“Flávio Bolsonaro é o Neymar da extrema direita” – Por Moisés Mendes

Moisés Mendes é jornalista e escritor

“O ex-jogador leva vantagem por ser bom de grupo, enquanto o filho ungido é um desastre no vestiário do bolsonarismo”, aponta o jornalista Moisés Mendes

Confira:

Flávio Bolsonaro nunca conseguiu provar que jogava, mas foi convocado para enfrentar Lula por direito sucessório. Os próprios parceiros e seu técnico, Valdemar Costa Neto, sabem que ele não tem condições de jogar um jogo de gente grande.

Mas Flávio tentou viver da fama do sobrenome, o que se revela agora como vantagem insuficiente. O filho ungido é o Neymar do bolsonarismo. Individualista, confuso, com distorções da realidade e dependente das lendas que alguns inventaram a seu respeito, Flávio é o que a extrema direita chama de narrativa.

Tarcísio de Freitas não quer saber de Flávio por perto, para que não incomode seu favoritismo em São Paulo. Valdemar já avisou que a candidatura dele tem avarias irreversíveis, com suspeita de perda total.

Nikolas Ferreira teria fornecido seus especialistas em vídeo para ajudar Michelle na produção visual com ataques ao enteado. A Faria Lima o abandonou, e só a Globo se esforça para insinuar que a briga continua.

Nessa quarta-feira, o Globo deu de manchete mais essa tentativa de criar equivalências:

“Lula e Flávio testam argumentos sobre tarifaço em prévia de embate da campanha eleitoral”

E logo abaixo acrescentou: “Membros do governo dizem ser oportunista iniciativa do senador, que quer se afastar da ideia de que atuou contra o país”.

Primeiro, não há tratamento equivalente possível entre a sabotagem dos irmãos Bolsonaro contra o Brasil e a defesa da soberania por parte de Lula. Também é falso que Flávio esteja tentando se afastar “da ideia de que atuou contra o país”. Ele atuou contra o país. Não é uma “ideia” ou uma suposição, é um fato.

O confronto entre o que Lula faz pelo Brasil e o que Flávio faz contra o país não é uma mera questão eleitoral, como sugere o Globo. Por que então essa manchete?

Para fingir que o jornal oferece igualdade de tratamento a um democrata e a um fascista. Que é o que as corporações de mídia fazem desde a ditadura, para ficar ao lado da direita e da extrema direita ou por temê-las.

A manchete reaviva uma questão permanente, que inquieta democratas e esquerdas: como Globo, Folha e Estadão continuam sendo protagonistas, num mundo em transformação em todas as áreas, incluindo as da comunicação e do jornalismo?

Por que essa hegemonia não se altera, ao contrário do que acontece em outras atividades? Podem tentar fugir da pergunta, ignorar manchetes como essa e enfiar a cabeça na areia. Só estarão reafirmando a tentação do autoengano. Como se ignorar a realidade ajudasse a modificá-la ou distorcê-la.

E a realidade é que os jornalões tratam Flávio como tratariam Sergio Moro, Michelle, Tarcísio ou Helio Negão, se eles fossem os candidatos da direita. Com mesura e deferências.

Flávio já foi abandonado pelos empresários e até pelas fintechs acumpliciadas com o PCC, mas ainda é tratado com cordialidades pelas corporações de mídia. É a concessão ao ‘outro lado’, mesmo que seja o lado que usa a democracia para degradá-la ou destruí-la.

Por covardia, a cobertura da grande imprensa distorce até a percepção que parte da própria extrema direita passou a ter de Flávio. A madrasta já advertiu para que não tenham o enteado como pessoa confiável.

Mas há uma diferença entre Neymar e Flávio, favorável a Neymar: o ex-jogador sempre foi visto como bom de turma. E Flávio é um desastre no vestiário da direita e até do bolsonarismo.

Moisés Mendes é jornalista, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim). Foi editor especial e colunista de Zero hora, de Porto Alegre

COMPARTILHE:
Facebook
Twitter
WhatsApp
Telegram
Email

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Mais Notícias