“Margem da Palavra: quando a literatura ocupa o merecido espaço” – Por Mirelle Costa

Tércia Montenegro, Talles Azigon e Marcelino Freire

Peça licença, mas não deixe de entrar. Essa frase, que é do amigo e escritor Bruno Paulino, cabe sempre que preciso destacar a importância do nosso fazer literário. E fazer não significa somente escrever, muitas vezes, fazer também é ouvir.

O projeto Margem da Palavra é uma iniciativa gratuita realizada pelo Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura e pela Biblioteca Pública Estadual do Ceará (Bece). Sempre que posso, compareço. Quando não, lamento.

Realizado no minianfiteatro, espaço que liga os dois equipamentos culturais, o projeto parece ter escolhido o cenário perfeito para simbolizar seu intuito, afinal, não existe lugar mais apropriado para a palavra do que uma ponte. Entre um lado e outro, entre o livro e a voz, entre a tradição oral e a literatura escrita, o Margem da Palavra cria um espaço de convergência onde autores, leitores e curiosos compartilham experiências que ultrapassam a simples conversa sobre livros.

Foi exatamente essa atmosfera que reuniu, na mais recente edição, realizada no último dia 23 de junho, dois dos mais importantes escritores brasileiros da atualidade: o pernambucano Marcelino Freire e a cearense Tércia Montenegro, em um encontro mediado pelo poeta, editor e livreiro Talles Azigon. O tema, “Escrita e Imagem como Invenção de Mundo”, serviu de ponto de partida para reflexões sobre memória, criação literária e o olhar que transforma experiências em narrativa.

Durante a abertura, Talles Azigon nos fez refletir que a palavra talvez não possua uma imagem própria, mas é justamente ela quem dá forma a todas as imagens possíveis. Chamou Marcelino e Tércia de “desenhistas da palavra”, capazes de inventar pessoas, lugares e situações por meio da linguagem, lembrando que nem tudo está revelado sob a intensa luz do Nordeste. Há sempre algo que precisa ser contado.

A superintendente da Bece, Suzete Nunes, destacou que a parceria entre a biblioteca e o Dragão do Mar nasce justamente desse desejo de integração. “A Biblioteca Pública, nos seus 159 anos, e o Centro Cultural Dragão do Mar, que recentemente também celebrou aniversário, são dois espaços de referência para a cidade. O Dragão trabalha com múltiplas linguagens e recupera uma vocação importante para a literatura, enquanto a Biblioteca já é, por natureza, a casa da palavra, do livro e da leitura. É uma parceria construída em conjunto para transformar este lugar em um espaço de convergência.”

A proposta do programa foi apresentada por Marta Pinheiro, produtora cultural que lembrou que a palavra — escrita ou falada — conecta dimensões simbólicas, políticas, individuais e coletivas, abrindo espaço para reflexões sobre memória, ancestralidade, território e resistência.

Ao falar sobre sua formação como leitor, Marcelino Freire emocionou o público ao recordar que, antes dos livros, sua primeira literatura estava dentro de casa. Nas ladainhas, nas rezas, nos ruídos e nas queixas de sua mãe. Quando encontrou Manuel Bandeira, reconheceu naquela poesia sentimentos que já conhecia desde a infância. “Quando a gente lê uma poesia, é a alegria da gente que lê essa poesia. É a saudade da gente que lê essa poesia. É o abandono que lê essa poesia. Eu reconheci naquela palavra escrita aquilo que já carregava comigo”.

Marcelino Freire e a escritora Glória Guará

Tércia Montenegro, por sua vez, contou que cresceu cercada de livros e leitores. Aos doze anos, descobriu Lygia Fagundes Telles e encontrou, nos finais abertos da escritora, uma nova maneira de compreender a literatura. Mais tarde, já pesquisadora e professora universitária, percebeu que o estudo nunca esgota o mistério da criação. “Quanto mais eu estudo, mais percebo que nunca será suficiente. Isso me tranquiliza, porque continuo me espantando diante da leitura e da escrita”.

A autora também comentou o processo de criação de seu premiado romance Turismo para Cegos. A ideia nasceu da inquietação em imaginar como alguém percebe o mundo sem o sentido da visão. No entanto, como explicou a escritora, o título acabou adquirindo um significado ainda maior. “Ao final da história percebi que havia uma mensagem mais metafórica sobre o próprio percurso da vida”, revela.

Mais do que aproximar escritores consagrados do público, o Margem da Palavra reafirma a importância dos espaços públicos como territórios de formação cultural. Em tempos de encontros cada vez mais rápidos e superficiais, iniciativas como essa lembram que a literatura continua sendo uma poderosa forma de escuta.

Talvez seja justamente essa a maior beleza do projeto: mostrar que a palavra nunca está sozinha. Ela nasce da memória, atravessa a oralidade, encontra o livro e retorna ao mundo transformada em diálogo. E, nesse caminho, transforma também quem a escuta.

Tércia Montenegro

Um dos momentos mais marcantes do encontro foi quando Marcelino Freire explicou que sua literatura nasce daquilo que chama de “técnica de sobrevivência”. Para o escritor, cada conto é uma forma de enfrentar as dores do mundo e de transformar indignação em criação.

Ao comentar o conto Da Paz, publicado em Contos Negreiros e recentemente incorporado ao espetáculo de Emicida, Marcelino lembrou que o texto foi escrito em 2006, durante a onda de violência que atingiu São Paulo. Naquele período, segundo ele, o discurso público exaltava campanhas pela paz, enquanto muitas mães conviviam com a perda dos filhos em ações policiais.

“Eu escrevo para me vingar”, afirmou, explicando que a escrita é uma resposta às narrativas que invisibilizam essas histórias. Foi desse sentimento que nasceu a provocação presente no conto: “Eu não sou da paz. Paz é coisa de rico.”

O autor explicou que o ritmo do texto também carrega uma herança familiar. A repetição quase litúrgica das frases nasceu das ladainhas, rezas e cantorias ouvidas durante a infância no sertão pernambucano, especialmente na voz de sua mãe. “Essa ladainha vem da ladainha sertaneja da minha mãe”, resumiu.

Mais do que um manifesto, o conto se tornou, ao longo de duas décadas, um retrato da permanência de temas como violência, desigualdade e luto. Ao ser incorporado recentemente ao espetáculo de Emicida, ganhou novas leituras e voltou a dialogar com outras gerações, reafirmando a força da literatura como instrumento de memória, denúncia e sobrevivência.

Se Marcelino Freire apresentou a escrita como resistência e sobrevivência, Tércia Montenegro revelou ao público uma dimensão profundamente íntima da criação literária.

Ao comentar seu romance Um Prego no Espelho, a escritora explicou que a construção das personagens foi precedida por pesquisas em psicanálise lacaniana. Não para transformar o romance em um tratado teórico, mas para compreender aquilo que permanece invisível aos olhos do leitor.

“A gente sempre tem que saber mais da personagem do que a personagem diz ou demonstra”, afirmou.

Embora considere o livro profundamente psicológico, Tércia destacou que a narrativa também nasce de imagens. “A própria ideia do espelho remete à imagem, mas é uma imagem ligada à identidade e ao autoconhecimento”, explicou.

Foi nesse momento que a conversa ganhou um tom confessional. A autora revelou que o romance dialoga diretamente com sua própria história familiar. Seu nome, contou, foi escolhido porque ela seria a terceira filha. O segundo filho da família, porém, não chegou a nascer.

“Passei a vida inteira ouvindo: ‘você é a terceira filha, mas cadê o segundo?’. Terapeuticamente, tive que lidar com essa existência suplente”, disse.

Segundo a escritora, essa experiência ajudou a compreender sua relação com a ficção. “Acho que fui para a literatura como uma tentativa de viver várias vidas. Uma vida só não é suficiente. Eu vivo por mim e também por ele, que não teve essa oportunidade”, desabafa.

A revelação emocionou o público ao mostrar como a literatura pode transformar ausências em narrativa e fazer da escrita um exercício permanente de elaboração da memória. Ao final, Tércia resumiu a inquietação que atravessa seu romance: “Será que estou vivendo bem o suficiente para honrar uma vida que não ficou?”.

Mirelle Costa: Mirelle Costa e Silva é jornalista, mestre em gestão de negócios e escritora. Atualmente é estrategista na área de comunicação e marketing. Possui experiência como professora na área de jornalismo para tevê e mídias eletrônicas. Já foi apresentadora, produtora, editora e repórter de tevê, além de colunista em jornal impresso. Possui premiações em comunicação, como o Prêmio Gandhi de Comunicação (2021) e Prêmio CBIC de Comunicação (2014). Autora do livro de crônicas Não Preciso ser Fake, lançado na biblioteca pública do Ceará, em 2022. Participou como expositora da Bienal Internacional do Livro no Ceará, em 2022.

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