“HUBINE: Por que o Futuro não Aconteceu?” – Por Marcos C. Holanda

Marcos Holanda já presidiu o BNB e é PhD em Economia. Foto: Reprodução

Com o título “HUBINE: Por que o Futuro não Aconteceu?”, eis artigo de Marcos C. Holanda, ex-presidente BNB e criador do HUBINE. “O Nordeste não precisa de mais um discurso sobre seu potencial. Precisa de instituições dispostas a transformar potencial em realidade. Que os próximos dez anos sejam diferentes. Que o HUBINE finalmente se transforme naquilo que deveria ter sido desde o início: um dos principais instrumentos de construção de um Nordeste inovador, competitivo e próspero”, expõe o articulista.

Confira:

Há dez anos, propus uma ideia simples e ousada: uma rede de espaços físicos capaz de colocar o Nordeste no mapa mundial da inovação. Parti de uma convicção que o tempo só reforçou: inovação, na prática, só acontece quando se juntam três coisas: escala, dinheiro e gente. Gente, o Nordeste sempre teve, e de sobra. Faltavam escala e dinheiro. Era esse o papel do HUBINE: oferecer a primeira e alavancar o segundo. Por que a proposta original, ambiciosa e ao mesmo tempo realista, não se concretizou? Por que não temos hoje uma rede de HUBINEs espalhada pela região, capaz de levar o ecossistema nordestino de inovação a outro patamar? Por que não existe sequer um único HUBINE com a dimensão necessária para inserir o Nordeste no circuito internacional dos grandes hubs de inovação?

A falta de recursos não parece ser uma explicação convincente. Quando lancei a proposta apresentei algumas alternativas de financiamento. Entre elas, sugeri um caminho que me parecia de bom senso: vender ativos de utilidade duvidosa. Havia um apartamento milionário na Beira Mar de Fortaleza, à disposição do Presidente, e um avião de uso exclusivo. Vendi o apartamento. O avião, por falta de tempo, não cheguei a vender. A lógica era simples e poderosa: o banco abriria mão de um ativo usado por uma única pessoa para ter outro, usado por milhares de jovens. Transformar patrimônio ocioso em investimento no futuro.

O Banco do Nordeste movimenta dezenas de bilhões de reais em operações de crédito tradicional. Por que não poderia exercer papel igualmente relevante na construção de uma indústria regional de capital de risco? Por que não estruturar em escala suficiente instrumentos capazes de financiar startups, empresas de base tecnológica e empreendedores com projetos de elevado potencial de crescimento? Financiar o futuro é indispensável.

Há, também, uma questão simbólica, mas não menos importante: por que a estrutura física do HUBINE em Fortaleza continua tão distante da dimensão que se imaginava para o projeto?

Quem conhece os grandes centros mundiais de inovação sabe que o ambiente físico não é um detalhe arquitetônico. É parte da estratégia. Espaços de convivência, laboratórios, áreas de experimentação, conexões com empresas e investidores e infraestrutura para empreendedores transmitem uma mensagem inequívoca: existe ambição, existe escala e existe compromisso com o futuro.

Por que continuamos modestos quando falamos de inovação, tecnologia e empreendedorismo, mas somos tão generosos em ambição e recursos quando se trata de grandes projetos de infraestrutura tradicional? Por que não demonstramos a mesma determinação para construir uma infraestrutura de conhecimento, capital e empreendedorismo?

O mundo mudou radicalmente nesses dez anos. Inteligência artificial, biotecnologia, automação e novas tecnologias estão redesenhando a economia. A capacidade de criar empresas inovadoras será cada vez mais determinante para a prosperidade das regiões. O Nordeste não pode continuar tentando competir apenas com os instrumentos de desenvolvimento do século passado.

O HUBINE precisa recuperar sua vocação: ser uma plataforma regional de inovação, um articulador de capital de risco e um ponto de encontro entre talento, conhecimento, empreendedorismo e investimento.

O BNB tem escala financeira, presença regional e legitimidade institucional para liderar esse movimento. O que falta é ambição estratégica e disposição para assumir riscos compatíveis com a transformação que se pretende produzir.

O Nordeste não precisa de mais um discurso sobre seu potencial. Precisa de instituições dispostas a transformar potencial em realidade.

Que os próximos dez anos sejam diferentes. Que o HUBINE finalmente se transforme naquilo que deveria ter sido desde o início: um dos principais instrumentos de construção de um Nordeste inovador, competitivo e próspero.

Talento nós temos. Capital pode ser mobilizado. O que não podemos continuar desperdiçando é tempo.

*Marcos C. Holanda

Ex-presidente do Banco do Nordeste e criador do HUBINE.

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