“O nome verdadeiro era um mistério. Uns o chamavam de Carlos, outros de Eduardo. Porém, quando estava na avenida, dirigindo, não atendia ninguém. Podiam buzinar à vontade”, aponta o jornalista Paulo Rogério
Confira:
Toda cidade que se preze tem seus personagens folclóricos. Pode ser um político, um padre, um atleta, uma fofoqueira. Ou então um poeta, o bêbado ou até qualquer maluco beleza.
Fortaleza não poderia ficar de fora. Ao longo dos seus 300 anos diversos deles ficaram registrados na memória coletiva. Uns mais famosos, outros nem tanto. Tem o Pedão da Bananada, o bode ioiô e o Zé Tatá e sua pensão, a alegria da juventude fortalezense da época
Quem nunca ouviu falar da Burra Preta da Praça do Ferreira? Ou do badaladíssimo Cabaré da Leila, lá da Maraponga? Mais recente, tinha a Debora Soft e suas aparições inesquecíveis no estádio Presidente Vargas. Ah, Fortaleza, cidade-luz de histórias e estórias excêntricas.
Mas hoje, porém, vou lembrar de um personagem que marcou época pelas ruas do lado Oeste da cidade. Quem morou pelos lados da Parquelândia no tempo que a avenida Bezerra de Menezes tinha um trânsito leve, meio interiorano, lá pelos anos 1980, podia a qualquer momento cruzar com um homem negro, magro, camisa social e calça branca, andando a passos miúdos e rápidos, como se voltasse.
Nos ombros, um pedaço de pau com uma sacolinha branca de algodão amarrado na ponta. Na mão esquerda levava um retrovisor de caminhão, quebrado. A outra, dirigia uma espécie de volante invisível. Pé ante pé, como se estivesse em uma marcha atlética, passava pelas ruas incorporado em caminhão encantado.
Seu nome era Scania, quer dizer, assim alguém o batizou. E assim ficou conhecido. O nome verdadeiro era um mistério. Uns o chamavam de Carlos, outros de Eduardo. Porém, quando estava na avenida, dirigindo, não atendia ninguém. Podiam buzinar à vontade. Se fosse virar à esquerda, para ultrapassar uma carroça ou um carro parado, esticava os braços e abria e fechava a mão. Era sua sinaleira.
Na hora de estacionar, fazia a manobra com todo cuidado. Diminuía os passos, ia para a frente, voltava de ré, ajeitava a dianteira, depois a traseira, brecava e fazia, com a boca, o barulho do ar saindo do caminhão.
Devagar, abria a porta, colocava sua bagagem no chão, fechava o vidro e trancava tudo. Só então ia resolver o que queria. O engraçado é que fora das pistas, sem ser o próprio caminhão, Scania, agia normalmente, como alguém “normal”.
Certa vez estava jantando em um restaurante chamado Palhoça, se não me falha a memória, que ficava em um posto onde hoje é o North Shopping. De repente, Scania apontou na pista. Fez sua tradicional manobra, colocou a sacolinha no chão, dentro do caminhão, e veio em direção às mesas.
Sentou sozinho em uma mesa no canto do restaurante. Levantou os braços discretamente e quando o garçom chegou pediu algo para comer e um refrigerante. Eu estava na mesa ao lado.
– Boa noite. Como está o trânsito? Pergunto, curioso diante da visita inesperada. Ele, educadamente, retribui o cumprimento.
– Está como sempre. O pessoal dirige muito ruim, ninguém dá passagem para ninguém, comentou ele. Pergunto sobre a família, saúde, coisas triviais. Apesar de receptivo, não aprofunda o papo. Mostra, porém, coerência nos pensamentos, bom vocabulário, fala pausada, sem atropelos. Fico sem jeito de falar algo sobre os motivos dele ficar como andarilho pelas ruas e avenidas.
Logo o garçom trouxe o pedido dele e Scania pediu licença para se alimentar. Garfo e faca nas mãos e olho atento na trouxa estacionada ao lado do retrovisor, na beira da calçada.
De forma discreta, chamei o garçom que havia atendido meu personagem e indaguei sobre o visitante. Ele disse que Scania sempre passava por lá em direção ao António Bezerra e Quintino Cunha onde dizia morar. Confidenciou que nunca o viu beber ou tratar mal ninguém. Era educado e gentil, de fala baixa, mansa, sem palavrões.
Alguns mais antigos diziam que Scania passou a dirigir seu caminhão encantado ainda criança. Tudo começou após o pai morrer em um acidente na BR-222. A perda do provedor foi traumática para a família. Não demorou e estava na miséria. Foi então que ele, na adolescência saia de casa todo dia para arrumar dinheiro. E acabou se transformando, ele mesmo, no caminhão que o pai levou junto
Enquanto conversávamos, Scania acabou sua janta e vagarosamente afastou a cadeira, despediu-se de quem estava por perto e dirigiu-se para a avenida. Sem demora , levou o pau e a trouxa de roupas aos ombros, ajeitou o retrovisor, ligou a sinaleira e saiu, dirigindo seu sonho encantado.
Nunca mais o vi nas ruas de Fortaleza.
Paulo Rogério
Jornalista
paulorogerio42@gmail.com