Com o título “Datacenters no Brasil: Por uma Política Nacional de Negociação (PNND)”, eis artigo de Mauro Oliveira, professor do IFCE, PhD em informática por Sorbonne University e ex-secretário nacional de Telecomunicações do Ministério das Comunicações. “Sem análise conjuntural, planejamento, contrapartidas estratégicas e transparência, a instalação de datacenters de IA tende a beneficiar principalmente os investidores, não a sociedade brasileira. Com uma PNND e governança adequada, essa mesma infraestrutura pode transformar energia, conectividade e capacidade computacional em ciência, tecnologia, inovação, indústria e soberania”, expõe o articulista.
(A Denio Arantes, “fazedor” do Ensino Tecnológico e Profissional dos IFs)
Confira
Na última segunda-feira (20/jul), no clima cinematográfico de Gramado, participei do painel “Soberania Digital: para quem estamos entregando as chaves do nosso futuro?”, durante o Congresso da Sociedade Brasileira de Computação (CSBC).
A pergunta permaneceu comigo por dias. Agora ela reaparece em outro honroso convite da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), na mesa-redonda “Impactos da Instalação de Datacenters no Brasil”.
Nada mais oportuno. SBC e SBPC sinergizadas nesse desafio de um país soberano.
Depois de perguntar para quem estamos entregando as chaves, a pergunta seguinte tornou-se inevitável: o que pretendemos negociar quando alguém bater à nossa porta?
Os datacenters de IA costumam chegar envoltos numa narrativa irresistível: bilhões de reais em investimentos, milhares de servidores, Inteligência Artificial, empregos, arrecadação, inovação, modernidade e desenvolvimento.
Quem ousaria ser contra?
A pergunta, entretanto, está errada.
A questão não é ser contra datacenters. É ser contra a ingenuidade.
O problema nunca foi receber investimentos. O problema sempre foi negociar mal.
Não podemos dar uma de abestado, caindo no velho entusiasmo do colonizado, esse curioso estado de espírito que nos leva a comemorar qualquer grande investimento estrangeiro antes mesmo de perguntar quem controlará a tecnologia, quem ficará com a propriedade intelectual e quem capturará a maior parte da riqueza produzida.
*Datacenter de IA: um problema mundial*
A discussão sobre datacenters de IA costuma ser conduzida como se existisse apenas uma pergunta relevante: quanto será investido? Não é.
A questão decisiva é outra, e para respondê-la vale a pena passar uma risca vertical numa folha de “papel almaço”, enumerando de um lado as ameaças, do outro as oportunidades:
Como transformar a instalação de datacenters em vetor de desenvolvimento científico, tecnológico e industrial, em vez de repetir, na economia informacional, o velho modelo exportador brasileiro?
Décadas fornecendo terra, energia, recursos naturais e incentivo fiscal. Do outro lado permanecem a propriedade intelectual, os centros de pesquisa e as etapas de maior valor agregado. O pau-brasil digital.
Antes de discutir incentivos fiscais ou volume de investimentos, é preciso compreender um fato incontornável: a expansão dos datacenters deixou de ser apenas um desafio empresarial. Tornou-se um problema geopolítico, energético e ambiental de escala mundial.
O primeiro desafio é a energia: mesmo com o avanço das renováveis, o planeta dificilmente sustenta, no longo prazo, a fome elétrica da Inteligência Artificial. Segundo a Agência Internacional de Energia, os datacenters já responderam por 1,5% do consumo mundial de eletricidade em 2024: 415 TWh (terawatts-hora), crescendo 12% ao ano. Em 2025 esse crescimento acelerou 17%, quase seis vezes o ritmo da demanda elétrica global (3%), e a projeção é que o consumo mundial praticamente dobre até 2030, chegando a 950 TWh, mais do que o Japão inteiro consome hoje. Em vários países, atender essa demanda já exige reativar usina a carvão, ampliar geração a gás e reconsiderar a sempre polêmica energia nuclear. A disputa deixou de ser só por capacidade computacional. Passou a ser por megawatts disponíveis.
O segundo desafio são os impactos territoriais: datacenter de grande porte consomem água em volume industrial, exige transmissão robusta, produz calor e altera a dinâmica econômica e ambiental da vizinhança. Sistemas de resfriamento evaporativo convencionais consomem, em média, entre 1.800 e 2.900 litros de água por MWh (megawatt-hora).
Que o digam os estados americanos onde esses dois problemas acontecem: big techs enfrentando resistência popular, tarifa de energia subindo 30% a 40%, moratória sendo proposta, rede elétrica sem dar conta do recado. O Brasil, nesse tabuleiro, entra com uma carta rara: 88,2% de fontes renováveis na matriz elétrica, segundo o Balanço Energético Nacional 2025.
Os dois desafios acima estão associados ao “êxodo” das big techs rumo ao Sul Global. E, conscientes deles, sobram duas saídas:
Radicalizar contra a instalação de datacenters de IA, entendendo que os problemas tendem a se acumular e que o que se apresenta é um imenso Cavalo de Troia digital, mesmo para quem hoje tem energia excedente, caso do Nordeste.
Analisar caso a caso e, à luz de planejamento e diretrizes acordadas com as big techs interessadas, que vão ganhar muito dinheiro neste “nosso ouro de tolo”, cobrar o preço justo em contrapartidas sociais, tecnológicas e econômicas, com monitoramento e transparência do que ficar combinado.
Fico com a segunda. Radicalizar é fácil e, convenhamos, também é preguiçoso: abre mão da negociação antes de tentá-la. O caminho mais difícil, mas mais promissor, é sentar à mesa munido de diretrizes claras e cobrar o preço justo.
*Plano Nacional de Negociação de Datacenters (PNND)*
Negociar significa discutir acesso à capacidade computacional para universidades, formação de engenheiros, investimento obrigatório em P&D, transferência tecnológica, compras locais, infraestrutura compartilhada e transparência das contrapartidas.
O Brasil precisa de mais do que uma política de incentivos para datacenters. Precisa de uma Política Nacional de Negociação (PNND): um conjunto de diretrizes capaz de transformar cada novo empreendimento em um instrumento de desenvolvimento nacional. Porque, na Economia Informacional, o desenvolvimento não depende apenas de quem investe. Depende, sobretudo, de quem negocia (https://maurooliveira.blog/0-datacenters/).
Sem análise conjuntural, planejamento, contrapartidas estratégicas e transparência, a instalação de datacenters de IA tende a beneficiar principalmente os investidores, não a sociedade brasileira. Com uma PNND e governança adequada, essa mesma infraestrutura pode transformar energia, conectividade e capacidade computacional em ciência, tecnologia, inovação, indústria e soberania.
Depois de perguntar para quem estamos entregando as chaves, talvez a resposta dependa menos de quem bate à nossa porta e muito mais da coragem que tivermos para negociar antes de entregá-las.
Soberania nunca foi a arte de fechar portas.
Sempre foi a inteligência de decidir em que condições vale a pena abri-las.
*Mauro Oliveira
Professor do IFCE, PhD em informática por Sorbonne University e ex-secretário nacional de Telecomunicações do Ministério das Comunicações.