“Coques são as novas mechas” – Por Ana Márcia Diógenes

Ana Márcia Diógenes é jornalista e escritora. Foto: Divulgação

“Reconhecer os seus queridos e queridas, aceitar escovar os dentes, passar uma perna pela outra para andar, mastigar a comida, dizer o que sente… essas estrelas se perderam junto com o gostar das mechas douradas”, aponta a jornalista e escritora Ana Márcia Diógenes

Confira:

Esta semana cheguei ao apartamento da minha mãe perto da hora do almoço. A cuidadora, Ana, estava esquentando o almoço enquanto mamãe esperava na cadeira de rodas. Uma cena que se repete diariamente, na rotina de alimentação. Naquele dia, o que me chamou atenção foi o penteado do cabelo, em dois coques presos com elásticos cor-de-rosa.

No mesmo instante, recolhi fragmentos de tempo. Lembrei de quando era criança, de cabelos longos, e mamãe fazia questão de que eu estivesse sempre bem penteada. Veio a imagem de quando minha filha nasceu, quase careca, e mamãe comemorava cada fio que encorpava um futuro coque naquela cabecinha.

As lembranças me trouxeram para o cuidado que ela sempre teve com o próprio cabelo, as mechas marcantes, modeladas por escova, pela mesma cabelereira por mais de 40 anos, a Marinete. A amizade entre elas continua, agora no virtual. Todos os anos, na época do Natal, Marinete liga para saber como mamãe está e mesmo que ela não entenda mais os recados, pede que eu diga que a ama.

Tentei simular um salão em casa, com alguns equipamentos, para manter as mechas no cabelo dela, mesmo que fosse de dois em dois meses. Durou pouco. Tive que aceitar as evidências. Cabelo – pintado, com mecha, ou branco – passa a ser mais uma das estrelas sumidas no céu nublado, quando a memória foge de nós e a ciência não descobre como parar este descaminho interior.

Reconhecer os seus queridos e queridas, aceitar escovar os dentes, passar uma perna pela outra para andar, mastigar a comida, dizer o que sente… essas estrelas se perderam junto com o gostar das mechas douradas.

O cabelo penteado com dois coques e os elásticos cor-de-rosa não representam somente cuidado no momento da alimentação, ou para aliviar o calor no pescoço. Simbolizam as mechas que ela tanto gostava. Afinal, cuidar é iluminar caminhos que nem a gente mesmo conhece.

Ana Márcia Diógenes é jornalista e escritora

COMPARTILHE:
Facebook
Twitter
WhatsApp
Telegram
Email

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Mais Notícias