“Não seria ingênua de negar que a roda gira, seja grande ou pequena. Contudo é melancólica a forma diante de mim. Não somente pela extinção da memória, já em si um fato triste”, aponta a jornalista e publicitária Tuty Osório
Confira:
Perto do prédio da minha mãe há um conjunto de casas. Havia. Numa delas acontecia uma missa, aos sábados, fim de tarde. Minha mãe gostava de assistir, por ser muito perto, caminhava até lá sozinha. Fez amizades, o hábito seguiu-se ao ritual, em bonita rotina de fé e sentido comunitário. Acompanhei-a algumas vezes e fui acolhida com carinho. Recentemente a casa foi vendida, como no poema de Drummond, com seu vento encanado, com os pecados cometidos e ainda por cometer. Certamente por alguns contos reais que justificaram. Todo o conjunto foi empacotado. No espaço subirá um prédio com detalhes desenhados por arquitetura célebre, piscina aquecida, área gourmet, sala de ginástica. Há recentes dias passei caminhando no momento que a máquina demolia as derradeiras paredes. Enquanto uma outra aplacava o terreno de terra vermelha e cinza.
Paralisei diante das histórias que soterravam quase instantaneamente. Décadas de vidas, energias que se misturaram por gerações. Novas histórias virão, a habitar os pequenos lares projetados para a classe média alta que se endivida pra garantir conforto e arremedos de sofisticação. Parece inevitável que assim seja. A verticalização que também alimenta, gera oportunidades de trabalho, de renda, mesmo no equilíbrio frágil do nosso mundo desigual. Não seria ingênua de negar que a roda gira, seja grande ou pequena. Contudo é melancólica a forma diante de mim. Não somente pela extinção da memória, já em si um fato triste.
Há coisas boas para ver e perceber. Tem sido penoso começar os dias, porém, há o que celebrar. Certo o poema que pede olhos para ver a luz chegar aos corações. A profecia do bem de Nelson Cavaquinho existe onde é menos evidente. Brilha o sol quando a amiga afirma que não vai desistir da luta por uma vaga no ensino médio, para a filha, na escola pública. Personagens kafkianos afirmam que é difícil. Ela não ouve a negatividade. Escolhe confiar nela própria e no sistema. Afirma: vou conseguir, aprendi a não desistir dos meus direitos.
Do outro lado do meio dia a minha filha cineasta, Camilla, anima uma Oficina numa outra escola pública. Em parceria com a Instituição de Formação
Artística, Porto Iracema das Artes, onde existe oferta de cursos totalmente gratuitos, política pública estadual e municipal, exclusiva do Ceará – olha aí as boas evidências! Nessa parceria, Camilla compartilha conhecimento com jovens, adolescentes e crianças. Via Editais de Cultura, o Cinema chega a mais gente. A arte que salva, faz-se em sóis de educação.
Podeis pensar. É um grão de areia na vastidão da terra, uma gota no oceano. É. Só que existe e é concreto. Ocorre pelo otimismo da vontade que vence o pessimismo da razão, quer a gente conheça Gramsci, ou não. Deveria ser obrigatório porque faz pensar. Pensar é essencial ao existir com intensidade. Vamos explodir de excesso de vida, não mais pela ausência dela. Ver o bom e dar-lhe espaço, dar-lhe asas, suspender a leveza que assusta pelo hábito do peso.
Pelo presente que já é futuro com sentimentos. Com sentidos.
Tuty Osório é jornalista, publicitária, especialista em pesquisa qualitativa e escritora. Lançou em 2022, QUANDO FEVEREIRO CHEGOU (contos); em 2023, MEMÓRIAS SENTIMENTAIS DE MARIA AGUDA (10 crônicas, um conto e um ponto) e SÔNIA VALÉRIA A CABULOSA (quadrinhos com desenhos de Manuela Marques); todos em ebook. Em dezembro de 2024 lançou AS CRÔNICAS DA TUTY em edição impressa, com publicadas, inéditas, textos críticos e haicais. tutyosorio@gmail.com