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“Entre o rosário e a consciência” – Por Barros Alves

Barros Alves é jornalista e poeta

“Havia entre os dois uma admiração secreta, quase inconfessável. Lucas invejava a leveza com que Quintino atravessava a vida, sem culpas nem temores. Quintino, por sua vez, nutria um respeito silencioso pela disciplina e pela fé inabalável de Lucas, uma estrutura que ele próprio nunca tivera”, aponta o jornalista e poeta Barros Alves

Confira:

Lucas Rosário era desses homens que pareciam ter nascido com o terço já enroscado nos dedos. Não perdia a missa das seis na Igreja de São João Batista, onde ocupava sempre o mesmo banco, ligeiramente à direita do altar, como quem quer ficar perto, mas sem chamar atenção — ainda que, no fundo, acreditasse ser visto por Deus com especial interesse. Rosário em punho — daí o apelido — tinha para si que sua missão era clamar no deserto, tal qual o Batista, denunciando víboras e sepulcros caiados que, segundo ele, infestavam o mundo moderno.

Mas Deus, com seu senso peculiar de ironia, dera a Lucas um amigo improvável: Quintino das Cunhãs.

Quintino era o avesso completo. Enquanto Lucas se recolhia à oração, Quintino se espalhava pela noite. Solteiro, cachaceiro e raparigueiro, considerava religião uma distração para os fracos e um bom negócio para os espertos. Gostava de provocar o amigo:

— E esse teu Deus invisível, Lucas, já te pagou alguma conta?

Lucas não se ofendia. Pelo menos não externamente. Limitava-se a apertar o rosário com mais força, como quem segura uma âncora em mar revolto.

Apesar disso, eram amigos. E não por acaso. Havia entre os dois uma admiração secreta, quase inconfessável. Lucas invejava a leveza com que Quintino atravessava a vida, sem culpas nem temores. Quintino, por sua vez, nutria um respeito silencioso pela disciplina e pela fé inabalável de Lucas, uma estrutura que ele próprio nunca tivera.

Ambos trabalhavam na mesma repartição pública, um prédio velho de paredes descascadas e ar-condicionado intermitente, onde foram parar pelas mãos generosas, ou interessadas, do deputado Josevaldo Santana, o famoso “Josê Pé de Meia”, homem que transformara a política numa arte de acumular patrimônio sem nunca perder o sorriso popular.

Durante anos, tudo correu em perfeita harmonia. Até que os ventos do destino resolveram soprar areia naquela engrenagem improvável.

Numa tarde abafada, Lucas chamou Quintino para uma conversa reservada.

Falou em voz baixa, mas com solenidade:

— Chegou a hora de retribuir de verdade ao deputado.

Explicou, com certo orgulho, que já vinha “ajudando” há tempos, facilitando alguns negócios. Ergueu o olhar ao teto, como se buscasse aprovação celestial.

— Agora é algo maior. E também uma oportunidade pra ti…

Para fazer as pazes com Deus.

Mencionou, então, que uma parte considerável do dinheiro — “uma bênção, coisa grande” — seria destinada à Igreja. Algo que, segundo ele, faria “os anjos dizerem amém três vezes”.

Quintino ouviu tudo calado. Mas, à medida que os detalhes surgiam, seu rosto mudou. Endireitou-se na cadeira, arregalou os olhos e, teatral, ergueu a mão como quem afasta uma assombração:

— Vade retro, Satanás!

Lucas ficou atônito.

— Não entro nisso — continuou Quintino, firme. — Sou um lascado, não tenho nada… mas, não sou ladrão.

Houve um silêncio pesado.

Lucas sentiu algo entre decepção e desprezo. Para ele, aquilo não era apenas um negócio, era quase um sacrifício. Um pecado, sim, mas com propósito maior. Deus haveria de entender. Deus sempre entendia, desde que bem explicado.

— Tu não tens visão — murmurou.

Decidiu agir sozinho.

Fechou o acordo com o deputado, executou o esquema e recebeu sua parte. Cuidadosamente separada a destinada à Igreja, como prometido. Cumpriu sua “missão” com zelo quase litúrgico.

E, como medida de precaução, ou vingança, tratou de fazer a caveira de Quintino junto ao chefe.

Josê Pé de Meia não gostou. Nada. Já arquitetava uma forma elegante de se livrar do ingrato.

Mas não houve tempo.

A Polícia chegou primeiro.

Bateram à porta do deputado, depois à de Lucas, e por fim à de Quintino. As investigações apontavam conexões, rastros, vínculos… E os nomes dos dois surgiam inevitavelmente.

Lucas, pálido, agarrou-se ao rosário como um náufrago. Beijou o crucifixo e jurou:

— Não sei de nada! Quem era próximo dele era o Quintino! Eu sou homem de fé! Cumpro os mandamentos! Especialmente o “não roubarás”!

Sua voz tremia, mas o discurso saía pronto, quase ensaiado.

Quintino, quando interrogado, fez algo bem mais simples.

— Olhe minha conta no Banco do Estado — disse.

E era isso.

Uma conta vazia. Nenhum bem. Nenhum patrimônio. Nenhuma religião para justificar, nenhuma fé para negociar.
Apenas um homem. Falho, desregrado, mas limpo no que importava.

No fim, o que os unia continuava ali, invisível como o Deus de Lucas e incômodo como a consciência de Quintino: ambos, à sua maneira torta, tinham encarado o próprio reflexo. E escolhido o que fazer com ele.

Barros Alves é jornalista e poeta

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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