“Capistrano de Abreu foi um grande historiador, mas nenhum grande historiador está acima da crítica. Sua contribuição permanece, mas sua interpretação não pode ser tomada como explicação definitiva da nacionalidade brasileira”. aponta o jornalista e poeta Barros Alves
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A grandeza de um historiador não reside apenas na erudição, na capacidade de interpretar documentos ou na originalidade de suas teses, mas, sobretudo, na disposição de submeter suas próprias convicções ao tribunal dos fatos. Nesse aspecto, Capistrano de Abreu merece reconhecimento por sua contribuição à historiografia brasileira, mas não está imune à crítica. E, a meu juízo, sua interpretação da formação histórica do Brasil, quando excessivamente concentrada no elemento indígena, revelou uma limitação que o desenvolvimento posterior da historiografia e a própria realidade nacional tornaram ainda mais evidente.
Capistrano foi um intelectual singular. Sua obra representa um esforço notável de compreender o Brasil a partir de suas raízes, de seus condicionamentos geográficos, de sua população e dos processos de ocupação do território. Entretanto, a centralidade atribuída ao indígena como chave explicativa da formação nacional acabou por produzir uma interpretação incompleta. A história brasileira não pode ser compreendida a partir de um único componente étnico, cultural ou civilizacional. É resultado de um processo complexo, no qual se entrelaçaram as matrizes portuguesa, indígena e africana, sob circunstâncias históricas, econômicas, políticas e religiosas que não podem ser reduzidas a uma narrativa de exaltação de qualquer desses elementos. O problema não está em reconhecer a importância dos povos indígenas, sua presença anterior à colonização, suas contribuições culturais e seu direito à preservação de suas tradições. Isso seria inquestionável. O equívoco começa quando o reconhecimento histórico se transforma em idealização antropológica e em projeto ideológico. Uma coisa é estudar e respeitar as sociedades indígenas; outra, inteiramente diferente, é transformá-las em paradigma exclusivo da identidade brasileira ou em modelo alternativo de organização da sociedade contemporânea. Nesse percurso, o indigenismo brasileiro produziu personagens e interpretações bastante distintos entre si. Cândido Rondon, por exemplo, compreendeu a necessidade de incorporar os territórios distantes à unidade nacional, estabelecer comunicações, proteger as fronteiras e promover o contato com populações indígenas, sob o lema do respeito à vida. Sua atuação, embora marcada pelas concepções de seu tempo, estava associada também a um projeto de integração territorial e construção do Estado brasileiro.
Darcy Ribeiro, por sua vez, foi muito além da investigação antropológica. Intelectual de reconhecida capacidade, construiu uma interpretação da formação do povo brasileiro e atribuiu aos povos indígenas um lugar central em seu pensamento político e cultural. Entretanto, sua militância e suas concepções revolucionárias também o levaram a enxergar a questão indígena sob uma perspectiva ideológica que merece exame crítico. Não se deve confundir a defesa legítima dos direitos indígenas com a instrumentalização política de suas populações.
Os irmãos Orlando, Cláudio e Leonardo Villas Bôas, por outro lado, protagonizaram uma experiência histórica de enorme repercussão, particularmente na criação e defesa do Parque Indígena do Xingu. Sua atuação foi marcada por um ideal de proteção das comunidades indígenas diante do avanço desordenado da sociedade nacional. Todavia, a preservação cultural não pode significar a condenação de populações inteiras ao isolamento, tampouco a negação de seu direito de participar das conquistas materiais, científicas e sociais da civilização contemporânea.
É precisamente aqui que reside uma das contradições do indigenismo romântico: ao pretender proteger o indígena, frequentemente termina por tratá-lo como alguém incapaz de decidir o próprio destino. Como se o contato com a sociedade moderna representasse necessariamente uma ameaça e não pudesse também significar acesso à educação, à medicina, à tecnologia, à informação e a melhores condições de vida. Não se trata de defender a assimilação compulsória, a destruição de culturas ou a imposição de padrões externos. A liberdade individual e coletiva exige que os indígenas possam preservar suas tradições, mas também escolher os caminhos de sua integração, quando assim desejarem. O isolamento não pode ser transformado em obrigação, assim como a integração não pode ser imposta pela força.
Também merece crítica a visão de determinadas correntes universitárias que tratam o indígena como uma espécie de personagem imóvel, aprisionado numa representação idealizada do passado. Essa perspectiva, além de historicamente discutível, desconsidera que os povos indígenas são sociedades vivas, heterogêneas, com conflitos, aspirações e projetos próprios. Não são peças de museu, nem instrumentos de experiências políticas concebidas por intelectuais urbanos.
A própria realidade contemporânea demonstra que as culturas não permanecem congeladas. O contato, a educação, a urbanização, as novas tecnologias e as transformações econômicas produzem mudanças inevitáveis. A questão fundamental é garantir que essas mudanças ocorram com liberdade, dignidade e respeito aos direitos das comunidades, sem tutela ideológica e sem exploração econômica.
A formação brasileira, afinal, não foi obra exclusiva do indígena, do português ou do africano. Foi o resultado de uma longa e contraditória experiência histórica, marcada pela colonização portuguesa, pela expansão territorial, pela miscigenação, pelo cristianismo, pela escravidão, pela organização política e pela construção de instituições. Ignorar qualquer dessas dimensões é mutilar a compreensão do Brasil.
Capistrano de Abreu foi um grande historiador, mas nenhum grande historiador está acima da crítica. Sua contribuição permanece, mas sua interpretação não pode ser tomada como explicação definitiva da nacionalidade brasileira. O Brasil é muito maior e mais complexo do que qualquer interpretação fundada na primazia absoluta de um de seus componentes formadores. Defender a dignidade dos povos indígenas não exige transformá-los em mito fundador exclusivo da nacionalidade. Tampouco exige negar-lhes o direito de usufruir dos benefícios da civilização contemporânea. O respeito verdadeiro não consiste em mantê-los artificialmente presos ao passado, mas em reconhecer sua humanidade, sua liberdade e sua capacidade de escolher o próprio futuro.
Enfim, o meu entendimento é que Capistrano de Abreu estava errado não por ter reconhecido a importância do indígena na formação do Brasil, mas por ter atribuído a esse elemento uma centralidade que a complexidade da história brasileira não comporta. E continuame errados aqueles que, por romantismo, conveniência política ou dogmatismo ideológico, insistem em transformar uma parcela da nossa formação histórica na explicação de toda a nacionalidade.
Barros Alves é jornalista e poeta
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Referências bibliográficas
ABREU, Capistrano. “Ensaios e Estudos”, 4ª série. Editora Civilização Brasileira/Instituto Nacional do Livro-INL, Rio de Janeiro, 1976.
———-“Capítulos de História Colonial, 1500-1800”. Coordenação de Publicações do Centro de Documentação e Informação. Câmara dos Deputados, Brasília, 2003.
BOAS. Orlando e Cláudio Villas. “Xingu – os índios, seus mitos”. Círculo do Livro, São Paulo, 1970.
RIBEIRO, Darcy. “O Povo Brasileiro-A formação e o sentido do Brasil”, 2ª edição, Companhia das Letras, São Paulo, 1995.
——— “A Utopia Selvagem – Saudades da inocência perdida. Uma fabula.”
———- “Mestiço é que é bom”. Editora REVAN, Rio de Janeiro, 1997.