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“El Niño e a Economia Brasileira: aspectos históricos, consequências e repercussões globais – Parte II” – Por Célio Fernando

Célio Fernando é presidente da Academia Cearense de Economia. Foto: Divulgação

“O clima não inventa crises: ele apenas cobra, antes do prazo, a fatura das fragilidades que já existiam”, aponta o economista Célio Fernando

Confira:

O artigo anterior tratou do evento em curso, dos alertas já emitidos e dos instrumentos que o Ceará tem em mãos. Este recua no tempo, porque nenhuma previsão climática explica sozinha o que virá. O que decide o tamanho do estrago não é apenas a temperatura do Pacífico, é a estrutura que o choque encontra quando chega.

Coincidência ou consequência? A resposta mais honesta é uma terceira. O El Niño funciona como antecipador. Seu ciclo dura de doze a dezoito meses, atravessa dois anos calendário e costuma chegar quando a economia já está tensionada, agindo como teste de estresse involuntário. Ele não cria a fratura, mas ajuda a escolher o momento em que ela se abre.

Os quatro episódios examinados a seguir não foram escolhidos por serem os mais intensos do ponto de vista oceanográfico, e sim porque neles um El Niño forte encontrou o Brasil em situação macroeconômica já tensionada, deixando registro mensurável em preços, produto ou moeda. É esse encontro, e não o fenômeno isolado, que interessa à análise econômica.

Em 1877-1878, a Grande Seca devastou o Nordeste. As estimativas historiográficas variam muito, entre 300 e 500 mil mortes, com ampla margem de incerteza, a maioria no Ceará, cuja população mal passava de 800 mil habitantes. O socorro público consumiu montante que as fontes situam próximo de uma receita anual inteira do Tesouro imperial, financiado por emissão de papel-moeda e dívida externa. O mil-réis, cotado perto de 27 pence em meados da década, recuou para a casa dos 20 pence.

Simultaneamente, falhas de monção na Índia e na China produziram fomes que mataram dezenas de milhões e facilitaram o avanço colonial. O Império não caiu pela seca, mas saiu dela com a moeda deteriorada e a autoridade exposta.

Décadas depois, Rachel de Queiroz escreveria em O Quinze aquilo que nenhuma estatística alcança: a estrada de retirantes, a fome que não se mede em índices e, ainda assim, o gesto de quem reparte a última farinha. O sertão sempre soube que se atravessa a seca de mãos dadas, nunca sozinho. Essa é a economia mais antiga do Nordeste, a da solidariedade, e talvez a única que jamais quebrou.

Em 1982-1983, a estiagem prolongada no Nordeste coincidiu com enchentes no Sul e com a moratória mexicana. A quebra de feijão, milho e arroz encontrou uma economia indexada e um câmbio prestes a ser desvalorizado. Medida pelo IGP-DI, a inflação passou de 99,7% em 1982 para cerca de 211% em 1983, enquanto o PIB recuava aproximadamente 3%, magnitude que varia conforme a série e as revisões metodológicas posteriores. O contraste global é revelador: no mesmo ano, os Estados Unidos reduziam sua inflação para 3,2%. O mundo desinflacionava; o Brasil, indexado, transformava choque de oferta em inflação permanente.

O evento de 1997-1998 foi ainda mais intenso e, por isso, o mais instrutivo. Na Indonésia, o arroz disparou, a inflação superou 75% no acumulado em doze meses do pico da crise e o PIB despencou mais de 13%, contribuindo para a queda do regime de Suharto. No Brasil, sob a mesma condição climática, o IPCA de 1998 fechou em 1,65%, com PIB praticamente estável.

A diferença não estava no oceano, estava nas instituições: âncora monetária, abertura comercial que permitiu importar alimentos e fim da indexação generalizada. O clima define o tamanho do choque; a instituição define quanto dele vira preço.

Em 2015-2016, a lição foi reaprendida pelo bolso, e aqui convém precisão. O IPCA fechou 2015 em 10,67%, o maior em treze anos, enquanto as economias avançadas rodavam perto de 0,3%. A energia elétrica subiu em torno de 51%, resultado da combinação entre acionamento de térmicas, correção de subsídios represados e efeito das bandeiras tarifárias, e não apenas do estresse hídrico. O câmbio depreciado também empurrou preços. O PIB caiu 3,5% em 2015 e 3,3% em 2016, na mais severa recessão brasileira em décadas. O clima não foi a causa única, mas foi o gatilho que encontrou uma economia já frágil. Energia e comida pesam mais no orçamento de quem ganha menos, e a percepção de piora chegou antes da própria recessão.

O episódio de 2023-2024 pertence a outra categoria. Foi o primeiro grande El Niño a operar sobre uma linha de base historicamente mais quente, e também o primeiro a encontrar o país com Cemaden estruturado, Defesa Civil mais articulada e um plano nacional de adaptação em construção. Seus efeitos não se distribuíram como nos ciclos anteriores, e o mapa de danos que ele deixou é justamente o objeto do próximo artigo.

Essa mudança de patamar altera a natureza do planejamento. Já não se trata de administrar exceções, e sim de conviver com uma normalidade instável, na qual cada novo ciclo pode chegar mais cedo e com força maior do que os registros anteriores sugerem.

A diferença auspiciosa é que, pela primeira vez, existe organização preventiva antes do choque. Ainda insuficiente, mas inaugural. O Plano Clima em sua vertente de adaptação, o fortalecimento do Cemaden e da Defesa Civil e o legado institucional da COP30 compõem um arcabouço que não existia em 1998 nem em 2015. Essa arquitetura é o que pode, de fato, salvar vidas e preservar renda.

O Ceará ilustra bem essa transição. O estado que em 2015 enfrentou colapso hídrico chega ao ciclo atual com governança de água consolidada, monitoramento próprio e capacidade de decidir com antecedência. Não é blindagem, é vantagem de tempo, e tempo, em economia do clima, é a variável mais escassa. Persistem elos frágeis nas culturas de sequeiro e na zona costeira, que exigem alerta precoce capaz de transformar informação em decisão antes do evento.

O que muda agora é a natureza da pergunta. O episódio já está confirmado, com pico previsto para o fim de 2026, e seus efeitos econômicos deverão se concentrar na quadra chuvosa de 2027 e na safra 2027-2028. Não há mais janela de espera, há apenas os meses finais de preparação. Planejar, no sertão, sempre foi um jeito discreto de cuidar do outro. Se o El Niño é um antecipador de crises, a resposta correta é simples de enunciar e difícil de executar: antecipar-se a ele, protegendo primeiro quem tem menos reserva para atravessar o ciclo que já começou.

Célio Fernando Bezerra Melo
Presidente da Academia Cearense de Economia

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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