“As palavras cansam? Reflexões sobre linguagem, literatura e os usos das palavras” – Por Mirelle Costa

Recentemente, um escritor renomado manifestou incômodo diante do que chamou de “apoteose do chavão” em um texto curatorial de uma exposição de arte, em abril.

Entre as expressões criticadas estavam termos como “atravessamento”, “atravessar”, “camadas”, “habitar um corpo” e até mesmo o frequente uso da palavra “corpos”. Para ele, trata-se de um repertório de fórmulas repetidas à exaustão em determinados ambientes culturais e acadêmicos. Na avaliação do escritor, quem recorre a esse vocabulário muitas vezes acredita estar produzindo um texto sofisticado, quando, na verdade, estaria apenas reproduzindo cacoetes de linguagem.

A observação não ficou restrita àquela ocasião. Meses depois, o mesmo escritor voltou ao tema ao comentar um evento literário intitulado A Escrita que Atravessa. Novamente, chamou atenção para aquilo que considera um excesso de expressões recorrentes no discurso cultural contemporâneo. Em suas observações, apontou palavras como “potência”, “atravessamentos”, “identidades” e “territórios” como exemplos de termos que, de tanto serem repetidos, acabam se desgastando e perdendo parte de sua força expressiva.

As críticas provocaram dezenas de reações e abriram espaço para outras leituras sobre o assunto. Ouvida pela coluna Cafezim com Literatura, a professora e pesquisadora Denise da Costa, doutora pela Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), defende que as palavras pertencem à língua e podem ser utilizadas por todos. Segundo ela, os significados não são fixos, mas transformam-se ao longo do tempo, variam de região para região e acompanham as mudanças da sociedade.

Denise lembra que “atravessamento”, por exemplo, não é uma invenção recente nem um modismo sem origem. “A palavra existe no português e significa travessia, passagem para o outro lado. Ela ganhou novos sentidos em determinadas correntes da psicanálise e da filosofia, especialmente a partir dos trabalhos de Gilles Deleuze e Félix Guattari, na década de 1970. Nesse contexto, passou a expressar a ideia de que os sujeitos são influenciados não apenas pelas relações familiares, mas também pelos contextos políticos, históricos e sociais nos quais estão inseridos”, explica.

Para a pesquisadora, conceitos originados no universo acadêmico não devem permanecer restritos às universidades, ao contrário, é importante que circulem socialmente e sejam apropriados por públicos diversos. Ela reconhece, entretanto, que o uso excessivo de determinadas expressões pode gerar desgaste e provocar cansaço em quem lê ou ouve. Por isso, defende a ampliação constante do repertório linguístico por meio da leitura e do contato com diferentes formas de escrita.

A escritora e professora Sarah Diva Ipiranga acrescenta outro olhar à discussão. “Quanto aos modismos acadêmicos, acho que fazem parte, embora mereçam uma reflexão”, observa. O que mais a incomoda, porém, não é a existência desses vocábulos, mas a maneira como o debate é conduzido. “Transformar isso em jogo midiático é o que me incomoda, pois, com o sarcasmo, fica-se no mesmo plano raso do clichê”, afirma. Para ela, a crítica aos lugares-comuns da linguagem também precisa escapar das simplificações e buscar uma reflexão mais profunda sobre os modos de produção e circulação do discurso.

No fundo, a polêmica talvez revele menos uma disputa sobre palavras específicas e mais uma questão antiga da literatura e da comunicação: como equilibrar clareza, precisão conceitual e originalidade? Entre o risco do jargão e a necessidade de nomear experiências contemporâneas, a língua segue seu percurso natural: viva, dinâmica e em permanente transformação. Afinal, palavras nascem, circulam, ganham novos sentidos, desgastam-se e, muitas vezes, renascem em outros contextos. Talvez seja justamente essa capacidade de movimento que mantenha a linguagem tão fascinante — e tão sujeita a debates.

Projeto IAC Literário

Instituto Aço Cearense promove 1ª edição do Projeto IAC Literário com inauguração de minibibliotecas em comunidades da Caucaia

Com o objetivo de promover o acesso à leitura, à arte e à formação cultural, o Instituto Aço Cearense (IAC) lança, no dia 27 de junho, a primeira edição do IAC Literário. O projeto busca construir um legado social, educacional e emocional por meio do acesso à literatura para crianças de 6 a 12 anos com a entrega de minibibliotecas. O evento de lançamento será no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, a partir das 9h, e contará com sarau, contação de histórias e a apresentação do espetáculo “Bicho Alumbroso nas entranhas do Encanto”, da Trupe Motim de Teatro. Além do público assistido pelo IAC, a programação é aberta ao público em geral. A primeira minibiblioteca será inaugurada no dia 13 de julho na Escola de Campeões, localizada no bairro Camurupim, em Caucaia.

SERVIÇO

1º IAC LITERÁRIO:

27/06 sábado (Lançamento) – Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura | Rua Dragão do Mar, 81, Praia de Iracema – Fortaleza

13/07 segunda – Escola de Campeões | Rua Raimundo Nonato Alexandre, 1273, Camurupim – Caucaia

14/07  terça – Instituto Viver | Avenida Raposo Tavares, 1422, Japuara – Caucaia

15/07 quarta – Patronato Santana – Rua Felipe Fernandes Neto, Parque Leblon – Caucaia

Mirelle Costa: Mirelle Costa e Silva é jornalista, mestre em gestão de negócios e escritora. Atualmente é estrategista na área de comunicação e marketing. Possui experiência como professora na área de jornalismo para tevê e mídias eletrônicas. Já foi apresentadora, produtora, editora e repórter de tevê, além de colunista em jornal impresso. Possui premiações em comunicação, como o Prêmio Gandhi de Comunicação (2021) e Prêmio CBIC de Comunicação (2014). Autora do livro de crônicas Não Preciso ser Fake, lançado na biblioteca pública do Ceará, em 2022. Participou como expositora da Bienal Internacional do Livro no Ceará, em 2022.
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