Com o título “História velada de um livro”, eis artigo de Luiz Carlos Diógenes de Oliveira, diretor de Cultura, Cidadania e Inclusão Social da Fundação Sintaf de Ensino e Pesquisa.
Por ser obra humana, todo livro tem uma gênese histórica. Se não persegue claro sentido, não recusa objetivos. Por vezes, escusa-os. Se a obra já estava escondida na pedra bruta, a Michelângelo caberia apenas tirar-lhe os envoltórios e excessos gordurosos.
Descobrir-lhe a curva estética de seus contornos rombudos. Tal imagem escultórica se aplica, pretensiosamente, a concepção de um livro: “À nossa Fortaleza”, lançado em 10 de abril de 2026, na Câmara de Vereadores de Fortaleza. Concebido como obra de arte, já estava feito e travejado no meio do cipoal de ideias políticas e estéticas, antes de ser feito livro.
Trezentos anos de Fortaleza merece uma escavação arqueológica, para melhor conhecê-la e, por ela, ainda lutar. De provinciana vila transformou-se em cidade, sempre margeada pelo Riacho Pajeú, que lhe deu vida e contornou suas curvas de debutante à civilização europeizada, quando ainda, sem rubor, se despia ao Sol nos colchões de areia da
Praia Formosa. Mas veio o tempo da força e cravejou o ferro no coração desta relação amorosa. Esta história velada já se revela na capa do livro, com que a Fundação Sintaf homenageia a cidade que amamos e dela não desistimos.
Um livro, além da autossuficiência do belo estético, também pode embutir valores éticos e políticos. Denúncia contumaz, por violação à vida e aos direitos de cidadania de todos os viventes, e seus ecossistemas paisagísticos. Nosso ancestral Riacho Pajeú, cidadão primeiro que abriu seu leito para dar vida a um povo, também é sujeito de direitos, bem como a Praia Formosa, paisagem viva imorredoura. Ora permitia as marolas do mar brincarem nas fímbrias de sua saia, ora se abria em foz fecundada pelos doces fluxos de um Pajeú prolífico, lascivo em suas brancas carnes arenosas. A cidadania fortalezense alcança a humanos e a mais que humanos, atinge a sobre-humanos que permitem e condicionam a vida de humanos.
A família pajeúna, fortalezense da nascente à foz, assentando-se na Praia Formosa, outra fortalezense originária, desvela a face singular de um lugar, único. Dali observa o mundo pelas outras faces que lhes chega pelas ondas do mar universal. Não fora suficiente estas razões que a capa de “À nossa Fortaleza” revela, num impulso de cidadania ecocêntrica, sobre-
humana, retornemos, então, ao mundo dos humanos, muito humanos. Na perspectiva de racionalidade antropocêntrica, fruir a formosura da praia que deu vida à cidade é um direito do cidadão humano tributário, homens que recolhem tributos. Estes sustentam os poderes públicos de todas as esferas e níveis, alocando os orçamentos que são também da cidadania, do homem orçamentário, facultado a cobrar a política pública da devida recuperação do berço histórico da sua cidade. Paga-se, assim, a dívida com esta geração e elimina uma inadimplência, sem fim, com os vindouros, humanos, respeitando um pacto de sustentabilidade intergeracional.
A perspectiva arqueológica do miolo de conteúdo do livro “À nossa Fortaleza” demanda alavancas imaginárias que alcancem seus fundamentos, extraindo dos subterrâneos trevosos, sem a luz do sol, fundamentos interpretativos. A cabeça de cada autora ou autor é um mundo singular. Quando a autoria da obra se consolida num mosaico multifacetado de expressões artísticas e de singularidades criativas, o grande desafio mítico, até, é de identificar,
desvelar a vontade da obra coletiva, seu fio condutor expresso na página nuclear: a capa. Se a relação entre raízes do livro e sua tez de rosto for honesta, a capa deve ser sua fiel tradução. Tradução sem traição, por uma língua pictórica universal.
Desta feita a capa de “À nossa Fortaleza” é a gota espremida da massa dos trabalhos que se encontram no corpo do livro, como suprassumo de seu espírito. Três símbolos, então, expressam a cidadania fortalezense, plena e cumulativa, a ser perseguida. O prédio da Sefaz, o mapa do Riacho Pajeú e a bússola combinaram um diálogo crítico e profundo entre cidadania fiscal, cidadania ecológica e sustentabilidade intergeracional de cidadania substancial. Juntam-se na reflexão de uma mundividência paradigmática de fundamentos socioambientais civilizatórios sustentáveis.
O relógio da capa não pretende ser relógio de tempo cronológico, enferrujado nas engrenagens do saudosismo fatalista. Nem relógio é! Mas, sim, bússola, a orientar um recomeço civilizatório de um tempo perdido. Voltar a encruzilhada da civilização ou barbárie e seguir o caminho alternativo guiado pela estrela polar da cidadania planetária.
O prédio da Sefaz, obra do povo cearense, ali está, imponente, quase único, fincado no berço histórico de Fortaleza, enredado no passado e implicado no futuro da cidadania fiscal, para o desenvolvimento da consciência ética e política do cidadão fortalezense. Este equipamento público não é só um edifício, histórico, de pedra e cal. Também simboliza a
espada do reino tributário apontada para os deveres de cidadania, pelo lado do sol, ostensivo e inabdicável, e pelo lado da sombra, significa a colher provedora e dadivosa do orçamento público a distribuir os direitos ao pão da cidadania plena, concretizada.
O Riacho, com sua foz na Praia Formosa, redivivos em farrapos, forma um ecossistema torturado em seu direito de sujeito cidadão ecológico. Aquele espaço real e sugerido na capa do livro ainda é passível de recuperação e devolução à dignidade da cidadania fortalezense. No bojo de saneamento e urbanização da área, a Comunidade Poço da Draga, guardiã dos brotos insepultos da foz do Riacho Pajeú e da Praia Formosa, finalmente pode experimentar os direitos de cidadania tão prometidos e esperados. Eis a história, agora, desvelada de um livro dedicado à nossa Fortaleza.
*Luiz Carlos Diógenes de Oliveira
Diretor de Cultura, Cidadania e Inclusão Social da Fundação Sintaf de Ensino e Pesquisa.