CrediAmigo, um grande ativo do BNB, sob ameaça – Por Marcos C. Holanda

Marcos Holanda, economista e ex-presidente do BNB. Foto: Sara Maia.

Com o título “Um Equívoco”, eis artigo de Marcos C. Holanda, engenheiro, PhD em Economia e ex-presidente do Banco do Nordeste. “O banco anuncia que vai repassar o operacional do Crediamigo para outros bancos ou instituições privadas. Alguma dúvida que eles não vão absorver a tecnologia de emprestar desenvolvida ao longo de anos para uso posterior?”, expõe o articulista

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Uma grata surpresa que tive ao assumir a presidência do BNB foi entender o tamanho e a importância do Crediamigo no banco. Mencionava que ele era o sonho de consumo de um banco de desenvolvimento. Um crédito focado nos que mais precisam, gerador de impacto em suas vidas e lucrativo para a instituição. Logo entendi que ele era um grande ativo do Banco. Precisava de atenção especial e estratégia competente.

Análises de valuation baseadas em comparações internacionais mostravam que seu valor de mercado como um negócio separado era maior que o do próprio banco. Iniciei então tratativas com o ministério da fazenda para criar uma subsidiaria dentro do banco que em parceria com o Banco Mundial, Caixa Econômica e parceiros privados seria capaz de realizar todo seu potencial de crescimento. Um Crediamigo mais eficiente, com mais tecnologia, com mais capilaridade, com mais impacto.

O potencial de crescimento do Crediamigo era claro, como também eram suas deficiências para continuar avançado. Infelizmente percebo que esse ainda é ocaso. O volume de credito desembolsado pouco avançou, passando de algo em torno de 11,5 bilhões em 2018-2019 para algo em torno de 13,5 bilhões atualmente. Continua uma assimetria injustificável de no Ceará os desembolsos serem quase o triplo de
Pernambuco e o dobro da Bahia. A base de tecnologia operacional continua defasada e com isso perde-se cada vez mais participação de mercado para os concorrentes públicos e privados.

O pior, no entanto, está por vim. O banco anuncia que vai repassar o operacional do Crediamigo para outros bancos ou instituições privadas. Alguma dúvida que eles não vão absorver a tecnologia de emprestar desenvolvida ao longo de anos para uso posterior? Alguma dúvida que os dados proprietários do banco não vão ser indiretamente apropriados? Está mais que correta a preocupação em blindar o Crediamigo da influência política e de garantir eficiência operacional, mas será esse o melhor caminho?

Para complicar ainda mais, a decisão é contratar quatro ou cinco instituições diferentes para atender a regiões diferentes do Nordeste. Como garantir um padrão único de atendimento? Qual o incentivo para performance nas diferentes áreas se não existe competição entre ela? Dividir o valor total da licitação sendo feita vai diminuir o valor total da soma? Diversificar o risco de contratar mal seria uma justificativa aceitável?

Acho que um equívoco está sendo feito. Uma oportunidade está sendo desperdiçada.

Um grande ativo do BNB ameaçado.

*Marcos C. Holanda

Engenheiro, PhD em Economia e ex-presidente do Banco do Nordeste.

VAMOS NÓS – Pois é, quem faz o alerta não é qualquer um, mas quem já presidiu o Banco do Nordeste.

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