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“Desenho de Som” – Por Tuty Osório

Tuty Osório é jornalista, publicitária e escritora

É interessante demais esse retorno à Rádio. São centenas de programas independentes, transmitidos pela internet, versando os mais diversos assuntos. Produtoras de todos os portes, umas mais sofisticadas que outras, belas trilhas, vinhetas criativas, marcantes, fazendo valer a beleza da escuta que permeou a minha infância, num lugar onde não havia televisão. A mídia era jornal, revista, banco de praça e a majestosa Rádio, senhora de todos os movimentos e da mais colorida imaginação.

Cheguei a ter um programa infantil. Ancorava, apresentava as historinhas gravadas em disquinhos coloridos de vinil, interpretava poesia, lia cartas que vinham de longe, até das linhas cruéis da guerra colonial. Meus pais supervisionavam, eu tinha 7 anos de ousadia e despreparo. Desconhecia a gramática do perigo e, apesar de bastante ocupados, a cidade era pequena e permitia-lhes uma vigilância segura, sem histerias. Vem dali a grande paixão que tenho pelo rádio, em qualquer versão.

O que domina a atenção, hoje, são os chamados PODCASTS. Prefiro os que contam histórias com relatos, entrevistas, depoimentos. Embora toda a comunicação seja, na essência, uma contação em múltiplas linguagens, estes dos quais falo fazem isso de caso pensado. O plano é a história, contada por vozes impostadas para a tarefa. Envolvem a gente com exclusividade ou fazem companhia nos afazeres do dia a dia que permitem dividir a atenção. Não vivo sem eles, meus companheiros na faxina, na insônia, na solidão da angústia de algumas tardes tristes.

Esta semana deparei-me com um que narra a respeito de um grupo de mulheres indígenas da Amazônia que lutou e conseguiu incluir os produtos da agricultura familiar na merenda das escolas públicas. Substituindo os ultraprocessados, muitas vezes com a validade vencida, impostos pelas articulações de poderosos. Episódio contado pelas protagonistas, por especialistas em nutrição e educação, por jornalistas muito bons de texto e de interpretação.

Quase 50 minutos de muita informação, asas que me levaram ao cenário, a alegria do final em que venceu a prioridade das comunidades, num círculo virtuoso que deveria pautar todas as decisões políticas, portanto públicas. Ah a complexidade da nossa imensa humanidade… Falar é mostrar, ouvir pode ser, também, ver. O Brasil é grande. Ficamos próximos quando damos as mãos, varando por céus e florestas a nossa cognição motivada por conhecer.

Não haverá cérebros podres se abraçarmos a benção da escuta relevante. Há uma fotografia de um garoto dançando sobre os ex-votos do Juazeiro na parede da minha sala. Da lente genial do fotógrafo Celso Oliveira, veio para lembrar-me que da aparente imobilidade revela-se um brincante inusitado, espontâneo. Amigo dos que despertam imagens ao oferecer a força do barulho harmoniosamente composto.

Tuty Osório é jornalista, especialista em pesquisa qualitativa e escritora. São de sua lavra QUANDO FEVEREIRO CHEGOU (contos de 2022);

SÔNIA VALÉRIA, A CABULOSA (quadrinhos com desenhos de Manu Coelho de 2023) e MEMÓRIAS SENTIMENTAIS DE MARIA AGUDA, dez crônicas, um conto e um ponto (crônicas e contos, também de 2023).

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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