“Segurando as lágrimas, dei uma mordida e engoli rápido, com receio de vomitar e passar vergonha”, aponta a jornalista e escritora Ana Márcia Diógenes
Confira:
O que pode ser pior do que comer o que não se gosta? Comer duas vezes, seguidas, o que não se gosta. Digo isso porque já vivi uma história em que, por vergonha de dizer que não gostava de uma sobremesa, acabei tendo que engolir dois pedaços de uma coisa que detestava.
Eu tinha uns 12 anos de idade e tive que acompanhar minha mãe que ia fazer companhia a uma pessoa da família no hospital. Ela me pegou no colégio e fomos direto para o hospital. Lá, o almoço só era servido para uma acompanhante. Próximo ao hospital moravam duas irmãs, amigas de minha mãe quando morávamos no Interior. Elas me levaram para almoçar. Antes, minha mãe cochichou: seja educada.
O almoço, com gosto e cheiro de comidinha de receitas antigas, estava uma delícia. O problema era o doce de goiaba que veio junto. Uma das irmãs assistia telejornal e a outra, que havia feito a comida, dizia para provar. “Seja educada”, era só que eu lembrava. Segurando as lágrimas, dei uma mordida e engoli rápido, com receio de vomitar e passar vergonha. Enquanto ela deu uma saída até a cozinha, corri para o banheiro e joguei o resto no aparelho sanitário.
Bastou a irmã cozinheira voltar e ver o prato de sobremesa vazio, para dar-se ali o veredito da minha desgraça.
— Eita, ela comeu foi rápido. Gostou mesmo. Pois tome outro pedaço pra você!
Virei o rosto para a televisão, querendo ganhar tempo. Como dizer agora que não gostava? A outra irmã ria, sem sequer imaginar meu sofrimento. Ri de mim mesma, pensando no que custava o “seja educada”. Segurei o vômito que queria sair antes mesmo de eu comer. Dividi em alguns pedaços e comi, sem água, para não embrulhar a barriga.
Na época, agradeci e voltei correndo para o hospital, com gastura na boca. Hoje, após ter aprendido a dizer muitos “nãos” ao longo da vida, agradeço por terem me oferecido aquela sobremesa que me parecia indigesta. Não é que foi a partir daquele dia que passei a ter o doce de goiaba como um dos meus preferidos?
Ana Márcia Diógenes é jornalista e escritora