Com o título “A manga da minha avó”, eis a coluna “Cafezim com Literatura”, assinada pela jornalista Mirelle Costa.
Nesta edição, uma crônica bem especial.
Confira:
Estava no supermercado, no dia da promoção do mês, dessas vezes em que a gente entra para comprar três coisas, mas sai com quinze, quando uma palavra me fez parar no meio do corredor:
Promoção
Não foi a promoção, exatamente, que me chamou a atenção, mas o que vinha logo depois dela:
Manga Itamaracá.
Meu coração deu uma pequena cambalhota.
Manga Itamaracá?
Eu nem sabia que essa manga ainda existia.
Fiquei olhando para aquelas manguinhas como quem reencontra alguém que não via há muitos anos e, de repente, reconheci o rosto. Não precisei pensar muito. Era ela. A manga da minha infância. A fruta que minha avó sempre levava para mim.
E foi assim, no meio de um supermercado, entre carrinhos, ofertas e gente escolhendo sabão em pó e outras coisas de gente grande, que eu voltei a ser criança.
Minha avó nunca foi exatamente aquela avó que aparece nas propagandas. Não fazia bolo para esperar os netos chegarem (a mamãe que lutasse pra preparar a mesa todinha para quando ela chegasse estar tudo pronto).
Não usava vestido estampado com rasteirinha (jamais). Não tinha vocação para o estereótipo da vovozinha (imagine uma mulher de um metro e setenta com um scarpin toc toc, uma saia lápis cinza, blaser combinando e camisa de algodão por dentro sempre nas cores branca, amarela, azul ou verde claro).
Minha avó fazia questão de não ter cara de avó (a velhice mata mais ligeiro que a morte, ela dizia). Mesmo sem nunca ter sentido o cheiro de um bolo ou qualquer outro quitute feito por ela (até porque ela jamais sujaria seus armários com gordura), vovó sabia qual era minha fruta preferida e eu precisei chegar no auge dos meus quarenta anos para entender que isso também é uma forma de amor: guardar pequenas informações sobre alguém.
Saber qual é a fruta preferida. O chocolate que a pessoa gosta. O jeito certo de fazer o café. O lugar da mesa onde ela prefere sentar.
Minha avó trazia manga.
E talvez seja por isso que uma fruta conseguiu, tantos anos depois, abrir uma porta que eu nem sabia que continuava ali.
Enfiei um bocado dentro do saco, como quem recolhe desesperadamente pedaços de infância, queria nem saber quanto ia dar. Fui para o caixa agarrada (e feliz) com as minhas manguinhas. Foi quando um abençoado que estava atrás de mim na fila olhou as mangas e resolveu prestar um serviço à verdade.
— Moça, essa não é a manga Itamaracá de verdade, não. Essa é a falsa.
Eu olhei para ele fixamente por três segundos.
Poxa, moço, precisava? (Pensei)
Balancei a cabeça demonstrando que sabia (pra não dar o gosto). E foi quando eu pensei que a vida tem dessas crueldades pequenas.
A gente passa anos sem lembrar de uma coisa. Aí, de repente, uma palavra num cartaz de supermercado nos devolve uma pessoa, uma casa, um cheiro, uma idade, uma manhã de um domingo qualquer. E, quando finalmente encontramos o caminho de volta, vem alguém dizer que a manga é falsa.
Ora, senhor.
Deixe a minha memória em paz!
Para mim, aquela manga era verdadeira.
Talvez não fosse a mesma variedade, talvez não tivesse o mesmo sabor, talvez minha lembrança tenha adoçado tudo com o passar dos anos, e memória é mesmo uma fruta que amadurece de um jeito muito particular. Eu queria era me iludir (Me deixe, Homi!)
Queria chegar em casa, cortar a manga, sentir o cheiro e, por alguns segundos, acreditar que minha vovó também estava ali, a Dolores, Vó Lores, Lola. Pensar que ela ainda podia aparecer de salto alto, sem a menor vontade de parecer vovozinha, carregando uma sacola.
— Pra você.
E eu talvez dissesse apenas obrigada.
Porque criança não sabe que, um dia, vai sentir falta até das coisas mais simples. Não sabe que uma manga pode virar choro em pleno supermercado (que pra mim, vai ser sempre mercantil). Não sabe que uma fruta pode carregar uma avó inteira dentro dela.
Então, moço, me poupe.
Eu vou continuar chamando aquela manga de Itamaracá.
Se ela é falsa ou verdadeira, pouco importa.
Na minha memória, ela é legítima.
E, se me permitem uma última ilusão, talvez seja justamente essa a graça da lembrança: a infância não precisa ser fiel aos fatos. Precisa apenas continuar morando dentro da gente.
E, naquele dia, entre o caixa do supermercado e uma promoção qualquer, eu comprei um bocado de manga, mas o que levei para casa foi a Dolores.