Com o título “Adolescência hoje: o problema não é o jovem, é o mundo que ele precisa suportar”, eis artigo de Joilson Lima, acadêmico de Psicologia. “
Confira:
Será que a adolescência ficou mais difícil ou foi o mundo que ficou mais pesado?
Um estudo recente sobre jovens brasileiros mostra que ansiedade, insegurança e pressão aparecem como experiências centrais dessa fase. Não se trata de exagero. Trata-se de contexto diante das pressões sociais.
Durante muito tempo, a adolescência foi compreendida como um período de crise. A psicanalista Arminda Aberastury já explicava, em sua obra Adolescência Normal, que esse momento envolve perdas importantes: o corpo infantil, a identidade anterior e a relação com os pais. Mostrando que esta fase é um tempo de luto, conflito e reconstrução.
Mas o que acontece quando essa crise, que já é esperada, encontra um mundo instável, acelerado e hiperexigente? O que era desenvolvimento passa a ser também “sobrevivência emocional”.
Hoje, o adolescente não apenas se descobre. Ele precisa se sustentar em meio a uma cultura de desempenho, comparação constante e exposição permanente. O estudo acima citado aponta que muitos jovens se sentem cobrados como adultos, mas tratados como crianças. É uma contradição difícil de sustentar.
Contardo Calligaris, referência na psicanálise brasileira, já alertava que o adolescente responde ao mundo que encontra. E o mundo atual não oferece pausas. Ele exige posicionamento, produtividade, sucesso e identidade… tudo isso ao mesmo tempo e cada vez, cedo demais!
As redes sociais contribuem para a intensificação desse cenário. Elas funcionam como espelho e vitrine. O jovem se observa o tempo todo, se compara o tempo todo e aprende a medir seu valor pelo olhar do outro. O que está em questão não é apenas comunicação, é construção de identidade e isso tem um preço a ser pago.
A angústia cresce. A insegurança se torna constante. O futuro deixa de ser promessa e passa a ser fonte de medo. O estudo revela que muitos adolescentes já vivenciaram crises de ansiedade e até pensamentos autodestrutivos.
Não é uma intensidade exagerada. É sobrecarga!
Ao mesmo tempo, há um dado que talvez seja o mais importante: muitos adolescentes não se sentem escutados. Sentem que suas dores são tratadas como exagero, suas falas como imaturidade. E, diante disso, fazem o quê? Se silenciam.
Isso muda completamente a forma como devemos olhar para essa fase. Porque, se antes o desafio era lidar com a crise da adolescência, hoje o desafio é outro: sustentar essa crise em um mundo que não oferec espaço para ela existir. É nesse período que o sujeito constrói valores, identidade e sentido. Mas isso exige tempo, escuta e possibilidade de errar. Mas o que vemos hoje é o contrário. Pressa, cobrança, comparação e pouco espaço para existir.
Talvez por isso o entretenimento tenha se tornado um refúgio. Não apenas como distração, mas como lugar de pertencimento, de identificação e de expressão. Quando não há escuta, o sujeito busca outros lugares para se reconhecer. O ponto central, então, não é corrigir o adolescente. É escutá-lo. Sem reduzir suas experiências à “fase”. Sem comparar com outras gerações. Sem invalidar o que ele sente. Porque a adolescência continua sendo o que sempre
foi: um processo de construção. Mas agora, essa construção acontece sob pressão.
Talvez a pergunta mais importante não seja “o que está acontecendo com os adolescentes?” E sim “o que está acontecendo com o mundo que estamos oferecendo a eles?”
*Joilson Lima
Acadêmico de Psicologia
Instagram: @pensante.81
REFERÊNCIAS
ABERASTURY, Arminda; KNOBEL, Mauricio. Adolescência normal. Porto Alegre: Editora Artes Medicas, 1992
CALLIGARIS, Contardo. A Adolescência. São Paulo: Publifolha, 2000. Estudo analisa a realidade dos adolescentes no Brasil. Disponível em: lt;https://clubedecriacao.com.br/ultimas/adorlescencia/>. Acesso em: 24 abr. 2026.