Com o título “Alternância a qualquer custo é ato inconsequente e irresponsável”, eis artigo de Valdélio Muniz, mestre em Direito Privado, professor de Direito Processual do Trabalho e analista judiciário. “Votar por “vingança” pode se voltar contra o próprio eleitor, contra a democracia e contra o Estado e a nação”, expõe o articulista
Confira:
Assistindo, com muito esforço, à intragável propaganda do principal candidato da oposição à Presidência da República, vejo discursos embalados na emoção (no cinismo e na desfaçatez) que o marketing eleitoral sabe bem produzir. Abundam propostas mirabolantes, feitas sob encomenda de demandas sociais alimentadas no medo e no ódio para esconder a folha corrida do candidato. Falta, porém, até agora, apresentar o que o governo do seu grupo realizou de bom para a população entre 2019 e 2022, em vez de se limitar à surrada e infantil estratégia de apenas bater no adversário e prometer fazer o que, quando teve oportunidade, não fez (ou pior, fez em sentido contrário!).
Mas, a razão é clara: não se pode mostrar o que não existiu. Melhor mesmo direcionar os canhões (especialidade do grupo!) para quem de fato realizou, sobretudo quando as realizações contrariam frontalmente os interesses de quem patrocina a campanha deste mesmo opositor.
Curioso, mas nem tanto, é que nem seus apoiadores parecem sentir falta da apresentação, em campanha, daquilo que supostamente tivesse realizado o desgoverno do malfadado grupo. Também sabem (ou será que têm mesmo consciência?) que não há, de fato, nada de bom a
mostrar. Curioso também é notar que nem mesmo qualquer dos partidos que lhe deu sustentação parlamentar e ocupou ministérios à época, aceitou embarcar nesta campanha, fingindo preferir neutralidade. Ou seja, o desgoverno do inominável foi “tão bom” que seu filho não conseguiu sequer um candidato a vice que não fosse do próprio partido.
Ademais, nenhum sentido faz exigir racionalidade de quem sabe que seus seguidores não necessitam de qualquer razão (ou a ignoram conscientemente), pois agem movidos igualmente por rancores e ressentimentos sabe-se lá com quais (tantas) origens. Dissonância cognitiva? Indignação seletiva? Lavagem cerebral? Algo que nem a Psicologia (ou a Psiquiatria) talvez ouse tentar explicar.
Se em 2018 era minimamente compreensível, no embalo pós-Mensalão ou da onda lavajatista, supor que existia de fato alguma motivação anticorrupção nos pretensos discursos indignados de alguns, os fatos que se sucederam a partir do governo do inominável tornam
injustificável repetir o mesmo discurso e persistir em tão grave erro, denotando apenas que, em verdade, nunca foi esta a verdadeira razão do inconformismo.
Que fatos foram estes? Manifestações de desprezo e desumanidade às vítimas da Covid, familiares e amigos; descaso na aquisição de vacinas e de oxigênio; privatizações irresponsáveis como da BR Distribuidora e oleodutos; pressões políticas mais do que escancaradas sobre a
Polícia Federal para impedir investigação dos que lhe são ou eram próximos; tratamento de servidores públicos como “parasitas”; descaso com políticas ambientais imprescindíveis e aumento exagerado do desmatamento; favorecimento de interesses escusos de pseudoaspirantes a banqueiros como o dono do Master; desmantelamento de políticas públicas e sociais como Farmácia Popular e Mais Médicos; completo abandono da cultura; desrespeito absoluto à democracia, pós-derrota, e às instituições e poderes constituídos (com tentativa de golpe e até
plano de assassinato de autoridades) e tantas outras “boiadas” que nem caberiam aqui.
O desejo de mudança, de renovação, de alternância de poder é legítimo e salutar. Mas, nem sempre! É válido e defensável quando se tem entre as opções disponíveis alguma que realmente sinalize avanços e melhoria não apenas em discursos, repito, embalados pelo marketing eleitoral, mas em autoridade moral, história (trajetória) ilibada e compromisso verdadeiro com os interesses coletivos do País, disposição para se portar com altivez e defender a soberania do povo (nação) e não com comprovadas e repetidas demonstrações de subserviência a potências estrangeiras (que só se preocupam com os próprios anseios de poder e apropriação) e com o único propósito de “libertar” (ou anistiar) os que lhe dão suporte.
Alternância a qualquer custo é ato inconsequente e irresponsável. Põe em risco a si e a toda uma coletividade e pode ter efeitos irreparáveis ou que demandem décadas para uma necessária e posterior reconstrução. A história de um povo deve se pautar pelo compromisso de seguir em frente, realizando eventuais ajustes necessários e adequados às novas demandas, e não pelo retrocesso à era colonial e escravocrata, etapas que se supunham (ou se deveria supor) duramente superadas.
A responsabilidade própria de escolhas eleitorais é imensa (consigo e com uma coletividade). Não pode ser reduzida de modo simplista a entender que reconduzir o governo de plantão (federal ou estadual) significa necessariamente legitimar integralmente suas ações ou concordar em gênero, número e grau com os seus posicionamentos. É preciso ter a grandeza de analisar com absoluta cautela as propostas efetivamente disponíveis em cada candidatura (no contexto limitado das opções efetivamente disponíveis e não daquelas ideais, mas que não foram lançadas).
E é imprescindível, sobretudo, não ignorar os históricos e as forças que se somam no entorno de cada candidato (suas contradições e incoerências) com a certeza de que nenhum eventual erro pode justificar o cometimento de erros ainda claramente maiores. Sem isso, perde-se completamente o direito de arrependimento tardio e a justificativa de que buscou o melhor para o Estado ou o País (e não para a satisfação dos próprios ressentimentos e rancores).
Votar por “vingança” pode se voltar contra o próprio eleitor, contra a democracia e contra o Estado e a nação. E, no contexto atual de diversificadas fontes de informação e checagem, tudo que não se pode depois é alegar desconhecimento para encobrir a aceitação de manipulações e mentiras. Ignorar a história (como se memória curta não fosse reparável pela busca de fontes de informações de qualidade) leva a tragédias que nações e pessoas minimamente inteligentes não se permitiriam.
*Valdélio Muniz
Mestre em Direito Privado, professor de Direito Processual do Trabalho e analista judiciário.