“Coisas da meninada” – Por Totonho Laprovítera

Totonho Laprovíítera: o contador de hstórias. Foto: Portal IN

Com o título “Coisas da meninada”, eis mais um texto de Totonho Laprovítera, arquiteto urbanista, escritor e artista plástico. É hora de recordar tempos da infância.

Confira:

Quando penso na infância, lembro de uma Fortaleza mais tranquila, onde a rua era extensão da casa e a meninada inventava suas próprias brincadeiras. A televisão começava a chegar, os gibis faziam sucesso e o jogo de botão era uma diversão à parte. Tinha bila, triângulo, raia e bola. Bastava uma folha de caderno, uma provocação ou a companhia dos amigos. O resto ficava por conta da imaginação.

Entre as brincadeiras de antigamente, uma bem saliente logo me vem à cabeça. A partir do pescoço, a medição descia pelo palmo: “Um, dois, três, quatro… tá aqui teu retrato!”

Havia também a brincadeira feita com uma folha de caderno, dobrada em forma de rosácea, com indecências escritas nas faces internas, reveladas somente ao abri-la. Era uma surpresa capaz de exigir confissão antes da próxima comunhão.

Tinha ainda o cumprimento amigável, com o convite: “Toque aqui”. A mão estendida era recolhida ao peito e, como quem tocava violão, vinha a resposta: “Destá, eu toco só!”

Quem não se lembra das perguntas capciosas? “Que time é teu?”, para descobrir a torcida no futebol. “Quinhentos meu, com mil teu…”, para testar o conhecimento matemático.

Naquela época, para arengar, a meninada sabia o nome da mãe uns dos outros. Não se sabia quem era rico, pobre, importante ou não. Éramos todos iguais, salvo os chefes das tropas e os craques na bola. Quem jogava bem ficava na linha; os mais ou menos, na defesa; os piores iam para o gol.

Briga se resolvia na tapa e, no dia seguinte, tudo estava em paz. Não havia ressentimento nem necessidade de explicação. Uma hora se brigava; noutra, brincava-se de novo.

Também não faltavam os encontros em casa para fazer os trabalhos escolares, sempre acompanhados de merenda e muita algazarra.

Nas segundas-feiras, no colégio, o converseiro era grande, por conta dos programas do fim de semana. Com a cidade ainda engatinhando na vida, qualquer novidade ganhava proporções enormes. Uma história acontecida na noite de sexta-feira podia chegar à manhã de segunda já aumentada pela imaginação de todos.

Hoje, ao lembrar daquele tempo, vejo como fazíamos muito com pouco. Uma bola virava racha, uma folha de papel, traquinagem, e uma simples pergunta podia esconder uma armadilha. A infância passou, mas essas lembranças continuam vivas, talvez porque a vida, naquele tempo, parecia feita sob medida para a meninada.

*Totonho Laprovítera

Arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.

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