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“A Travessia do Rubicão Institucional” – Por Jurandir Gurgel

Jurandir Gurgel é mestre em Economia e membro do Consellho Curador da Fundação Sintaf.

Com o título “A Travessia do Rubicão Institucional”, eis artigo de Jurandir Gurgel, mestre em Economia e membro do Conselho Curador da Fundação SINTAF de Ensino e Pesquisa. “(…) a travessia do “Rubicão institucional” dialoga profundamente com a atual crise brasileira, que não pode ser compreendida apenas sob dimensões econômicas, fiscais ou políticas. Trata-se, sobretudo, de uma crise de legitimidade ética das instituições.

Confira:

A travessia do rio Rubicão por Júlio César, em 49 a.C., constitui um dos marcos mais simbólicos da história política do Ocidente. Ao atravessar o rio Rubicão, que marcava a fronteira entre a província romana da Gália Cisalpina ao nordeste e a Itália propriamente dita, César rompeu deliberadamente a ordem republicana vigente e desencadeou a guerra civil que resultaria no colapso da República Romana. A famosa expressão “a sorte está lançada” (alea iacta est), atribuída a César naquele momento, representa exatamente a irreversibilidade daquela ruptura institucional. Portanto, atravessar o
Rubicão é semelhante à frase moderna “passar do ponto sem retorno”.

Após sua vitória, consolidou-se um ciclo de reorganização política que culminaria, anos depois, no surgimento do Império Romano, sob Augusto, sucessor e herdeiro político de César. É precisamente nesse contexto imperial – marcado pela centralização do poder, expansão territorial, fortalecimento administrativo e afirmação da autoridade de Roma – que ocorre o nascimento e a existência histórica de Jesus Cristo.

Assim, o Cristianismo emerge dentro da estrutura do Império Romano, sob a chamada Pax Romana. Foi um período de cerca de 200 anos (27 a.C. a 180 d.C.) de um conceito ideológico que o Império Romano massificou com vistas ao fortalecimento da estrutura imperial. A presença romana na Judeia, a cobrança de tributos, a figura de César como
símbolo da autoridade imperial e a própria organização administrativa do império constituem o pano de fundo político das narrativas evangélicas, desde a entrada triunfal de Jesus Cristo em Jerusalém e a denúncia do que ocorria no Templo, até a Sua crucificação e ressurreição.

Diante desse contexto, cumpre enfatizar que ainda vivemos o Tempo Pascal, período central da tradição cristã, marcado pela reflexão sobre morte, ressurreição, renovação espiritual e transformação da consciência humana. Nesse cenário, os episódios que antecedem a Paixão de Cristo assumem extraordinária atualidade histórica e institucional, especialmente sua passagem pelo Templo de Jerusalém e a célebre formulação: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, registrada nos evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas.

Ao expulsar os vendilhões do Templo, Cristo não condena simplesmente uma prática econômica associada aos rituais religiosos da época. O comércio de animais e a troca de moedas possuíam funcionalidade litúrgica e operacional diante das exigências do culto judaico. A ruptura denunciada por Jesus era mais profunda: tratava-se da captura da finalidade institucional pela lógica da exploração, do lucro e do poder. O problema não residia na existência da atividade econômica, mas na corrosão ética de uma instituição concebida para servir a um propósito superior.

Na prática, aquele gesto inaugura a fase final de sua missão pública. A partir dali, intensifica-se a ruptura entre o Cristo e as elites religiosas, políticas e institucionais da época. O conflito deixa de ser apenas teológico e assume dimensão institucional, moral e civilizacional. Seu ato no Templo torna-se, assim, um marco de não retorno – um “Rubicão espiritual e histórico” —, pois, à semelhança da travessia de Júlio César, representa uma decisão irreversível que precipita o confronto com a ordem estabelecida e desencadeia profundas transformações na estrutura de poder vigente.

Contudo, há uma diferença essencial entre os dois “Rubicões”. César atravessa o rio para concentrar poder e inaugurar uma ordem imperial fundada na autoridade política e militar. Cristo atravessa simbolicamente seu Rubicão para denunciar justamente a corrupção moral do poder e reafirmar a supremacia da ética, da justiça e da verdade sobre as instituições.

No episódio do tributo a César, emerge uma das formulações mais sofisticadas da tradição ocidental acerca da relação entre autoridade política, dever cívico e ordem moral. Ao reconhecer a legitimidade do tributo, Cristo admite a necessidade da organização estatal, da autoridade civil e das obrigações públicas indispensáveis à vida coletiva. Contudo, simultaneamente, estabelece um limite ético ao exercício do poder: César pode exercer autoridade temporal, arrecadar tributos e administrar a ordem pública, mas não pode substituir a justiça, a consciência moral e os valores superiores
que fundamentam a legitimidade institucional.

Essa compreensão encontra aprofundamento em Romanos 13:7 (“Paguem a todos o que lhes é devido: se imposto, imposto; se tributo, tributo; se temor, temor; se honra, honra”). O apóstolo Paulo desenvolve, em dimensão institucional, aquilo que Cristo apresentou em forma principiológica. A autoridade pública passa a ser compreendida como instrumento destinado à preservação da ordem, promoção do bem comum e sustentação da convivência social, sendo o tributo reconhecido como elemento legítimo de financiamento das estruturas estatais.

Há, nessas passagens, uma arquitetura ética e institucional notavelmente avançada para seu tempo, antecipando fundamentos contemporâneos relacionados à legitimidade do poder, responsabilidade pública, governança institucional e supremacia ética sobre a autoridade formal. O problema contemporâneo emerge exatamente quando essa relação
se rompe.

Sob essa perspectiva, a travessia do “Rubicão institucional” dialoga profundamente com a atual crise brasileira, que não pode ser compreendida apenas sob dimensões econômicas, fiscais ou políticas. Trata-se, sobretudo, de uma crise de legitimidade ética das instituições. A crescente percepção social de patrimonialismo, seletividade, captura política, relativização moral e dissociação entre interesse público e exercício do poder vem produzindo uma corrosão progressiva da confiança coletiva no Estado e em suas estruturas institucionais.

A máxima evangélica de “dar a César o que é de César” pressupõe a existência de uma autoridade legítima, comprometida com a justiça, a responsabilidade pública e o bem comum. Da mesma forma, a interpretação de Romanos 13 não se sustenta como mera submissão formal ao poder, mas como reconhecimento de uma autoridade moralmente
orientada e institucionalmente responsável. Quando o poder se distancia de sua finalidade ética, preserva-se, muitas vezes, apenas a aparência da legalidade, enquanto sua legitimidade moral passa a deteriorar-se silenciosamente.

Em última instância, nenhuma instituição se sustenta exclusivamente pela força normativa, pela coerção estatal ou pela autoridade formal quando perde sua base ética, sua finalidade pública e a confiança social que lhe confere legitimidade. A história demonstra que o colapso institucional raramente se inicia pela ausência de leis, mas, sobretudo, pela erosão gradual dos valores que sustentam a própria razão de existência das instituições. Nesse contexto, emerge o risco de se alcançar um ponto de não retorno na crise de credibilidade institucional, em que a dissociação entre legalidade formal e
legitimidade moral compromete a capacidade do Estado de preservar coesão, autoridade e confiança pública.

*Jurandir Gurgel

Mestre em Economia e membro do Conselho Curador da Fundação SINTAF de Ensino e Pesquisa.
jggondim@terra.com.br

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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