Com o título “A Verdade que a Política Esconde”, eis texto da lavra de Francisco J. Caminha, advogado, escritor e ex-deputado estadual. Um conteúdo bem atual, por sinal.
Confira:
Ainda me lembro de um episódio quando fui vereador. Durante uma campanha eleitoral, um vereador conseguiu marcar audiência com o então prefeito Juraci Magalhães. Entrou no gabinete carregando uma pasta e um sorriso diplomático.
— Doutor Juraci, fiz duas músicas para a sua campanha, dependendo do resultado da nossa conversa, uma delas será tocada.
O prefeito estranhou:
— Como assim?
— Uma é em sua homenagem. A outra acaba com sua reputação.
Ali, em poucos segundos, talvez tenha sido revelado um dos retratos mais sinceros da política.
Porque a política, antes de ser ideologia, slogan ou palanque, é um território de interesses. Na verdade, os seres humanos raramente caminham movidos por princípios abstratos. Se desejo algo de alguém, esforço-me para conquistar esse alguém. Elogio, aproximo, sorrio, exalto virtudes, descubro afinidades inesperadas.
Às vezes, o discurso fala em amor ao povo, mas o coração cochicha sobre necessidades mais íntimas como, reconhecimento, pertencimento, influência e poder.
Recordo outro personagem que dizia:
— Pelo bem do povo, eu me alinho até com os merdas. Pode mandar a minha parte no pote de merda que eu como.
A frase é grosseira, mas carrega uma sinceridade brutal: para vencer, muitos aceitam quase tudo, desde que o preço seja pago em votos.
Claro que ninguém sobe ao palanque para anunciar:
– Quero o poder porque ele alimenta meu ego, minhas necessidades pessoais, meus vazios, meus sonhos e minhas ambições.
Não. O discurso sempre será mais nobre:
“Pelo bem do Brasil.”
“Pelo bem do Ceará.”
“Pelo bem do povo.”
E, talvez, exista mesmo alguma verdade nisso. Seria injusto afirmar que toda política é apenas interesse individual. Há gente sincera, há vocações autênticas. Mas, também, seria ingenuidade imaginar que os desejos humanos desaparecem quando alguém coloca um “pin” no peito ou sobe num palanque.
A política, talvez, seja o lugar onde virtudes e interesses caminham lado a lado, fingindo não se conhecer.
Existe ainda uma lei silenciosa, nunca escrita em constituição alguma, mas faz parte da lógica política:
“Meus amigos e aliados não têm defeitos; meus adversários, se não tiverem, eu invento”.
Eis a lógica dessa guerra.
Porque alianças políticas raramente nascem do amor. Muitas vezes nascem do medo, do ressentimento ou do ódio compartilhado. São as alianças erguidas pelo ódio que possuem uma força perigosa. E, circunstâncias normais, talvez jamais essas pessoas jamais dividissem a mesma mesa.
O desejo de vingança produz energia; porém, também produz cegueira. Quem constrói uma caminhada sustentada apenas pelo ressentimento termina prisioneiro dele. A vingança pede sempre mais vingança. Nunca se satisfaz. Nunca encerra a conta.
É bom lembrar uma frase de Tocqueville:
“As alianças e amizades em política quase sempre é uma comunhão de ódios”.
Talvez, por isso, o melhor discurso contra alianças construídas no ódio não seja o ataque, seja lembrar ao povo algo simples: A vingança pode mobilizar multidões, mas raramente constrói futuro. Porque governos nascidos apenas para derrotar inimigos passam quatro anos procurando novas guerras e confrontos.
Na maioria das vezes, a decisão das eleições está nas mãos do eleitor com menos escolaridade formal que decidi o voto não pelo conteúdo técnico do discurso dos candidatos, e sim, por conteúdos emocionais transmitidos candidatos, tais como: o olhar, o tom, a postura, a serenidade e pela sensação de confiança e esperança. É evidente que essa análise é limitada, não estou considerando a influência nas máquinas dos poderes da situação, dos líderes, dos partidos, da mídia, nem a força do lubrificante cívico que será derramado no período eleitoral e no dia “D”.
Em 2026, portanto, a verdade escondida da política não esteja apenas nos programas de governo, nos palanques iluminados ou nas alianças anunciadas com solenidade. Estará, sobretudo, naquilo que o eleitor percebe sem que ninguém precise explicar: Quem fala por projeto e quem fala por mágoa; quem transmite futuro e quem carrega revanche; quem parece governar para unir e quem parece disputar para acertar contas.
Porque, no fim, o povo pode até não decifrar todos os códigos da política, mas costuma perceber, pelo olhar e pelo gesto, quando a ambição veste a fantasia da virtude.
*Francisco J. Caminha
Advogado e ex-deputado estadual.