“Filas (muitas), livros e (re)encontros (e encontros também): Cearenses na Bienal de São Paulo” – Por Mirelle Costa

Livros, escritores, editoras, leitores e uma programação extensa. Quem chega a uma bienal já sabe que esse é o cenário, mas, ao vivenciar tudo isso pessoalmente, é possível perceber a dimensão de um mercado, a força dos autores independentes, as dificuldades de circulação e, principalmente, a necessidade de criar mais espaços de encontro em torno da literatura.

Na 28ª edição da Bienal Internacional do Livro de São Paulo, realizada de 4 a 13 de setembro, no Distrito Anhembi, estiveram escritores e leitores cearenses com experiências diferentes.

Para esta edição do Cafezim com Literatura, ouvi três deles: o escritor Ubirajara Guerreiro, que participou de várias palestras; o escritor Mailson Furtado, vencedor do Prêmio Jabuti em 2018, que participou de uma mesa sobre autoria e mercado independente; e a escritora Monique Cordeiro, autora de Terramar, publicado pela Editora Patuá em 2025, que participou da Bienal como autora independente.

“Era muita gente, muita gente mesmo”

Ubirajara Guerreiro esteve na Bienal nos dias 7 e 8 de setembro. Participou de várias palestras e teve a oportunidade de ouvir escritores como Julián Fuks, Carlos Ruas e Orlandeli.

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Ubirajara Guerreiro, autor de Tabuleiros da Vida

A primeira impressão é a dimensão do evento.

“Ela é mais ampla, bem maior do que a de Fortaleza. Eu tive a oportunidade de assistir palestras de alguns escritores famosos, destacando o Fuks. Para quem pretendia circular pelos espaços das grandes editoras, como a Companhia das Letras e a Record, a multidão significava também enfrentar filas”, conta Ubirajara Guerreiro, autor da obra Tabuleiros da Vida.

O espaço dos autores independentes

Se as grandes editoras chamaram a atenção de Ubirajara pelas filas, outro espaço da Bienal despertou seu interesse, pela maneira como os autores independentes estavam reunidos.

“Eu tive o prazer de encontrar o Denilson Vieira, com o stand dos autores independentes, lá era maior, mais visível do que o de Fortaleza. Nós ficamos naqueles pequenos stands e já era no final da feira. As pessoas quando chegavam lá já estavam cansadas e com as sacolas cheias e não tinham mais motivação para ouvir muito as nossas explicações e adquirir os nossos livros”, aponta o escritor Ubirajara Guerreiro.

O desafio de chegar à Bienal

Ubirajara utilizou o transporte entre a estação Tietê e o local da Bienal, mas encontrou filas que o fizeram mudar de estratégia.

“Ficou impossível pegar o ônibus que ligava o Tietê ao Anhembi, que é onde estava acontecendo a Bienal”, explica.

A experiência de Ubirajara, portanto, foi feita de palestras, encontros, livros que ele conseguiu observar, autores independentes e muita circulação.

Uma experiência de leitor diante de uma feira que, pelo tamanho, pode ser tão fascinante quanto difícil de percorrer.

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Ubirajara Guerreiro, escritor

Mailson Furtado: “Por mais paradas, mais encontros e mais calma”

O escritor Mailson Furtado teve uma experiência diferente. Sua participação aconteceu no dia 11 de setembro, quando esteve em uma mesa falando sobre autoria independente, mercado independente e autores nacionais.

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Mailson Furtado

Sua passagem pela Bienal foi rápida, ainda assim, encontrou amigos e conseguiu circular um pouco.

“Não consegui visitar praticamente nenhum estande. A Bienal é um espaço, essencialmente, no seu grande ápice, de mercado, de vendas e tal. Um espaço, talvez, de muita passagem, muita circulação, mas a presença de muitas pessoas em um evento de livros não deve ser automaticamente confundida com um retrato completo dos hábitos de leitura, mas, ainda assim, uma Bienal cheia é algo a ser celebrado”, alegra-se Mailson Furtado.

Uma reflexão: que as grandes feiras consigam criar também momentos de permanência.

“Que a Bienal possa, além de ser um evento de passagem, de circulação, ser um evento de mais paradas, mais encontros, mais calma. Eu sei que é difícil trazer essa questão para a realidade, aparentemente, o evento reflete esse momento que a gente vive, de correria e tal”, reflete Mailson Furtado.

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Monique Cordeiro e a experiência de circular como autora independente

A escritora Monique chegou à Bienal com uma história que já vinha sendo construída desde 2025, quando publicou seu primeiro romance, Terramar, pela Editora Patuá.

“Publiquei em 2025 e, desde o lançamento, que aconteceu na Casa Gueto, na Flip, em Paraty, tenho circulado com meu primeiro romance”, comemora.

A Bienal de São Paulo entrou nesse percurso.

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Monique Cordeiro

“Muitas pessoas circulando lá pelos livros e pelos espaços instagramáveis”, conta Monique Cordeiro.

No caso de Terramar, a presença no evento também passou pela própria estratégia da Editora Patuá de promover espaços para sessões de autógrafos.

“Participar desse evento foi possível por eu ter sido contemplada em um edital de mobilidade, o Ceará Criativo. Circulei no evento, conheci autores independentes do Ceará e de outras regiões. Conversei com alguns leitores que estão lendo literatura contemporânea brasileira, literatura de fantasia, de horror e de suspense”, conta a escritora.

Para ela, estar presente nesses espaços tem uma importância que ultrapassa a participação pontual em um evento. “Vale a pena participar dos eventos, circular e conversar com quem está por lá. É uma forma de conhecer gente do meio literário e editorial e ajuda a perceber que se trata de um mercado com questões que geralmente a gente não pensa quando está escrevendo um livro”, opina a escritora.

Três experiências, uma mesma literatura

Ubirajara Guerreiro foi à Bienal como leitor e observador. Encontrou filas, palestras, editoras, autores e um espaço de maior visibilidade para os independentes.

Mailson Furtado esteve como escritor participante de uma mesa. Sua passagem foi curta, mas suficiente para provocar uma reflexão sobre a velocidade dos grandes eventos e a necessidade de mais espaços de debate e encontro.

Monique foi como autora independente, levando consigo um romance publicado recentemente e uma experiência de circulação que começou em Paraty e passou agora por São Paulo.

Três maneiras diferentes de estar no mesmo lugar.

E talvez seja justamente isso que a literatura permita: que um mesmo evento seja visto de ângulos diversos.

Para um, a fila pode ser o que impede a entrada em uma grande editora. Para outro, a feira é um espaço de mercado que precisa também ser espaço de pensamento. Para outra, é uma oportunidade concreta de colocar o livro diante do leitor e conhecer melhor o universo editorial.

No meio de tudo isso estão os livros, os das grandes editoras e os independentes. Os autores já conhecidos dividem o mesmo espaço com aqueles que ainda estão procurando seus leitores.

Uma pergunta fica para nós, aqui no Ceará:

Se uma Bienal pode ser tão grande a ponto de provocar filas, cansaço e dificuldade de circulação, mas também encontros, descobertas e oportunidades para autores independentes, que tipo de feira literária queremos construir por aqui?

Ubirajara Guerreiro acredita que Fortaleza tem condições de realizar um evento daquela grandiosidade, inclusive um stand com mais visibilidade para os autores cearenses independentes.

Mailson Furtado pede mais paradas, mais encontros, mais calma e mais espaços de pensamento.

Monique Cordeiro mostra, na prática, como a circulação pode ajudar um autor independente a encontrar leitores, conhecer outros escritores e compreender melhor o mercado editorial.

Talvez o grande desafio esteja justamente em juntar tudo isso (e agradar a todos).

Uma feira que tenha público, mas que permita encontros.

Que tenha mercado e que não deixe a literatura desaparecer atrás dele.

Que tenha grandes editoras e dê visibilidade aos pequenos.

Que tenha escritores famosos, mas abra espaço para quem está começando.

Que tenha movimento e permita algumas paradas.

Porque, no fim, um livro precisa de uma coisa que nenhuma fila, nenhum estande e nenhuma rede social consegue substituir completamente: um leitor disposto a parar.

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