem ser vista. Não porque tivesse escolhido esse caminho, mas porque a vida foi exigindo cada vez mais dela.

Casou-se aos 22 anos com Rosalvo. Um ano depois, nasceu Paulo, um menino de choro fácil que passou a ser o centro do seu mundo. Geiselane trabalhava em uma firma de contabilidade, mas deixou o emprego para se dedicar à maternidade. Sem perceber, a vida foi empurrando seus desejos para um canto.

Vieram anos de uma rotina que parecia não terminar: comida no fogão, roupa para lavar, remédios, contas e pouco descanso. Quando Rosalvo recebeu o diagnóstico de câncer no estômago, a rotina tornou-se ainda mais pesada. Ela cuidou do marido até o último dia, sem poupar esforços.

Paulo tinha apenas 16 anos quando o pai retornou ao plano espiritual. A partir dali, Geiselane assumiu sozinha responsabilidades que antes dividia com o marido. Trabalhou onde apareceu oportunidade, economizou no que pôde e fez da educação do filho a missão da própria vida. Nunca a ouviu reclamar.

O filho cresceu, casou-se e tornou-se pai de Ricardo. Mesmo depois de constituir família, permaneceu morando na casa da mãe. A avó acompanhou o neto crescer, preparou suas refeições, contou histórias, enxugou lágrimas e comemorou conquistas. Imaginava que aquela casa continuaria reunindo todos, como sempre acontecera.

Quando Geiselane completou 85 anos, Paulo mudou-se para outro estado e ela permaneceu com o neto. Cinco anos depois, Ricardo decidiu se casar. A noiva deixou claro que não queria morar com a idosa.

A solução encontrada foi uma casa de repouso, sob protestos da senhora. Durante dois meses, todos os dias, ela pedia para voltar ao lar. Ricardo respondia que não tinha como cuidar dela.

Aos poucos, Geiselane desistiu de lutar. Primeiro, recusou a comida. Os profissionais insistiam, conversavam, tentavam convencê-la. Ela apenas balançava a cabeça. Durante uma semana, aceitou somente água. A desidratação tornou-se grave, e ela foi levada a uma unidade de pronto atendimento.

Chamado às pressas, Ricardo encontrou a avó muito debilitada. Pediu que voltasse a comer. Ela respondeu com o mesmo pedido que vinha fazendo desde o primeiro dia: queria voltar para a antiga casa.

O neto repetiu que isso não seria possível. Então Geiselane passou a recusar também a água. Dois dias depois, morreu.

Quando recebeu a notícia, o neto chorou desesperadamente. Talvez naquele instante tenha percebido que algumas perdas não podem ser reparadas e que existem palavras que sempre chegam tarde.

Essa história me tocou profundamente. Infelizmente, não é um caso isolado. Em muitas famílias, o envelhecimento de um pai, de uma mãe ou de um avô passa a ser tratado como um incômodo. Entre a falta de tempo, as mudanças da vida e as dificuldades reais de cuidar, às vezes esquecemos que eles querem se sentir parte da família.

Costumamos acreditar que a velhice é um destino distante. Não é. Se a vida permitir, um dia também estaremos desse lado do tempo, esperando que alguém nos reserve o mesmo lugar que um dia oferecemos aos nossos.

*Suzete Nocrato

Jornalista e Mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará.

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