“Chá & Sapiência” – Por João Teles

Professor João Teles. Foto: Reprodução

“As qualidades das pessoas saltam aos olhos das outras pessoas, através da gentileza, da bondade”, aponta o professor João Teles

Confira:

Dizem que um professor, de uma universidade top do Mundo, cientista e pesquisador, desses donos de muita sabedoria (segundo ele mesmo) e com um pedantismo grandioso e afuleimado, foi ao Japão. E com um colega oriental a tiracolo, procurou um monge, para uma entrevista; e entrou no tempo, onde estava o religioso. E já ia dizendo: “aquele quadro significa isso, aquela imagem tem significado tal, aquela corrente isso, aquela cruz aquilo!” E ditou receitas, regras e conceitos. Ao chegar perto do monge, este lhe mandou sentar e sugeriu um chazinho (tinha ouvido boa parte da lodaça, do visitante). O chá ficou pronto e foi para as xícaras, para ser tomado. O sábio ia enchendo uma delas e olhando para o professor sabichão. E foi derramando chá… Lá pelas tantas, o sabido de fora, disse: – Vai derramar, vai derramar…!

E derramou. Então o sábio disse-lhe: – Você é essa xícara cheia, transbordada. Nada há a acrescentar nela. Nada tenho, pois, a lhe dizer ou ensinar. Passe bem!

O grandor não precisa ser cantado, dito, gritado… As qualidades das pessoas saltam aos olhos das outras pessoas, através da gentileza, da bondade, dos atos, do exemplo. “Carroça vazia”, diz o povo, em sua sabedoria, “faz um barulho danado”. Ninguém precisa pendurar em postes e mandar colar em outddors, aquilo que sabe, que tem em mente ou que quer ensinar a alguém, na marra. Não. Ninguém precisa disso.

A bem conhecida frase, atribuída à poetisa Cora Coralina, diz: “O saber a gente aprende com os mestres e os livros. A sabedoria se aprende é com a vida e com os humildes.” Nesse curto recado, a poetisa fala e diz muito, com ar professoral, mesmo sem arrogância. O que ela nos fala, é uma lição de vida.

Os pobre do interior, ou não, mesmo tendo apenas água do pote e um instrumento de trabalho, enfiado entre as ripas e caibros, do teto, abre a boca e nos ensina muito. Sobre sua relação com a natureza, com os animais, com as pragas, com os plantios e com dureza da vida. Ele tem uma vida confusa, complicada, árdua… Mas acorda todo dia, para lavrar e colher aquilo que enche a barriga dos filhos e familiares, sempre com um sorriso (mesmo banguela) no rosto e com vontade de dizer:

– Vá por aqui, meu filho. Por ali o caminho é espinhoso e mais difícil. Escute o véi!

João Teles de Aguiar
Professor, historiador e integrante do Projeto Confraria de Leitura

COMPARTILHE:
Facebook
Twitter
WhatsApp
Telegram
Email

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Mais Notícias