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“Arquitetura da falsidade” – Por Flamínio Araripe

Flamínio Araripe é jornalista e pesquisador. Foto: Arquivo Pessoal.

Com o título “Arquitetura da falsidade”, eis artigo de Flamínio Araripe, jornalista e pesquisador. “O quadro de decadência do político que afronta a verdade se torna mais sórdido com o hábito de agredir seu adversário. No mesmo espectro da mentira, o vínculo com a maldade se revela com o ódio, praticado como atribuição de valor e ampliado para seus seguidores, que ontem eram seus oponentes”, expõe o articulista.

Confira:

O presente artigo nasce da urgência de diagnosticar um fenômeno alarmante na corrida eleitoral ao governo do Estado do Ceará: o uso sistemático, metodológico e cínico da mentira por um candidato. Quando a falsidade deixa de ser um desvio ocasional e passa a estruturar uma campanha política, ela transcende a mera propaganda enganosa — convertendo-se em um projeto de degradação institucional e moral. À luz de grandes pensadores da história humana (Maimônides, Montaigne, Dostoiévski, Steiner e as tradições da sabedoria bíblica e judaica), examinamos como a mentira corrói não apenas a verdade dos fatos, mas a própria alma de quem a pratica e da sociedade que a tolera.

1. A mentira como corrupção do ser e ruína do caráter

A história do pensamento humano converge em um ponto unânime: a mentira nunca é neutra. Para Maimônides, ela representa um desvio profundo que afasta o homem de sua finalidade suprema — a retidão moral e a verdade intelectual. Na visão maimonidiana, enquanto a verdade é o selo divino, a mentira atrai a aversão da ordem cósmica. No campo social, a proibição da inverdade é o pilar que impede a convivência humana de desagradar no caos e na violência absoluta, figurando ao lado das leis contra o homicídio e o furto.

Quando um candidato adota a mentira sistemática para atingir o poder — um fim totalmente desprovido de mérito intrínseco —, ele engendra o que a tradição mística e filosófica chama de caráter “escrito na areia”. Carecedor de substância, esse edifício de falsidades desmorona diante da luz da realidade, assemelhando-se ao “arco enganoso” cujas setas nunca atingem o alvo legítimo, voltando-se para destruir o próprio artífice.

“O mais difícil da vida é viver e não mentir e… não acreditar na própria mentira.” — Fiódor Dostoiévski

2. O mecanismo da autodestruição psíquica e moral

Fiódor Dostoiévski e Michel de Montaigne aprofundam-se na patologia íntima do mentiroso contumaz. Montaigne classificou a mentira como um “vício maldito” e odioso, argumentando que a única ligação entre os seres humanos é a palavra. O mentiroso, ao alternar seu discurso conforme a conveniência — dizendo “uma hora cinza, outra hora amarelo” —, enreda a si próprio em um emaranhado de contradições. É o estado de “indigerível conflito”, onde a consciência se corrompe e o indivíduo perde irremediavel mente a dignidade e a liberdade interior.

Dostoiévski demonstra que a mentira persistente gera uma “dupla personalidade patológica” e uma insânia moral que conduz ao isolamento espiritual. O político que mente rotineiramente para manipular o eleitorado cearense sofre de uma “monstruosidade moral” (Bezobrazie): perde a forma genuinamente humana e transforma-se em um impostor incapaz de discernir o bem do mal. A falsa competência e a vaidade doentia cobram seu preço na perda total do respeito próprio e na criação de espíritos de trevas.

3. A degradação evolutiva e a cegueira social

Sob a perspectiva antroposófica de Rudolf Steiner, a mentira atua como uma força de degradação evolutiva. Steiner adverte que as meias-verdades — tão comuns na retórica política polida — são ainda mais perigosas do que as mentiras integrais, pois infiltram o erro sob a aparência de justificativa legítima. A falsidade contumaz atua como instrumento de potências hostis para gerar o caos social e desorientar a comunidade.

Na política cearense, assiste-se ao perigo do “sepulcro caiado”: uma fachada reluzente de promessas e discursos vazios que esconde uma alma pública podre e morta por dentro. Quando a mentira se normaliza, a sociedade inteira adoece, regredindo a um estágio de cegueira onde o mérito é aniquilado pela demagogia.

O quadro de decadência do político que afronta a verdade se torna mais sórdido com o hábito de agredir seu adversário. No mesmo espectro da mentira, o vínculo com a maldade se revela com o ódio, praticado como atribuição de valor e ampliado para seus seguidores, que ontem eram seus oponentes.

*Flamínio Araripe,

Jornalista e pesquisador.

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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