Com o título “Cadê o povo?”, eis artigo de Sabino Henrique, advogado e jornalista. “As ruas parecem indiferentes. Quase não há bandeiras, músicas, comícios ou manifestações espontâneas. Não se percebe aquela ansiedade coletiva que anunciava a aproximação do voto”, expõe o articulista.
Confira:
Desde menino, lá em Quixeramobim, acompanho eleições. Estou chegando aos 80 anos e ainda guardo na memória, com a nitidez e a surpresa infantil daquele tempo, o burburinho que tomava conta da cidade quando se aproximava o dia de votar.
O povo vinha do interior montado a cavalo, em burros e jumentos. As ruas mudavam de aparência. Havia vozes, encontros, discussões e movimento. Havia também a disputa entre as lideranças locais, entre os coronéis do PSD e da UDN, que comandavam a política, distribuíam ordens e exerciam poder sobre os eleitores.
Não pretendo transformar aquele tempo em retrato romântico da democracia. Grande parte daquela participação era tutelada, oprimida e conduzida pelos chefes políticos. O voto nem sempre expressava uma escolha verdadeiramente livre. Ainda assim, mesmo por trás do poder dos coronéis, sentia-se a presença do povo.
O povo estava ali.
Participava como podia, compreendia como podia e escolhia dentro dos limites que lhe eram impostos. Mas a eleição interferia na vida da cidade. Movimentava as casas, as praças, os mercados e as conversas. Criava expectativa. Dividia famílias. Aproximava aliados. Produzia esperança e também medo.
Mais tarde, já universitário em Fortaleza, vi outras formas de participação política. Antes e depois do golpe de 1964, a cidade conheceu comícios, passeatas, manifestações e debates que reuniam estudantes, trabalhadores, políticos e cidadãos comuns.
Depois dos anos mais duros do regime militar, a política voltou a ocupar as ruas com extraordinária força. Vieram os grandes comícios, as carreatas, os carros cobertos de adesivos, as bandeiras, os jingles e as músicas que atravessavam bairros inteiros.
Podia-se gostar ou não de determinado candidato. Podia-se discordar do discurso, do partido e das promessas. Mas era impossível ignorar que uma eleição estava acontecendo.
A cidade percebia. O povo percebia.
A campanha eleitoral não ficava confinada aos estúdios de televisão nem às reuniões dos profissionais de marketing. Ela entrava nas praças, nos bares, nas universidades, nos locais de trabalho e nas conversas de família.
Havia exageros, manipulações e promessas que nunca seriam cumpridas. Mas havia paixão. Havia disputa de ideias. Havia uma energia coletiva que fazia da eleição um acontecimento da sociedade — e não apenas dos candidatos.
Agora, em 2026, estamos a poucas semanas de mais uma eleição. E o que se vê?
Uma apatia quase geral.
Cadê o povo?
As ruas parecem indiferentes. Quase não há bandeiras, músicas, comícios ou manifestações espontâneas. Não se percebe aquela ansiedade coletiva que anunciava a aproximação do voto.
A campanha aparece principalmente na televisão e nas telas dos celulares. Mesmo assim, grande parte da propaganda não consegue emocionar, provocar ou permanecer na memória.
Já não há sequer a música capaz de acompanhar uma geração inteira. Os antigos jingles, bons ou ruins, identificavam candidatos e resumiam campanhas. Hoje, predominam falas semelhantes, imagens cuidadosamente produzidas e frases testadas por especialistas.
Todos prometem melhorar a educação.
Todos prometem melhorar a saúde.
Todos prometem criar empregos, combater a violência, ampliar oportunidades e cuidar dos mais pobres.
Mudam os rostos, as cores e as siglas. O discurso, porém, parece sair da mesma máquina.
Na disputa pela Presidência da República, boa parte do debate público também parece reduzida às acusações de corrupção, às denúncias e às agressões entre adversários. Discute-se muito quem roubou, quem mentiu ou quem deve ser preso. Discute-se pouco o país que teremos depois da eleição.
Onde estão os grandes projetos nacionais? Onde estão as ideias capazes de despertar esperança, indignação ou entusiasmo? Onde está o debate sobre o Brasil que entregaremos às próximas gerações?
E, novamente, cadê o povo?
Talvez o povo esteja cansado. Talvez esteja decepcionado com promessas repetidas e nunca cumpridas. Talvez já não acredite nos partidos, nos candidatos nem nas instituições. Talvez tenha sido transformado, pelos algoritmos, em milhões de indivíduos isolados, cada um discutindo dentro da sua própria tela.
A política não desapareceu. Ela mudou de lugar.
Saiu parcialmente das praças e entrou nas redes sociais. Trocou o palanque pelo vídeo curto, o comício pela transmissão ao vivo, a bandeira pelo compartilhamento e a conversa pública pelos grupos fechados.
Mas será que clicar é participar? Será que assistir passivamente a uma propaganda equivale a viver uma eleição? Será que a soma de milhões de pessoas isoladas diante de suas telas constitui verdadeiramente um povo?
A democracia não depende apenas da existência de candidatos, partidos, urnas e eleições periódicas. Ela exige cidadãos conscientes, interessados e dispostos a participar da vida pública.
Uma democracia pode continuar funcionando juridicamente mesmo com as ruas vazias. Pode haver votação, apuração e proclamação dos eleitos. Tudo pode transcorrer dentro das regras.
Mas alguma coisa essencial se perde quando o povo deixa de sentir que a eleição lhe pertence.
Não defendo a volta do coronelismo que conheci na infância. Tampouco sinto saudade das campanhas violentas, da compra de votos ou da exploração da pobreza. A democracia avançou, o voto tornou-se mais protegido e a sociedade conquistou direitos importantes.
O que me inquieta é outra coisa: saímos de uma participação muitas vezes comandada e imperfeita para uma indiferença que pode ser ainda mais perigosa.
O silêncio das ruas não significa necessariamente maturidade política. Pode significar descrença.
E nenhuma democracia permanece forte por muito tempo quando seus cidadãos deixam de acreditar que sua presença faz diferença.
Aos quase 80 anos, depois de acompanhar tantas campanhas e tantas transformações do Brasil, olho para esta eleição e volto à pergunta do menino que observava o movimento nas ruas de Quixeramobim:
Cadê o povo?
Se o povo não está nas ruas, onde está?
Se não acredita nas promessas, em que acredita?
Se não participa da escolha do futuro, quem escolherá em seu lugar?
E, afinal, como se chama uma democracia sem o povo?
*Sabino Henrique
Advogado e jornalista.