Com o titulo “Ancelotti aprendeu rápido e gostou do jeitinho brasileiro”, eis a coluna “Fora das 4 Linhas”, assinada pelo jornalista Luiz Henrique Campos. ”
Confira:
Carlo Ancelotti chegou ao Brasil cercado de pompa, como convém a um treinador que empilhou títulos e construiu carreira que dispensa apresentações. Veio da elite do futebol europeu, reverenciado, sem precisar provar absolutamente nada a ninguém. Aceitou o desafio de comandar a Seleção sem aquele peso dramático de quem joga a própria história.
Se vencer a Copa, ótimo, mais uma taça no currículo. Se não vier o título, a biografia seguirá intacta. E talvez por isso tenha se adaptado tão rápido. Gostou do Brasil com a leveza de quem se permite viver. Abraçou o samba, sorriu para as praias, entendeu o charme espontâneo da nossa cultura e logo parecia velho conhecido da casa. Deu entrevistas descontraídas, estrelou comercial de cerveja, entregou simpatia e se deixou seduzir pela informalidade sedutora do espírito brasileiro.
Também não há muito do que reclamar. Tem, talvez, o melhor emprego do mundo. Salário milionário, estrutura de excelência, pressão diluída pela idolatria e o privilégio de trabalhar poucas vezes ao ano com alguns dos jogadores mais talentosos do planeta. Mas Ancelotti parece ter absorvido rápido peculiaridade bem nossa, como o jeitinho brasileiro.
A convocação de Neymar é o retrato acabado disso.
O que começou como lobby de ocasião, logo virou comoção nacional. E o italiano, já quase nativo, cedeu à pressão e saiu-se bem na foto ao anunciar, na última sexta-feira, a inclusão do menino Ney na lista. Menos de uma semana depois, porém, veio à tona a contusão sofrida pelo atacante em jogo disputado dias antes da convocação. Em um futebol cercado de tecnologia e monitoramento, é impossível imaginar que a comissão técnica não soubesse exatamente dessa condição.
Neymar foi chamado machucado. Não se sabe quando volta, nem se voltará no ideal que, já há algum tempo, deixou de ser tão ideal assim. Mas, Ancelotti aprendeu depressa que, por aqui, muitas vezes importa menos ganhar ou perder. O essencial é não desagradar ninguém e, sobretudo, continuar bem na fita.
*Luiz Henrique Campos
Jornalista e titular da coluna “Fora das 4 Linhas”, do Blogdoeliomar.