Categorias: Artigo

“Inclusão Exclusiva: Quando a Lei Abre a Porta, Mas a Sociedade Ainda Prescreve o Roteiro” – Por Maria Thais Arruda

Maria Thais Arruda é profissional de Educação Fisica e psicóloga.

Com o título “Inclusão Exclusiva: Quando a Lei Abre a Porta, Mas a Sociedade Ainda Prescreve o Roteiro”, eis artigo de Maria Thais Arruda Cavalcante Campos de Andrade, psicanalista, psicóloga e profissional de Educação Física. Ela discorre sobre artigo publicado neste Blog e que tem como autor o sociólogo Pedro Albuquerque.

Confira:

Li, com alegria e óbvia admiração, o texto de Pedro Albuquerque – “O aprendizado do olhar: o que a posse da primeira promotora trans nos ensina”, publicado no Blogdoeliomar. Ele toca num ponto sensível e necessário: o avanço civil de ver pessoas que foram historicamente expulsas do espaço público finalmente ocupando lugares de decisão.

A posse da primeira promotora de justiça trans do Brasil, no Amazonas, é de fato um marco. É cheia de esperança uma conquista de tamanho porte em instituição dessa dimensão social. Isso abre caminho e mostra que é possível. E eu partilho da alegria que ele descreve, porque toda vez que uma barreira cai, a possibilidade do laço social se amplia.

Pedro recorda-se de uma cena que testemunhou em Ottawa, nos anos 70, que era especificamente a resistência da população gay frente às políticas de “higiene moral”.

Hoje usamos o termo LGBTQIA+ porque entendemos que a luta por ocupar a rua e a vida pública é de lésbicas, gays, bissexuais, trans, travestis e todas as outras letras. A essência é a mesma: o direito de existir em público, com segurança e respeito.

Quando ele descreve a cena em que “a população LGBTQIA+, durante tanto tempo confinada à esfera privada, ocupava, agora, as ruas, os bares, as pistas de dança e a própria vida pública. O que parecia apenas festa era, na verdade, um gesto de liberdade”, eu lembrei que ocupar um lugar em um órgão público, por mais que seja uma grande conquista institucional, infelizmente ainda não tem garantido uma mudança
social expressiva.

Há muito a ser feito porque atrás das notícias e das comemorações tem um sujeito. Um sujeito que ainda irá travar inúmeras batalhas. Batalhas que ultrapassam as portas do gabinete. Para que esses mesmos sujeitos possam, de fato, ocupar as ruas, os bares, as pistas, com segurança e respeito genuíno.

Assusta ver que os índices de violência contra essas pessoas são crescentes.

Enquanto um sujeito não estiver seguro o suficiente para ser e estar onde quiser, fazer o que quiser, amar quem quiser, nossa alegria será sempre uma alegria tensa. Uma alegria que se mistura com urgência.

Este texto é também um convite para que estes que com bravura conquistam seus sonhos, não estejam sozinhos. Que além da lei e da posse, exista rede. Exista colo. Exista gente disposta a sustentar o laço social no dia a dia.

E que nós possamos, além de testemunhar, “esperançar”. “Esperançar” é verbo que mantém ardendo a chama do interesse pela vida. E eu “esperanço” com ele. Mas precisamos de mais do que esperar, de mais do que acreditar. Precisamos daquele sentimento de aconchego. Aquele de estar com amigos verdadeiros que nos amam pela nossa existência e mais nada.

Estava dias atrás em um Seminário de Psicanálise e me lembrei das questões essenciais sobre as quais nós, jovens alunos da Faculdade de Educação da UFC no início dos anos 2000, nos debruçávamos. Uma delas é muito forte, e por isso mesmo, incomoda: ainda que muito se fale, as mudanças efetivas não acompanham.

A esperança acaba levando golpes por percebermos até mesmo traços de desintegração do laço social.

Na faculdade de Educação Física, tive uma disciplina na qual quis me aprofundar e que me segue para além dos muros da universidade: a Abordagem Corporal. Parecia algo etéreo, fluido, pronto para ser incorporado e transmitido de um ao outro. Que sutileza!

Não eram fórmulas, técnicas, textos a serem decorados. Era pura atitude de reverência ao corpo do outro. Aquele outro na sua forma holística. Holístico… Também outro termo tão repetido entre nós. Ele que ainda está em voga, mas como tantos outros parece estar esvaziado de sua essência.

E aqui me lembro de Byung-Chul Han, em A expulsão do outro, quando ele diz: “Ser-si-mesmo [Selbst-Sein] não significa, simplesmente, ser livre. O si é também um peso e um fardo. Ser-si-mesmo é estar-enfardado-consigo-mesmo”. Talvez seja disso que a gente fuja quando tenta colonizar o outro. Da dificuldade de carregar o próprio fardo, a gente transfere para o outro um roteiro para que ele fique “leve e previsível para nós”.

No livro, Chul Han alerta que vivemos numa sociedade que expulsa o diferente, o negativo, o que nos causa estranhamento. A gente quer apagar o outro ou transformá-lo numa cópia de si, porque a presença do outro radical nos lembra da nossa própria impossibilidade de controle.

É mais fácil criar uma “inclusão” que pede uniformidade do que sustentar um laço com o que é irredutível. Por isso, a urgência de resgatar essa atitude de reverência: não é sobre tolerar o outro, é sobre suportar que ele exista fora da minha medida, com seu peso, seu fardo, sua liberdade que não me pertence.

Sutileza, ao contrário da perversa colonização do outro. Apreciar a existência do outro, diferente da nossa, é uma forma tão pura de amar. E, como nos diz Guimarães Rosa: “Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura”. Vivemos hoje sob um imperativo social muito forte: o do “respeito”; como norma. Muitas vezes, esse respeito se tornou menos um espaço de reflexão e mais uma resposta automática, esperada. A gente concorda, aplaude. E quem não performa, é rapidamente excluído do campo do dizível.

O paradoxo é esse: em nome da diversidade, criamos mecanismos que acabam homogeneizando. É o que chamo de “inclusão exclusiva”. A lei abre a porta, a instituição celebra, mas ainda se cobra do sujeito que ele se encaixe num roteiro.

Quem está na minoria, muitas vezes, não se sente verdadeiramente respeitado nessa lógica, porque o respeito vira tutela. A representatividade parece se tornar mais um nicho para comércio de questões vitais. Não vou me alongar nesta questão, pois por si só já daria outra conversa.

Trazendo agora o olhar psicanalítico, olhar sensível onde pude apurar meus sentidos sobre o mundo, o problema é quando a gente reduz o sujeito ao seu marcador social. Apaga a singularidade, o desejo, a história. Tudo aquilo que faz de cada um “um”.

Respeito de verdade é a capacidade de suportar que o outro tenha um desejo que não é o meu, uma fala que me desestabiliza. É aí que a democracia respira: não quando todos são iguais, mas quando, mesmo diferentes, conseguimos construir um mundo comum sem apagar ninguém.

O texto do Pedro celebra uma conquista justa. E ao mesmo tempo me faz pensar: Que tipo de sociedade estamos construindo? Uma que aprende a ver a singularidade, como diz Rubem Alves? Ou uma que só aprendeu a repetir a resposta correta?

Talvez a resposta esteja nessa reverência. Na Abordagem Corporal que aprendi na faculdade. Não em colonizar o outro com nossas normas, mas em fazer espaço para que ele exista inteiro.

Esperançar é preciso. Mas “esperançar” também é fazer, sustentar o colo, o aconchego, a escuta, é garantir que a lei que abre a porta seja seguida por uma sociedade que não deixa esse sujeito sozinho na batalha. Só assim a alegria deixa de ser tensa e vira, de fato, liberdade.

*Maria Thais Arruda Cavalcante Campos de Andrade

Psicanalista, psicóloga (CRP 11/22391) e profissional de Educação Física (CREF-5
002525).

E-mail: thaiscavalcantecampos@gmail.com

Eliomar de Lima: Sou jornalista (UFC) e radialista nascido em Fortaleza. Trabalhei por 38 anos no jornal O POVO, também na TV Cidade, TV Ceará e TV COM (Hoje TV Diário), além de ter atuado como repórter no O Estado e Tribuna do Ceará. Tenho especialização em Marketing pela UFC e várias comendas como Boticário Ferreira e Antonio Drumond, da Câmara Municipal de Fortaleza; Amigo dos Bombeiros do Ceará; e Amigo da Defensoria Pública do Ceará. Integrei equipe de reportagem premiada Esso pelo caso do Furto ao Banco Central de Fortaleza. Também assinei a Coluna do Aeroporto e a Coluna Vertical do O POVO. Fui ainda repórter da Rádio O POVO/CBN. Atualmente, sou blogueiro (blogdoeliomar.com) e falo diariamente para nove emissoras do Interior do Estado.

Ver comentários (1)

  • “Quslqer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura”

Esse website utiliza cookies.

Leia mais