Com o título “A Vênus dos Grandes Lábios”, eis mais um texto da lavra de Francisco J. Caminha, advogado, escritor e ex-deputado estadual.
Confira:
Na névoa daquela madrugada, a cidade era um cenário de néon, silêncio e segredos. Ele dirigia seu Porsche pelas avenidas desertas, um homem que, apesar do sucesso absoluto, sentia a ansiedade momentânea de vazio existencial.
Ao parar no semáforo, o acaso cruzou seu caminho.
Na esquina, parada como uma sentinela do desejo, estava ela, uma mulher de beleza estonteante: loira, estatura elegante, tez alva e um rosto de traços arredondados e com uma expressão de predatória sofisticação. Sua roupa, milimetricamente desenhada, esculpia o corpo como uma segunda pele. Mas era o olhar dela que o aprisionava com um magnetismo denso, carregado de uma intensidade que parecia ler os pensamentos mais proibidos. Quando ela sorriu, ele não teve dúvidas. A aura da noite era evidente. O valor foi ajustado com a frieza de um contrato de negócios e, minutos depois, estavam mergulhados na penumbra de um hotel.
Foi uma noite que desafiou a razão. Ela não apenas entregava prazer; ela era a própria visceralidade encarnada. Ele ficou fascinado pela anatomia de seu desejo: os lábios carnudos do rosto, desenhados para o pecado e para a intimidade secreta da anatomia dos grandes lábios que funcionaram como o portal para uma paixão atordoante.
Mas, o que realmente o desarmou foi a maestria técnica que ela revelou entre os lençóis. Ela dominava a arte ancestral do pompoarismo com uma naturalidade que beirava um ritual. Cada movimento, cada contração rítmica e pulsante, exercida com um controle muscular quase hipnótico, parecia comprimir sua própria existência. Era uma dança interna de uma tecnicidade absoluta; um abraço que o mantinha prisioneiro de um prazer lancinante, onde o prazer dela e o dele se fundiam em uma só pulsação. Ela o possuía e o libertava com um domínio que ele jamais encontrara em outra mulher.
Ela se apresentou apenas como Roxane. Mas, quando ele despertou no fim da madrugada, a cama estava vazia. O perfume ainda pairava, mas a mulher, como um espectro, havia se dissolvido na alvorada.
Nos meses seguintes, a memória dela tornou-se sua assombração. Ele, o empresário bem-sucedido, via-se perdido em jantares e reuniões, buscando, no rosto das mulheres da elite, o rastro daquela “prostituta” que o marcara a ferro e fogo.
Até que o destino decidiu pregar sua peça final.
Ele foi convidado para uma vernissage exclusiva em uma das galerias de arte mais prestigiadas da cidade. O ambiente era de uma sofisticação esterilizada, champanhe fluindo entre conversas sussurradas e a elite social circulando. Ao entrar no salão principal, o tempo parou.
Lá estava ela.
Vestida com uma elegância impecável, recebendo os convidados com a postura de quem não apenas domina o mundo, mas o possui. Ela não era a mulher da esquina. Ela era a proprietária da galeria, uma mulher culta, independente, casada com um influente empresário do setor farmacêutico. O choque foi paralisante. Ele se aproximou, o coração batendo com a urgência de quem reencontra o próprio destino disfarçado de arte.
Quando, por um instante, ficaram a sós em um canto da sala, a máscara da dama da sociedade caiu, substituída pelo sorriso magnético que ele reconhecera naquela noite.
Ela não negou nada. Com uma franqueza cortante, revelou que aquela noite fora seu refúgio, um fetiche inusitado de quem, vivendo sob a luz sufocante de uma vida pública engessada, precisava, de vez em quando, sentir a crueza da existência sem rótulos.
— Você não comprou o meu corpo naquela noite – disse ela, com a segurança de quem detém o poder absoluto sobre si mesma.
__ Você pagou para que eu pudesse ser, por algumas horas, a mulher que a sociedade nunca me permitiria ser.
A partir daquele instante, o véu da hipocrisia social foi rasgado. A descoberta de quem ela realmente era não apenas alimentou sua obsessão; transformou-a em algo sólido e inevitável. A vida dupla que ambos levavam, ele como um homem que representava um papel, ela como uma curadora de aparências, tornou-se insuportável diante da verdade que haviam compartilhado.
Não buscavam mais a somente aventura do fetiche, mas a sobrevivência de suas almas. A decisão foi a única possível: a ruptura.
Eles descobriram que o amor verdadeiro não se encontra nos status ou nas galerias de arte, mas na capacidade de enxergar, na esquina mais improvável, o reflexo da própria alma.
*Francisco J. Caminha
Advogado, escritor e ex-deputado estadual.