Há um ano, eu estava prestes a embarcar para Brasília para viver um daqueles momentos que a gente guarda em algum lugar muito especial da memória. O livro Após a Morte do Conto de Fadas, a Ressurreição! havia conquistado o segundo lugar — menção honrosa — na categoria Mídia da 5ª edição do Prêmio Juíza Viviane Vieira do Amaral, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), dedicado a reconhecer iniciativas de prevenção e enfrentamento à violência contra a mulher.
Olhando hoje com nostalgia para aquela viagem, percebo que o prêmio foi apenas uma parte da história.
O que torna essa lembrança tão especial é que eu não fui sozinha.
Levei comigo Bruna Ramos, uma das autoras do livro. E Bruna estava prestes a fazer algo que, para muita gente, pode parecer absolutamente corriqueiro: andar de avião pela primeira vez.
Para mim, aquele voo tinha outro significado.
Bruna não estava simplesmente viajando para Brasília. Ela estava indo ocupar um espaço que, talvez, algum tempo antes, sequer imaginasse que pudesse ser seu. Estava indo a uma solenidade do Conselho Nacional de Justiça porque uma história que ela escreveu, junto com outras dez mulheres, havia atravessado os limites da Casa da Mulher Brasileira do Ceará e chegado a uma das instituições mais importantes do país.
E isso me emociona até hoje.
Após a Morte do Conto de Fadas, a Ressurreição! nasceu de uma Oficina de Escrita Afetuosa que ministrei, em agosto de 2024, para onze mulheres atendidas na Casa da Mulher Brasileira do Ceará. Foram 24 histórias escritas. Histórias de sofrimento, abandono, medo, fé, descobertas e, sobretudo, recomeço.
Como jornalista, minha primeira vontade era contar aquelas histórias, mas, em algum momento, compreendi que havia algo muito mais potente a fazer: ajudá-las a contar as próprias histórias.
Como escritora, percebi que, se elas se enxergassem como donas de suas vidas e autoras da própria escrita, poderíamos provocar uma transformação pessoal, um caminho sem volta.
Essa diferença é fundamental.
As histórias daquele livro não foram contadas por mim. Foram escritas por elas. Com pseudônimos, porque a violência doméstica também pode retirar da mulher o direito de expor o próprio nome. Por isso, na apresentação, assinei apenas com minhas iniciais, em solidariedade a elas.
Na obra, títulos como Lidando contra o meu eu, Será mesmo ruim com ele e pior sem ele?, Vencendo a dependência, A Barbie é de plástico, eu sou de Verdade e Por que eu. Cada um carrega uma dor, mas também anuncia alguma espécie de movimento.
Talvez por isso o nome do livro tenha se tornado tão simbólico.
Depois da morte do conto de fadas, havia uma possibilidade de ressurreição.
A publicação nasceu com incentivo da Lei Paulo Gustavo, por meio do IX Edital das Artes, da Secultfor, e ganhou ainda outros caminhos que eu jamais poderia imaginar quando começamos a oficina. Foi para a Bienal Internacional do Livro do Ceará. Chegou à Livraria do Senado. E, um ano atrás, chegou a Brasília.
Na solenidade do Prêmio Juíza Viviane Vieira do Amaral, o livro ficou em segundo lugar na categoria Mídia. O reconhecimento do CNJ deu visibilidade a uma experiência que, para mim, sempre foi muito maior do que um projeto literário.
Escrever pode ser também uma forma de reconstruir a própria existência.
Bruna escolheu o pseudônimo inesquecível “Como uma Fênix”. Ela escreveu Até o vento me doía e Limpando as vestes da Alma. Em uma de suas falas, disse que o projeto havia sido dolorido e libertador ao mesmo tempo. E contou que, depois da oficina, não parou mais de escrever.
É disso que falo quando penso naquela viagem.
O prêmio era do livro. Mas aquela viagem era também de Bruna.
Era o primeiro avião. Era Brasília. Era a solenidade. Era entrar em um espaço institucional para receber reconhecimento por uma história que nasceu de uma experiência de dor.
E era, principalmente, a possibilidade de olhar para si mesma e perceber: eu escrevi isso. Eu sobrevivi a isso. Eu posso contar isso.
Há livros que nascem de uma ideia. Outros nascem de uma pesquisa. Alguns nascem de uma obsessão literária.
Este nasceu de encontros.
E talvez seja por isso que, um ano depois, eu ainda precise escrever sobre ele.
Tenho consciência de que a temática é forte, talvez forte demais, porém, necessária. O mundo ideal seria aquele em que um livro como esse jamais precisasse existir. Só que, se ele existe, é porque as histórias de violência contra as mulheres ainda são alarmantes e precisam ser enfrentadas, discutidas e, principalmente, ouvidas.
O que me conforta é saber que, naquele livro, essas mulheres não aparecem apenas como vítimas.
Elas são autoras.
São protagonistas.
Escreveram suas próprias histórias.
E, naquela viagem para Brasília, uma delas descobriu que também podia voar.
Talvez seja essa a imagem que eu tenha guardado com mais carinho daquele prêmio: não a placa, não a solenidade, não o reconhecimento institucional, mas sim, Bruna entrando pela primeira vez em um avião.
E, de algum modo, levando consigo onze mulheres, 24 histórias e a certeza de que, depois de tanta coisa, ainda era possível recomeçar.
Um ano depois, continuo acreditando que literatura também pode ser isso: uma pequena fresta por onde alguém finalmente consegue enxergar que a própria vida ainda pode ter outros capítulos.
E que, às vezes, o primeiro voo começa justamente quando a gente decide escrever a própria história.
O livro “Após a Morte do Conto de Fadas, a Ressurreição” pode ser lido gratuitamente em formato pdf ou adquirido pela livraria do Senado.
https://livraria.senado.leg.br/product/apos-a-morte-do-conto-de-fadas-a-ressurreicao/
Quando os objetos contam histórias
Há objetos que parecem guardar um pedaço do tempo. Uma fotografia esquecida em uma gaveta, uma carta antiga, um livro marcado pelo uso, uma peça que pertenceu a alguém querido. Pequenas coisas que, aparentemente silenciosas, carregam histórias, afetos e lembranças.
É justamente dessa relação entre objetos e memória que nasce “A Memória das Coisas”, curso livre que será ministrado pela escritora, professora e cronista Marília Lovatel, dentro da programação dos Cursos VIVA 2026.2, da VIVA FB Uni.
A proposta é transformar lembranças em palavras e explorar como objetos podem servir de ponto de partida para a criação literária. Ao longo do curso, os participantes serão convidados a olhar para aquilo que guardam — e para as histórias que esses objetos guardam deles — como matéria-prima para a escrita.
A formação terá 16 horas e será realizada presencialmente, de 10 de setembro a 26 de novembro, sempre às quintas-feiras, das 15h30 às 17h05.
O curso trabalhará quatro formas breves de expressão literária: miniconto, haicai, crônica e carta. A proposta une formação teórica e prática, leitura de textos, discussão sobre literatura e orientação para a construção das próprias narrativas.
Mais do que ensinar estruturas de escrita, “A Memória das Coisas” propõe um exercício de olhar. Afinal, uma fotografia não é apenas uma fotografia. Uma carta pode ser muito mais do que papel e tinta. Um livro pode carregar a memória de quem o presenteou. Uma roupa pode guardar a presença de alguém que já partiu.
É nesse território entre o objeto e o afeto que a literatura pode acontecer.
Os projetos literários desenvolvidos durante a formação terão foco biográfico e serão ancorados justamente nessa temática. A ideia é perceber como experiências pessoais podem ganhar novas camadas quando transformadas em texto.
E quem conduz essa viagem pela memória tem bastante experiência para compartilhar.
Marília Lovatel nasceu em Fortaleza, em 1971. É formada em Letras pela Universidade Estadual do Ceará e mestre em Literatura pela Universidade Federal do Ceará. Escritora, redatora publicitária e professora, mantém uma trajetória marcada também pela literatura para crianças e jovens.
Cronista do jornal O Povo, onde assina coluna aos sábados no Caderno Vida & Arte, Marília é membro da Academia Fortalezense de Letras e tem obras adotadas em escolas de diferentes regiões do país. Três de seus livros integram o Catálogo de Bolonha e dois fazem parte do PNLD Literário.
Sua trajetória inclui ainda o título de finalista do Prêmio Jabuti, em 2017, e do prêmio da Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil (AEILIJ), em 2024. Em 2025, recebeu o Prêmio Orígenes Lessa de Melhor Livro Para Jovem, concedido pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), além do Selo Distinção Cátedra Unesco de Leitura PUC-Rio. Também é vencedora da 20ª edição do Prêmio Nacional Barco a Vapor de Literatura Infantil e Juvenil.
A bibliografia do curso inclui, entre outras obras, A memória das coisas, da própria Marília Lovatel, além de autores como Georges Perec, Sei Shônagon e Lucrécio.
No fim das contas, talvez a proposta do curso seja a seguinte pergunta: o que as coisas que guardamos dizem sobre nós?
A resposta pode estar escondida em uma fotografia, em uma carta, em um livro ou naquele objeto aparentemente sem importância que permanece há anos em alguma gaveta.
E talvez a literatura seja justamente a maneira de fazê-lo falar.
SERVIÇO
A Memória das Coisas
Curso Livre promovido pela VIVA FB Uni
Ministrante: Marília Lovatel
Coordenação: Tânia Sancho
Período: 10 de setembro a 26 de novembro de 2026
Horário: quintas-feiras, das 15h30 às 17h05
Modalidade: presencial
Carga horária: 16 horas
Informações: (85) 3486-9175 | (85) 99433-4330 | (85) 98161-8545.