“Falcon de pijama” – Por Marcelo Uchôa

Marcelo Uchôa é advogado, professor universitário e Mestre em Direito. Foto: Arquivo

“Receberei, na Assembleia Legislativa, o Título de Cidadão Cearense. Uma reparação simbólica a quem só não nasceu aqui porque a ditadura impediu”, aponta o advogado e escritor Marcelo Uchôa

Confira:

Nasci em outubro de 1974, cume da ditadura. Naquele ano, em março, Geisel substituiu Médici na presidência, escolhido indiretamente por um colégio eleitoral formado em janeiro, em um Congresso dominado pela Arena. Um resultado ruim, porém surpreendente: o candidato do MDB, Ulysses Guimarães, arrancou a fórceps 76 heroicos sufrágios. O placar preanunciava o que viria contundentemente das ruas, em novembro, pelo voto direto, um mês após o meu nascimento: o MDB elegeu 16 senadores contra 6 da situação, em um tempo em que protestar ainda significava prisão ou morte.

No mês em que nasci, a Guerrilha do Araguaia estava em processo avançado de extermínio. Três meses antes, remanescentes da VPR haviam sido eliminados na Chacina de Foz do Iguaçu. A esquerda armada fora praticamente apagada do mapa. Os raros sobreviventes mofavam na prisão, amargavam anos em exílio fora do país ou vagavam à espera de uma morte quase certa ou um improvável desfecho diferente.

Os riscos eram inúmeros, mas a sociedade se mexia. No ano anterior, 73, o assassinato de Alexandre Vannucchi no DOI-CODI de São Paulo reacendeu um movimento estudantil esfacelado pelo AI-5. A Missa de Sétimo Dia, celebrada na Catedral da Sé por Dom Arns, foi um marco. Em 74, a ousadia criativa de O Pasquim furava a censura. Chico era a referência, mas os Secos & Molhados chocavam o regime com uma estética que afrontava os “bons costumes”.

A curva da ditadura iniciava a queda. Mulheres eram incansáveis na busca e defesa de seus filhos e companheiros. Em 75, Therezinha Zerbini funda o Movimento Feminino pela Anistia. Eram tempos de “abertura lenta e gradual”, a promessa de Geisel que também era uma farsa. Naquele 75, o jornalista Vladimir Herzog foi “suicidado” no DOI-CODI paulista. O ano seguinte começou idêntico para o operário Manoel Fiel Filho, um “acidente fatal” automobilístico levou Zuzu Angel e dezembro fechou com a Chacina da Lapa.

Eu não sabia de nada disso. Apenas achava curioso que meu boneco Falcon usasse um pijama igual ao meu e ao do meu pai, e não sua farda militar. Anos depois, saberia: foi o modo que minha mãe encontrou para convencer o “Papai Noel” a levar um milico para nossa casa naquele Natal de 1977.

Em 1978, nasceu meu irmão. A oposição avançava em todo o país e um jovem Lula começava a mobilizar multidões no ABC paulista. Não foram poucas as vezes em que fui às ruas, na cacunda do meu pai, gritar: abaixo a “dentadura”!

Meus avós, tios e primos moravam no Ceará. De duas famílias inteiras numerosas, só nosso núcleo vivia no Rio. Esquisito era, mas por que uma criança deveria saber que o pai, que havia cumprido prisão por “subversão”, tinha tido pena aumentada pelo Superior Tribunal Militar e, clandestinamente, tentava escapar de novas torturas e prisão? Nem nossos poucos amigos no Rio sabiam…

Em agosto de 1979, veio a anistia e, em 80, eu já estava matriculado na escola, em Fortaleza. Meus anos no Rio me custaram não conhecer dois avôs e uma avó. Os novos coleguinhas implicavam com meu chiado carioca, enquanto eu me divertia com palavras que explodiam diferentes da boca: “baitôla, baitolinha, baitolão”. Cearense eu já era, só não tinha consciência.

Aqui cresci, me eduquei, formei família, construí carreira na advocacia e no magistério, tenho exercido minha militância política e me engajei na luta por Memória, Verdade e Justiça. Em 17 de abril, às 9h, receberei, na Assembleia Legislativa, o Título de Cidadão Cearense. Uma reparação simbólica conferida pela Lei n.º 19.264/25 a quem só não nasceu aqui porque a ditadura impediu.

A matéria (de autoria do deputado Renato Roseno, coautoria da deputada Larissa Gaspar, aprovada pela maioria dos pares e posteriormente sancionada pelo governador Elmano de Freitas) foi rejeitada pela bancada do PL. Mas até essa esdrúxula atitude eu suspeitava que aconteceria. Com 46 dos meus 51 anos vividos no Ceará, já sei quem são as pessoas e como funcionam os comportamentos. Não importa, carrego comigo Patativa do Assaré: “Eu sou de uma terra que o povo padece / Mas nunca esmorece, procura vencer / Da terra onde o filho se sente orgulhoso / De ser cearense e de aqui nascer”. Sou cearense e ponto final.

Marcelo Uchôa é advogado, escritor e professor de Direito

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Respostas de 3

  1. …A esquerda armada fora praticamente apagada do mapa….
    Graças aos bravos militares brasileiros os terroristas que faziam sequestros, assaltos e JUSTIÇAMENTOS foram derrotados.

  2. Li com profunda emoção o texto “Falcon de pijama”, de Marcelo Uchôa.
    Mais do que uma lembrança pessoal, o artigo nos conduz por uma travessia histórica marcada pela dor, pela resistência e pela memória.
    É impressionante como a narrativa revela o contraste entre o olhar inocente da infância — simbolizado pelo boneco Falcon de pijama — e a realidade dura da ditadura que atravessava o país e a vida de tantas famílias.
    O texto nos lembra algo essencial: a história política não é feita apenas de datas e acontecimentos, mas de vidas concretas, de mães que protegem, de pais perseguidos, de crianças que crescem sem saber exatamente por quê.
    Receber o título de cidadão cearense, nesse contexto, torna-se mais que uma homenagem: é uma reparação simbólica e um reconhecimento de pertencimento.
    Que nunca nos falte memória. Porque lembrar também é um ato de justiça.
    Parabéns a Marcelo Uchôa por transformar lembrança em reflexão e história em consciência.

    1. Perfeito Fatima Medina,

      Parabéns.
      ….O texto nos lembra algo essencial: a história política não é feita apenas de datas e acontecimentos, mas de vidas concretas, de mães que protegem, de pais perseguidos, de crianças que crescem sem saber exatamente por quê….

      Quantos jovens foram mortos pelos que faziam JUSTIÇAMENTOS, alguns por terem sido acusados, sem provas, de não serem colaboradores dos terroristas.
      Comerciantes tinham mais medo daqueles “meninos inocentes” do que dos militares.
      Eu não entendia o medo de meu pai por ter APENAS presenciado um assalto ao Banco em frente ao Mercado São Sebastião.

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