Com o título “Falar Cantado”, eis mais um texto da lavra de Totonho Lapovítera, arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.
“Falar cantando é soltar pássaros com a melodia da voz.” (Aíla Sampaio)
Confira:
Nem todos os traços de um povo cabem em cartas ou documentos. Muitos vivem na memória coletiva e se revelam nos gestos, nos costumes e, sobretudo, na maneira de falar. Antes de qualquer apresentação, a voz anuncia nossa origem e carrega a alma da terra onde pronunciamos as primeiras palavras.
Nascer no Ceará talvez signifique receber, junto com o primeiro choro, uma melodia evidente. Por aqui, as palavras raramente têm pressa. Preferem balançar no compasso da voz, como folhas ao sabor do vento ou pequenas ondas desenhando rendas na areia da praia. Nosso falar já nasce musical.
Quem sabe por esse motivo tantos cearenses revelem natural vocação para compor letras de canções. Antes da primeira estrofe, a melodia já habita a conversa, as lembranças da infância, a prosa entre amigos, a feira, a calçada ou a sombra de um alpendre. A poesia simplesmente acontece.
O tempo soma novas sonoridades. A convivência entre diferentes culturas, a mobilidade das pessoas e o avanço das tecnologias juntam modos de falar, espalham expressões e remodelam costumes. Ainda assim, o sotaque cearense continua inconfundível. Sofre pequenas transformações, mas preserva a própria essência.
Existe uma música discreta na fala do nosso povo. Ela acompanha o riso aberto, adoça as histórias, acolhe as tristezas e aumenta a alegria dos reencontros. Até a saudade acha abrigo nessa cadência mansa, carregada de afeto.
Imagino sotaque como um instrumento musical. Não possui cordas, teclas, palhetas nem tambores. Vive apenas na voz. Cada pessoa o afina à sua maneira, sem ensaio nem partitura. Basta abrir a boca para a identidade ganhar som.
Muito além de um simples modo de pronunciar palavras, o falar cantado traduz nossa maneira de viver. Nele repousam a memória dos antepassados, a herança sertaneja, a influência do mar, o humor diante das dificuldades e a esperança teimosa de dias melhores. Cada sílaba preserva um pouco da história coletiva e da sensibilidade de um povo acostumado a transformar adversidades em coragem e convivência em afeto.
Reside aí um dos maiores patrimônios do Ceará. Um bem imaterial impossível de guardar em arquivos ou museus. Vive na boca do povo, atravessa gerações e renasce a cada conversa, sem perder o frescor nem a autenticidade.
Sempre acreditei existir numa grande afinidade entre a música e a palavra. No Ceará, essa ligação é natural. Nosso sotaque serve para comunicar, emocionar, aproximar pessoas e transformar o dia-a-dia em poesia. Por isso, ao ouvir um cearense falar, muita gente tem a impressão de ouvir uma canção. Não por acaso, mas porque, nesta terra, a música começa antes do canto. Começa na própria voz.
*Totonho Lapovítera
Arquiteto urbanista, escritor e artista plástico.