Com o título “E lá vamos nós de novo às urnas, lembrem-se: todo cuidado é pouco”, eis artigo de Francisco Bezerra, jornalista, radialista e escritor. “A atual composição da Câmara Federal é simplesmente deprimente (perdoem a rima fácil). Tirando as poucas exceções num universo de 513 parlamentares, o despreparo, a falta de republicanismo, de ideias, de propostas é gritante”, expõe o articulista.
“Se os evangélicos entrarem na política, o Brasil irá para o fundo do poço, o país retrocederá vergonhosamente e matarão em nome de Deus.” (Brizola, há mais de 20 anos).
Confira:
Infelizmente, a política brasileira se transformou em terreno pantanoso. Assistimos impassíveis aos piores tipos de patranhas antes, durante e depois das eleições. Uma seara de oportunismos, embustes, mistificação, falsas promessas, fundamentalismo religioso, hipocrisias, falsos testemunhos, idolatrias, mentiras, falsidades, ignomínias, opróbrios…ufa, haja vocábulos para descrever o cenário nacional em tempos bicudos, estranhos. E o pior exemplo da má política vem do Congresso Nacional. Contam uma história do grande Ulysses Guimarães, pouco tempo antes do seu desaparecimento nas águas profundas do mar no dia 12 de outubro de 1992. O Senhor Diretas foi interpelado por um parlamentar jovem, marinheiro de primeira viagem, assustado com o baixo nível dos deputados da legislatura da qual fazia parte. Do alto de sua experiência político-parlamentar, Ulysses, que exercia o seu décimo primeiro mandato na Câmara dos Deputados, foi incisivo, cortante como uma navalha: “se você acha que esta atual Câmara está ruim espere para ver a que vem depois.” Sábias e proféticas palavras do homem que comandou com extrema maestria o processo constituinte nos anos de 1987-1988.
A atual composição da Câmara Federal é simplesmente deprimente (perdoem a rima fácil). Tirando as poucas exceções num universo de 513 parlamentares, o despreparo, a falta de republicanismo, de ideias, de propostas é gritante. Há quem sinta saudade do deputado Roberto Cardoso Alves, o deputado paulista que foi um dos líderes do Centrão durante o período constituinte e que lavrou frase que se tornou célebre pelo sincericídio que encarnava. “É dando que se recebe,” expressava, através do seu autor, a forma mais desavergonhada de fisiologismo político até então visto em nossa República.
Aliás, foi também durante o processo constituinte que se registrou, de forma escancarada, a compra de votos no Congresso Nacional. Quando da votação do artigo que definiria o tempo do mandato do presidente José Sarney, entrou em campo o ministro das Comunicações de então, Antônio Carlos Magalhães, ou Toninho Malvadeza como queiram, a distribuir concessões de emissoras de rádio e televisão para quem apoiasse a tese dos 5 anos para o presidente de plantão.
E tem mais. Em 1997, o Congresso Nacional aprovou o instituto da reeleição. Sabe-se que o grande interessado na proposta era o presidente da ocasião, Fernando Henrique Cardoso, que ansiava um segundo mandato. FHC ficou na sede do Poder Executivo com cara de paisagem enquanto seus operadores compravam votos dos deputados para a aprovação da emenda que alterava a constituição e estabelecia a
mudança nas regras do jogo, durante o jogo. Teve deputado que embolsou até duzentos mil reais para garantir a aprovação da proposta da reeleição. Apesar das provas provadas, os envolvidos no escândalo de corrupção parlamentar ninguém foi responsabilizado ou punido. Com a cara lambuzada de óleo de peroba, o que sempre lhe caiu bem e costumeiro, Fernando Henrique disse que nada sabia ou ouvira falar de tais acontecimentos. E a República do faz de conta tocou o bonde da história.
Entre as atuais bancadas no Congresso, a mais esdrúxula é a tal da “bancada da bíblia” ou “evangélica”. Temos que lembrar aos caros leitores que o Estado é laico desde a constituição de 1891. Para quem acredita, Deus, certamente não se mete em questões que são da alçada do homem, como o papel, por exemplo, de legislar. Desconfie muito de quem usa o nome de Deus para angariar votos. Há sempre, na maioria dos casos, más intenções ou objetivos escusos. Falo do tema sem nenhum preconceito contra qualquer religião. Entendo que a fé de cada um é cumbuca fechada e que ninguém tem o direito de meter a mão ou apontar o dedo.
Para completar, neste inferno de Dante, que são as Casas Congressuais maiores, temos ainda as bancadas do boi e da bala. Do boi é a da defesa intransigente do agronegócio. Nada haveria demais se tais congressistas não demonizassem o MST e a reforma agrária. Reforma que quase todos os países, principalmente os capitalistas já fizeram. Já os componentes da bancada da bala carregam o estandarte de que ‘bandido bom é bandido morto.’ Estes senhores defendem de forma contundente a pena de morte, armamento indiscriminado e a violência como método de enfrentamento aos problemas de segurança.
O drama maior é que os últimos presidentes, sobretudo da Câmara dos Deputados, não são figuras respeitáveis. Um deles, Eduardo Cunha, fez todo tipo de corrupção dentro e fora do Parlamento. Chegou ao cúmulo de comandar o processo de afastamento de uma presidente honesta por crime de responsabilidade. Crime que ela não cometeu. Por sua vez, o deputado das Alagoas, Artur Lira, foi o inventor do Orçamento Secreto, um ralo por onde escorre o dinheiro público em proporções nunca vistas antes. Para completar a ópera-bufa, Lira escolheu a dedo o seu sucessor, o inexpressivo Hugo Mota, um reles aprendiz de feiticeiro de conduta pública nada recomendável. Pois é neste vespeiro que iremos meter o dedo com a responsabilidade da escolha dos nossos representantes em nível estadual e federal. O
caminho de agora é das urnas no dia 4 de outubro próximo. Que Deus tenha piedade de todos nós. Se é de escolher ruim o melhor é nem escolher. E sai da frente que atrás vem gente.
*Francisco Bezerra
Jornalista, radialista e escritor.