Com o título “Água no Feijão”, eis mais um texto da lavra de Totonho Laprovitera, arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.
“Quem anda depressa demais acaba tropeçando na própria alma.” (Guimarães Rosa)
Confira:
Tenho passado boa parte da vida vendo o mundo correr sem saber para onde. Gente avexada, pulsando as horas com vazio no peito, achando que viver é chegar primeiro. Talvez por isso eu nunca tenha admirado as pressas da cidade. Sempre desconfiei desse progresso esparrento, barulhento e inimigo do silêncio.
Foi espiando o sertão e sua gente que entendi uma verdade simples: há sabedorias que não estão nos livros nem nos escritórios com ar-condicionado. Estão na calma de quem aprendeu a viver sem atropelar o próprio coração.
Minha paz vem do interior. Do interior da alma matuta, que aprendeu cedo os verdadeiros valores da vida e descobriu a ciência rara da pressa de viver devagar. Gente que não mede riqueza pelo tamanho da conta, mas pela sombra boa de uma conversa na calçada, pelo café repartido sem cerimônia, pelo silêncio de quem sabe escutar.
Trago comigo essa preguiça boa do sertão que vi e copiei. Preguiça que não é descuido nem abandono. É um jeito esperto de dar tempo ao tempo, de conviver mais com quem a gente gosta, de entender que os pequenos gestos valem mais que muitos tesouros que a ferrugem do mundo acaba roendo. Há coisas que o tempo estraga, mas há afetos que ele amadurece, feito fruta no pé do quintal.
Dói ver tanta gente da cidade se contentando apenas em existir. Vêm ao mundo para ser mais um número perdido no aperreio das estatísticas, correndo atrás do vento sem nunca alcançar sossego. Isso não cabe na cabeça do sertnejo. O sertão, quando é do bem, ensina diferente. Ensina que viver é repartir.
É botar mais água no feijão para render visita repentina. É dividir o último punhado de farinha com sorriso aberto. É repartir o pão quando a fome aperta. O povo sertanejo entende dessas grandezas miúdas que nem doutor nem livro difícil conseguem explicar.
Ser do sertão é compreender que ninguém passa a vida sozinho. É acudir primeiro os irmãos, matar a fome de quem está ao lado, dar de beber aos afogados no deserto das futilidades. Porque há muita sede escondida por trás das aparências luminosas.
Quem sabe a felicidade seja apenas isso: uma mesa simples, um coração desarmado e a generosidade tranquila de quem aprendeu, de cor e salteado, que o melhor da vida só presta quando é dividido.
No frigir dos ovos, vai ver que esse sertão nem seja um lugar, mas um jeito de carregar o omelete da vida dentro da gente.
*Totonho Laprovítera
Arquteto urbanista, escritor e artista plástico.