“Lado a lado” – Por Tuty Osório

Ainda que não mais seja
Tuty Osório é jornalista, publicitária e escritora

“Somos a maioria de eleitoras e a minoria nos mandatos, cargos, poderes. Ainda se elogiam os homens pela beleza da esposa”, aponta a jornalista e publicitária Tuty Osório

Confira:

Gotardo e Afonso conheceram-se no Mercado dos Peixes do Mucuripe, em Fortaleza. Afonso perdeu-se por lá olhando o movimento. Gotardo carregava uma grande cesta. Fazia compras para o almoço de domingo. Já tinha separado um pargo grande de assar no forno e andava atrás de mariscos para uma entrada. Esbarraram um no outro na virada de um boxe de ponta. Desculpas pedidas e aceitas, foram tomar uma cerveja para selar a amizade.

Mais tarde foi a minha vez de conhecer Gotardo. Num pôr do sol da mesma Beira Mar, desta vez no Luís do Côco, viajamos os três nos assuntos do momento. Gotardo insistia que não há diferenças entre homens e mulheres. São os mesmos desejos, as mesmas necessidades. É tudo cultural, afirmava. Afonso discordava, argumentando que há desigualdade socialmente, o que não significa que homens sejam superiores. Mas também não são iguais, sublinhava Afonso.

Confesso que fiquei meio entediada com a polêmica. Entendo as intenções de cada um. Querem ser desconstruídos e defender as mulheres. É fofo e necessário. Só que é óbvio que há diferenças de essência. É óbvio também que as mulheres avançaram, mas ainda estão distantes do que é justo. Principalmente as que são sobrecarregadas por múltiplas tarefas que jamais são cobradas deles. E as que sofrem violência pela sua condição feminina, muitas sem consciência da real.

Somos a maioria de eleitoras e a minoria nos mandatos, cargos, poderes. Ainda se elogiam os homens pela beleza da esposa. Está bem servido de mulher, foi o comentário que ouvi outro dia de um jornalista, estarrecida. Não falo tanto por mim. Ocupo os espaços e meio que desconheço a discriminação. Contudo, ela persiste e acontece. Tomo posição recorrente, diante de homens e de mulheres. Elas, não raras vezes, também machistas.

Ainda temos que varar muito chão para equilibrar a condição feminina como deve ser. Gotardo nota o meu silêncio e questiona se não estou interessada na conversa. Afonso que me conhece muito, antecipa-se e explica que é meu jeito, dispersa e atenta. Não quero ser deselegante com o novo amigo

e comento que o assunto é importante. Faz a gente refletir, por isso fiquei calada, justifico, querendo que se sinta confortável em sua verve gentilmente feminista.

Penso com força que muitas vezes o silêncio é a melhor fala.

Tuty Osório
Jornalista, publicitária, especialista em pesquisa qualitativa e escritora. Lançou em 2022, QUANDO FEVEREIRO CHEGOU (contos); em 2023, MEMÓRIAS SENTIMENTAIS DE MARIA AGUDA (10 crônicas, um conto e um ponto) e SÔNIA VALÉRIA A CABULOSA (quadrinhos com desenhos de Manu Coelho); todos em ebook, disponíveis, em breve, na PLATAFORMA FORA DE SÉRIE PERCURSOS CULTURAIS. Em dezembro de 2024 lançou AS CRÔNICAS DA TUTY em edição impressa, com publicadas, inéditas, textos críticos e haicais

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