Um mosaico é feito de pedaços diferentes. Cada peça tem sua forma, sua cor, sua história. Quando reunidas, elas compõem uma imagem maior. Talvez seja assim também a literatura que chega até nós: múltipla, diversa, feita de vozes que nem sempre ocupam as grandes vitrines, mas que estão escrevendo, publicando, divulgando e tentando encontrar seus leitores.
Desde a coluna da semana passada estou investindo em um mosaico literário. Confesso que fiquei entusiasmada quando li tantos comentários de vocês, leitores, sobre essa minha iniciativa de partilhar minha caixa de emails e do correio com vocês. Recebo diariamente releases, sinopses, apresentações de livros, convites e informações sobre lançamentos. Escritores contam um pouco de suas histórias e apresentam aquilo que, muitas vezes, levou meses ou anos para ficar pronto: seu livro, sua obra prima, a Sua Verdade.
E eu sou muito grata por isso.
Esta coluna também nasceu para ser espaço de circulação da literatura. Então, quando alguém me escreve para apresentar sua obra, minha primeira reação é de agradecimento. A segunda é pensar: como posso, de alguma maneira, devolver esse gesto?
É por isso que dou continuação esta semana ao que estou chamando de mosaico literário.
Enquanto alguns colegas escritores chegam até mim com seus livros na esperança de conseguir uma divulgação, eu também estou do outro lado dessa mesma estrada. Também escrevo. Também publico. Também apresento meus livros. Também tenho a expectativa de que eles encontrem leitores, que sejam comentados, que cheguem a clubes de leitura, bibliotecas, escolas, eventos e mesas de discussão.
Estamos todos, de alguma maneira, na luta.
É por isso que gosto tanto de uma frase que o escritor Bruno Paulino costuma dizer: “Peça licença, mas não deixe de entrar.”
Talvez essa seja uma das melhores posturas para quem está começando. Para quem é autor independente. Para quem ainda é pequeno diante das grandes estruturas do mercado editorial. Para quem não tem uma editora poderosa, uma grande campanha de divulgação ou uma fila de leitores esperando pelo próximo livro.
Peça licença, mas entre.
Apresente seu trabalho.
Mande seu release.
Converse com jornalistas, blogueiros, podcasters, professores, bibliotecários, livreiros e clubes de leitura.
Bata às portas.
Porque, se nós não apresentarmos aquilo que fazemos, como o leitor vai saber que existimos?
E, assim, recebo os autores desta semana. Não como uma lista de livros a serem consumidos, mas como escritores que estão movimentando a literatura e que merecem ser conhecidos.
Vamos ao nosso mosaico:
Fortaleza no ano 2100
A ficção científica também chegou ao nosso Cafezim.
Quem me escreveu foi Ive Cardom, pseudônimo literário de Ive Marian de Carvalho Domiciano, para apresentar Juvaserum, romance publicado pela Editora Viseu.
A história nos leva para uma Fortaleza do ano 2100. Só essa informação já desperta a curiosidade de quem gosta de pensar a literatura produzida no Ceará a partir de outros imaginários.
Na trama, uma revolução biotecnológica transforma o envelhecimento em uma escolha. A corporação NeoAge Biotech comercializa um tratamento capaz de devolver juventude, saúde e beleza.
Dóris e Renato são um casal que compartilha décadas de vida e enxerga nessa tecnologia uma possibilidade de enfrentar um câncer terminal e começar novamente.
Mas apenas Dóris consegue completar a transição.
E é a partir daí que o romance começa a fazer perguntas que, embora pertençam a uma ficção situada no futuro, não parecem tão distantes das inquietações do nosso presente.
Até onde estamos dispostos a ir para escapar da mortalidade?
O que acontece quando a tecnologia nos oferece a possibilidade de interferir no próprio envelhecimento?
E qual seria o preço humano dessa busca?
Há ainda um elemento que me interessa particularmente: Fortaleza ocupa o centro desse futuro distópico.
Ive é doutora em Linguística Aplicada e mestra em Letras, com uma trajetória ligada à pesquisa, à educação e ao estudo da linguagem. Com Juvaserum, realiza também um sonho cultivado desde a infância: transformar a escrita criativa em livro.
E talvez seja bonito pensar nisso: uma menina que sonhava em escrever livros encontra, décadas depois, o caminho para colocar esse sonho nas mãos dos leitores.
Crônicas de uma vida profissional
Outro material que chegou ao Cafezim foi enviado por José Nivaldo Tornisiello, professor, palestrante, consultor e escritor.
Ele apresenta uma trilogia de crônicas formada por Menino José, Menino!, publicado em 2023; Sessentinha, de 2024; e Enquanto o mundo acontece, lançado em 2025.
São mais de 250 crônicas reunidas em aproximadamente mil e duzentas páginas.
Aqui, a literatura nasce de um lugar muito particular: a experiência profissional.
José Nivaldo acumula 48 anos de trajetória e passou por empresas como Philips do Brasil, Vicunha Têxtil e Avco Chemicals. Também atua como professor em cursos de extensão e MBA e como palestrante nas áreas de liderança, gestão de pessoas, carreira, logística e cadeia de suprimentos.
E isso me faz pensar em uma coisa que a literatura insiste em nos ensinar: não existe um único lugar de onde a literatura possa nascer.
Pode nascer da infância.
De uma paixão.
De uma perda.
De uma viagem.
De uma sala de aula.
E pode nascer também de décadas de trabalho, de reuniões, de empresas, de pessoas encontradas pelo caminho, de experiências acumuladas e da observação cotidiana.
O mundo profissional, quando atravessado pelo olhar de quem escreve, também pode virar literatura.
O soneto continua vivo
E quem disse que o soneto ficou no passado?
Quem trouxe essa provocação para o Cafezim foi o poeta cearense Gilliard Santos, nascido em Madalena e professor efetivo do Instituto Federal do Ceará.
Gilliard tem três livros publicados: Introito Poético, de 2018; Antes que a Música Termine, de 2024; e o recém-lançado Sinfonia de Sonetos.
O novo livro reúne 100 sonetos escritos desde 2020 e está organizado em seis movimentos: reflexões filosóficas; amor e as coisas simples da vida; arte poética e experimentações; paixão e sensualidade; temas políticos e sociais; e uma coda dedicada à morte.
Gilliard também tem uma trajetória expressiva em concursos literários e foi vencedor, em quatro ocasiões, do tradicional Concurso Augusto dos Anjos.
Mas o que mais chama atenção é a defesa de uma forma poética que continua encontrando espaço entre escritores contemporâneos.
O soneto está nos concursos, nos grupos de criação, nas antologias e nos livros.
E talvez essa seja uma das forças da literatura: algumas formas atravessam o tempo porque continuam capazes de dizer alguma coisa ao presente.
Iemanjá em mares verdes
Agora, o nosso mosaico ganha outra peça: território, ancestralidade, religiosidade e resistência.
Quem chegou ao Cafezim foi a geógrafa, professora e pesquisadora Ilaina Damasceno, autora de Iemanjá em Mares Verdes.
A obra nasceu de sua pesquisa de doutorado na Universidade Federal Fluminense e toma como objeto a Festa de Iemanjá em Fortaleza, celebração realizada há mais de cinco décadas e reconhecida como patrimônio imaterial da cidade em 2018.
Mas o livro vai muito além do registro de uma festa religiosa.
A pesquisa investiga como as religiões de matriz africana ocupam o espaço público e como essa presença pode se transformar em afirmação cultural, resistência e luta por visibilidade.
Com pesquisa de campo realizada entre 2011 e 2019, Ilaina acompanha a festa na Praia de Iracema e observa como música, gestos, corpos e indumentárias participam da construção de uma presença que é, ao mesmo tempo, religiosa, cultural e política.
A autora chama essa experiência de “fazer política com o corpo”.
É uma expressão forte porque nos ajuda a compreender que ocupar um espaço público também pode ser uma forma de disputar narrativas sobre quem somos, sobre quais memórias merecem ser preservadas e sobre quais manifestações culturais têm direito de existir e serem reconhecidas.
E há ainda uma dimensão especialmente bonita nessa pesquisa: a relação entre a tradição nordestina e a ancestralidade afro-brasileira.
A devoção a Iemanjá, a Grande Mãe, aparece como elemento de fortalecimento de identidades negras e indígenas no Ceará.
Para Ilaina, escrever esse livro também foi um reencontro com suas próprias raízes.
Natural de Quixadá, no sertão cearense, ela cresceu entre práticas católicas populares e referências à Jurema Sagrada. Foi no Rio de Janeiro, onde vive atualmente, que se aproximou mais profundamente da umbanda e do candomblé.
O processo de pesquisa também provocou transformações pessoais e acadêmicas e a aproximou das comunidades de terreiro, cujas vozes estão presentes na obra.
Ilaina Damasceno é doutora em Geografia pela UFF e professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, onde integra o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros. Sua trajetória acadêmica está ligada às relações étnico-raciais e ao espaço público.
Iemanjá em Mares Verdes é, portanto, uma obra que atravessa diferentes campos: geografia, cultura, memória, religiosidade, identidade e política.
Porque divulgar também é um gesto de leitura
E assim terminamos nosso mosaico desta semana.
Quatro autores.
Quatro livros.
Quatro maneiras diferentes de olhar para o mundo.
Uma Fortaleza imaginada no ano 2100. A memória de décadas de vida profissional transformada em crônica. Um poeta que reafirma a vitalidade do soneto. Uma pesquisadora que olha para a Festa de Iemanjá e revela as relações entre território, ancestralidade, identidade e resistência.
É isso que acontece quando os livros começam a circular.
E talvez seja essa a razão maior de eu agradecer tanto quando um escritor me escreve.
Porque enviar um release, uma sinopse, uma apresentação, não é apenas mandar um material para uma jornalista. É dizer: “Eu escrevi. Eu publiquei. Eu estou aqui.”
E minha resposta, quando posso abrir este espaço, é também uma forma de dizer:
“Eu recebi. Eu vi. Eu reconheço o seu trabalho. Entre.”
Que este Cafezim seja, cada vez mais, uma porta entreaberta.
Peça licença.
Mas não deixe de entrar.
E, se você escreve, publique, apresente, circule, procure seus leitores.
Porque livro guardado na gaveta é possibilidade.
Livro que circula é encontro.
E literatura, no fim das contas, só completa seu caminho quando encontra alguém disposto a ler.
Há braços (e abraços também)
Obrigada pela leitura, amigos!