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“Ganhou R$ 3 milhões e ficou pobre” – Por Paulo Rogério

Paulo Rogério é jornalista.

A vida nem sempre foi muito fácil para Dilermando Veras, o Dida. Pelo menos até aquele dia. Filho mais velho de uma prole de 11 irmãos, nasceu na zona do Cariri cearense, mas foi criado mudando de cidade em cidade na região do rio São Francisco. Ele, os irmãos, as irmãs, a mãe – quase sempre prenhe de um novo bebe – e o pai, que via poucas vezes no ano. Geralmente aos fins de semana quando o velho não estava pelo mundo em uma obra.

Depois de perambular por quase 50 anos, viu-se como caminhoneiro pelas bandas do Sul da Bahia, cortando estrada entre Minas Gerais e Espírito Santo. Sempre longe da mulher e do filho, repetindo a sina do velho pai. Foi quando ouviu a notícia:

– O prêmio da Lotofácil saiu para apenas uma aposta. E é aqui de Eunápolis, alardeou o locutor da rádio.

– Ah, se for eu. Largo essa vida agora, resmungou Dida, dando um forte trago no Hollywood que estava no canto da boca. Imediatamente puxou a carteira do bolso, atrás do bilhete que toda semana jogava.

Sem demonstrar a ansiedade que todo apostador tem, foi conferindo os números um a um. Eram cinco volantes.

– Uma delas haveria de ser o premiado, repetia a frase, como fazia toda semana.

Desta vez, porém, estava certo. Era ele o ganhador. De quanto? Não sabia. Não era pouco, tinha certeza disso. O valor exato só soube, agonizantes horas depois, na agência mais próxima que achou: R$ 3 milhões e uns quebradinhos. Dida estava rico, milionário, três vezes milionário

A vida ia mudar. Hora de contar para a família. Dida pensou melhor. Sempre foi só pelo mundo afora, ralando para pagar contas, devendo a agiotas. Malandro, resolveu não contar a ninguém o valor real do prêmio recebido.

– É bastante, cara. Vou te ajudar, vamos embora daqui e voltar pra nossa cidade,

O irmão mais novo, diante da promessa do primogênito, não pensou muito. Seria assistente dele. Para outro irmão, Dida garantiu uma sociedade em algo. E ainda ajudaria as irmãs.

De pobre menino catador de osso na feira, Dida agora passeava de Amarok do ano pelas ruas da cidade. Comprou um sítio na beira do Velho Chico, com piscina, casa mobiliada e uns bichos soltos no campo. Não entendia nada de terra, mas se dizia agropecuarista.

Comprou lancha, umas casas para reformar, carros , entre eles, outra Amarok, essa para presentear uma mulher que havia emprestado o dinheiro que usou na aposta milionária.

– Tinha prometido dar um carro a ela se ganhasse. Dívida de jogo é sagrada.

Sem perceber, Dida foi cavando sua queda. Seguiu conselho de um compadre e investiu em uma churrascaria na praça principal. Colocou umas amigas para administrar, mas faliu em quatro meses. O ramo de alimentação das amigas era outro.

Pouco depois, brigou ainda com os irmãos porque não deu os empregos prometidos. E eles estavam cobrando. Dizia que nada prometera, que foram de olho no dinheiro dele.

Continuou no vício do jogo, agora nos bingos eletrônicos e nas bets de futebol. Ganhava aqui, perdia acolá e os milhões iam diminuindo. Com dinheiro fácil, caiu na boêmia. Era jogo, bebida e mulheres todo dia, variando só a quantidade.

O enredo só não foi igual a tantos outros, ou talvez pior, porque a esposa foi prevenida e guardou alguma coisa. Hoje Dida anda em um Siena 2010, vive dos aluguéis de três casinhas que sobraram das mais de 12 que comprou e mora na casa da esposa – em quartos separados – com o filho, universitário em educação física.

Continua brigado com todos os irmãos, incluindo os poucos que curtiram churrascos e festas no sítio, hoje esquecido e à venda.

Dida abandonou a noite, as amigas da noite e alguns poucos amigos de jogo. Não, não virou religioso, nem se diz arrependido. Continua na sua rotina de apostas. Porém, se encontrá-lo, não ofereça uísque, cachaça ou cerveja. Hoje, ele só bebe café. Quente e sem muito açúcar.

Já fez sua fezinha da semana?

Paulo Rogério
Jornalista
paulorogerio42@gmail.com

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

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