“Onde está a literatura no debate eleitoral?” – Por Mirelle Costa

Como jornalistas e mediadores de debates e sabatinas, priorizamos saúde, segurança, educação, economia, infraestrutura, emprego, turismo. Precisamos mesmo perguntar, afinal, são temas fundamentais, mas por que quase nunca perguntamos sobre livros e bibliotecas? Sobre formação de leitores? Sobre a sobrevivência das livrarias? Sobre os escritores cearenses? Sobre a produção literária no interior? Sobre políticas públicas permanentes para o livro e a leitura?

A imprensa também constrói a agenda pública. Aquilo que o jornalista pergunta ajuda a determinar aquilo que o candidato precisa responder. Aquilo que não é perguntado corre o risco de permanecer invisível.

E talvez seja justamente aí que nós, jornalistas, precisemos fazer uma autocrítica.
Não podemos cobrar dos políticos que reconheçam a importância de uma área se nós mesmos não a colocamos no centro da conversa pública.

Se perguntamos qual é o projeto para a educação, por que não perguntamos qual é o projeto para a leitura?

Não acredito viver em uma bolha. Em minha opinião, furamos a bolha. Vemos clubes de leitura todo dia sendo criados, no ambiente de trabalho, no grupo da família e nas redes sociais os livros estão ganhando cada vez mais espaço. Teremos literatura na Sapucaí no ano que vem. A Flip teve público recorde, mesmo com orçamento reduzido.

A literatura precisa de espaço no debate, em todos eles.

Se um candidato pode ser questionado sobre quanto pretende investir em determinada área, por que não pode ser perguntado sobre quanto pretende investir em bibliotecas, formação de leitores e políticas para o livro?

Se perguntamos como o Ceará pretende formar profissionais para o futuro, por que não perguntamos que lugar terá a literatura na formação dessas pessoas?

Recentemente tivemos a excelente notícia de que três escritores cearenses estão na semifinal do prêmio Oceanos de 2026. São eles Moacir Fio (indicado na categoria prosa com o romance Aranha Movediça, pela Editora Moinhos), Dalgo Silva (indicado na categoria poesia com o livro Matriarca Cidade, pela Editora 7 Letras) e Nina Rizzi poeta radicada no Ceará, (indicada na categoria poesia com Diáspora não é lar, pela Editora Pallas). Isso não é pouca coisa! Eles foram selecionados a partir de mais de três mil obras inscritas. O prêmio Oceanos é um dos prêmios literários mais importantes da comunidade lusófona.

Literatura também é política pública.

A legislação brasileira reconhece o acesso ao livro, à leitura, à escrita, à literatura e às bibliotecas como direitos. A Política Nacional de Leitura e Escrita, instituída pela Lei nº 13.696/2018, determina a cooperação entre União, estados e municípios. Já a Política Nacional do Livro estabelece, entre outras diretrizes, o incentivo à produção intelectual, à leitura e às bibliotecas.

Então, talvez seja hora de perguntar aos candidatos:

– Qual é o lugar da literatura no projeto de Estado que vocês estão propondo?

E essa pergunta não deve ser feita apenas a quem disputa o Governo.

Um deputado estadual pode atuar na criação e aperfeiçoamento de leis estaduais de incentivo à leitura e à literatura, fiscalizar políticas públicas, discutir orçamento e defender bibliotecas, programas de formação de leitores e ações de valorização dos escritores cearenses. A Constituição estabelece competência concorrente entre União, estados e Distrito Federal para legislar sobre cultura e educação.

O deputado federal pode trabalhar na legislação nacional, defender recursos no Orçamento da União, propor e aperfeiçoar políticas públicas para o livro e a leitura e atuar na construção de condições para toda a cadeia do livro — escritores, ilustradores, editores, livreiros, bibliotecas e leitores.

O senador também legisla em âmbito nacional, fiscaliza o Executivo e participa das decisões orçamentárias. Pode defender políticas nacionais permanentes para o livro, a leitura e a literatura, acompanhar sua execução e dar visibilidade a uma agenda que muitas vezes fica restrita ao campo cultural.

O Ceará não é somente uma terra que produziu e produz grandes escritores. A gente se compreende por meio deles.

Por isso, fica aqui a minha provocação do Cafezim com Literatura aos colegas jornalistas, colunistas, entrevistadores, apresentadores e veículos de comunicação: na próxima entrevista com um candidato, perguntem também sobre literatura, pode ser que a resposta revele muito mais sobre o projeto de sociedade que está sendo proposto do que imaginamos.

Foto extraída do Jornal O POVO/ Bruna Sousa/Divulgação; Willberth Costa/Divulgação; Fernanda Barros/O POVO Moacir Fio (à esquerda), Dalgo Silva (no centro) e Nina Rizzi (à direita)

Sarau das Virgens reúne poetas em Fortaleza e convoca todos os signos para a poesia

A poesia ganha um novo encontro em Fortaleza. Neste dia 3 de setembro, quinta-feira agora, às 19h, o Cantinho do Frango recebe a segunda edição do Sarau das Virgens, movimento que reúne escritores e poetas nascidos sob o signo de Virgem e, a partir dessa simbologia, lança um convite aos poetas de todos os signos para entrarem na roda da poesia.

Estarão presentes Ana Márcia Diógenes, Alexandre Almeida, Beatriz Caldas, Camila Guerra, Julie Oliveira, Hermínia Lima, Patrick Lima e Patrícia Cacau, todos virginianos e participantes da iniciativa.

A proposta brinca com características tradicionalmente associadas ao signo para pensar também o próprio fazer literário. Organização, planejamento, atenção aos detalhes, determinação, curiosidade e rigor aparecem nas falas dos participantes como diferentes formas de enxergar a relação entre personalidade e escrita.

Para Beatriz Caldas, organização e planejamento estão entre as características mais marcantes do escritor virginiano. Ela observa que esse autor costuma desenvolver um método próprio e pensar previamente não apenas no texto, mas também no conceito do projeto, na relação entre palavras, capa e título e até nos elementos da divulgação.

Ana Márcia Diógenes também encontra no signo uma espécie de sintonia com sua literatura. Para ela, a atenção aos detalhes do comportamento humano, o senso crítico e a percepção das estruturas que contribuem para o pensamento lógico são fundamentais para a escrita — inclusive quando a intenção é romper com esse mesmo pensamento. Ela destaca ainda o rigor crítico e o cuidado com a precisão das palavras.

Patrícia Cacau resume sua relação com a escrita em três palavras: determinação, coragem e lealdade à palavra. Entre suas obras estão Quintais, Poesia Nordestina (Cordel), Antes que a palavra morra, eu te peço 10 contos, A Hora da Onça, poemas para ler ao cair da tarde e Chita Urbana, a poesia como via. Ela também participa de coletâneas no Brasil e na Europa.

Para Alexandre Almeida, o escritor de Virgem sabe que nem mesmo a própria escrita pode ser totalmente controlada, embora tente “deixar tudo nos eixos”. Para ele, a arte é justamente aquilo que permite ser dominado. O autor publicou Magos da Música (2014), O passeio de Guto (2022), Meu amor, meu ódio (2023) e Coisas guardadas em peito parado (2026).

Julie Oliveira identifica no cuidado e na dedicação características marcantes de sua relação com a literatura. O envolvimento profundo com cada projeto, a atenção aos detalhes e a busca constante por aprimoramento fazem parte de seu processo criativo. Entre suas obras estão A Verdadeira História do Pavão Misterioso (2023), A História de Pandora em Nova Simbologia (2022) e Das Fogueiras ao Fogo das Palavras (2025).

A curiosidade é a característica que Patrick Lima mais reconhece em si. Observar, pesquisar e descobrir coisas novas, inclusive no cotidiano, são movimentos que, segundo ele, acabam aparecendo na escolha dos temas e na vontade de transformar descobertas em histórias capazes de despertar o interesse de outras pessoas. Entre suas obras estão Superstições Nordestinas (2026), História Indígena do João-de-Barro (2025) e Harry Potter e o Cactus Patronum (2023).

Camila Guerra, por sua vez, aponta determinação, autoconfiança e liderança como características que reconhece em sua trajetória. Gestora cultural e CEO da Casa das Poc – Produções Criativas, ela tem mais de 500 realizações desde 2019.

Entre os participantes está ainda Hermínia Lima, citada entre os poetas que integram o movimento.
Mais do que reunir escritores de um mesmo signo, o Sarau das Virgens usa Virgem como ponto de partida para uma provocação literária: se os virginianos chegam com sua organização, cuidado, curiosidade, rigor e determinação, que venham também os taurinos com a teimosia, os escorpianos com a intensidade, os sagitarianos com o espírito aventureiro e assim por diante.

Mirelle Costa: Mirelle Costa e Silva é jornalista, mestre em gestão de negócios e escritora. Atualmente é estrategista na área de comunicação e marketing. Possui experiência como professora na área de jornalismo para tevê e mídias eletrônicas. Já foi apresentadora, produtora, editora e repórter de tevê, além de colunista em jornal impresso. Possui premiações em comunicação, como o Prêmio Gandhi de Comunicação (2021) e Prêmio CBIC de Comunicação (2014). Autora do livro de crônicas Não Preciso ser Fake, lançado na biblioteca pública do Ceará, em 2022. Participou como expositora da Bienal Internacional do Livro no Ceará, em 2022.

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