“Literatura nas infâncias: um direito que transforma vidas” – Por Mirelle Costa

Até hoje, consigo lembrar o cheiro da biblioteca Horácio Dídimo, no colégio Farias Brito. As almofadas coloridas, as estantes de madeira, os sorrisos das bibliotecárias. Lembro também do título do primeiro livro que li: A máquina de pensar bonito contra o medo que o medo faz. A capa tinha o fundo branco, dentro de um retângulo um céu estrelado, um arco-íris e grama. Algumas lembranças resistem ao tempo porque não são feitas apenas de imagens. São feitas de sensações, descobertas e afetos que continuam vivos dentro da gente.

Foi ainda criança que comecei a escrever. Fazia poesias e redações que chegaram a ser publicadas no jornal O POVO (guardo até hoje os recortes, sim, sou saudosista). Meus versos também encontravam espaço nas coletâneas do Colégio Farias Brito (que foram criadas na década de noventa e existem até hoje). Naquela época, eu não sabia exatamente onde as palavras me levariam. Sabia apenas que gostava de brincar com elas, inspirada pela minha irmã, que escrevia poesias em um caderno azul onde ela colou uma rosa desenhada por ela mesmo.

Hoje, como jornalista e escritora, reconheço o quanto essas experiências foram importantes para a minha trajetória. E talvez seja justamente por isso que falar de literatura na infância, na semana da criança, seja também revisitar a menina que fui e pensar nas tantas crianças que ainda precisam descobrir o que um livro pode fazer por elas.

Essa descoberta, porém, não deveria depender da sorte, da condição financeira da família ou da existência de uma biblioteca acolhedora perto de casa. A literatura precisa ser uma possibilidade real para todas as infâncias.

É esse o ponto de partida da reflexão de Cláudia Cunha Melo Barros, doutoranda em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Ao defender a literatura como um direito, ela nos convida a olhar para além do livro que chega às mãos da criança: é preciso considerar as condições que permitem a essa criança viver uma experiência literária plena.

Blog do Eliomar
Cláudia Melo, doutoranda em Literatura e Crítica Literária pela PUC SP e idealizadora do Coletivo Lamparinas – Literatura para as infâncias

Cláudia destaca que a literatura fortalece vínculos, desenvolve a oralidade, estimula a imaginação e a criatividade e contribui para a construção do hábito da leitura. Entretanto, chama atenção para uma realidade que não podemos ignorar: as infâncias são atravessadas por desigualdades. “Enquanto algumas crianças crescem cercadas de livros, outras ainda encontram dificuldades para acessar até mesmo uma obra impressa”, explica Claudia Melo.

A reflexão me leva de volta àquela biblioteca da minha memória. O que teria sido da menina que eu fui sem aquelas estantes, sem as histórias e sem as oportunidades de escrever e publicar os primeiros textos? O acesso à leitura e à escrita abriu caminhos que continuam fazendo parte de quem sou.

É justamente por reconhecer essa potência que precisamos tratar o acesso à literatura como uma questão coletiva. Famílias, escolas, bibliotecas públicas e comunitárias têm responsabilidades importantes, assim como o poder público, por meio de políticas de acesso ao livro, à leitura e à formação de leitores.

Cláudia também faz uma distinção fundamental: não basta disponibilizar livros. É preciso garantir a qualidade literária das obras oferecidas às crianças. “A relação entre texto e imagem, a força da linguagem e a capacidade de despertar perguntas e interpretações importam. A literatura não precisa ensinar uma lição de moral a cada página. Sua riqueza está, muitas vezes, em permitir que a criança sinta, imagine, questione e construa seus próprios sentidos”, aponta a doutoranda idealizadora do Coletivo Lamparinas – Literatura para as infâncias.

E como esse direito se transforma em experiência cotidiana?

A escritora Liduína Vidal nos oferece uma imagem simples e bonita para pensar sobre isso. Dias atrás, enquanto tomava um capuccino em uma cafeteria, ela observou uma família compartilhando o mesmo espaço. Os adultos conversavam; uma menina lia. A cena despertou nela tanta alegria que teve vontade de se aproximar, parabenizar os responsáveis e até registrar o momento. Acabou não fazendo nada disso, mas saiu dali com suas convicções ainda mais fortalecidas.

O episódio parece pequeno, mas ilumina uma questão essencial: a formação de leitores também acontece quando a leitura encontra lugar na vida cotidiana, sem ser tratada apenas como obrigação escolar.

Liduína Vidal defende que a literatura para as infâncias é indispensável à construção de uma sociedade capaz de refletir, buscar justiça e conquistar autonomia. Para ela, subestimar os livros infantis como publicações destinadas apenas a entreter ou apresentar imagens é desconhecer a potência dessa produção literária.

A escritora reconhece os movimentos que vêm fortalecendo o setor, do investimento do mercado editorial às iniciativas de autores independentes, coletivos, movimentos literários e bibliotecas comunitárias. “Há um “barulho bom” em torno da leitura e da formação do leitor literário, mas o caminho ainda apresenta desafios: é necessário ampliar a formação de leitores dentro e fora das escolas, incentivar a leitura por prazer e fruição e fazer com que os livros participem efetivamente da rotina das famílias”, alerta Liduína Vidal, autora de “Os Guardiões da Sabedoria”.

A cena da cafeteria, portanto, encontra a reflexão de Cláudia. Uma fala sobre o direito que precisa ser garantido; a outra, sobre os gestos cotidianos que ajudam esse direito a se tornar realidade. De um lado, políticas públicas e acesso democrático aos livros. De outro, a família que convive com a leitura, o adulto que lê para uma criança e a menina que escolhe um livro enquanto os pais conversam.

Não se trata de transferir às famílias toda a responsabilidade pela formação leitora, porque as oportunidades são desiguais e o poder público precisa fazer a sua parte, mas de compreender que o direito à literatura ganha força quando políticas, escolas, bibliotecas e experiências de afeto caminham juntas.

Em tempos de excesso de telas, essa conversa se torna ainda mais necessária. O livro físico oferece uma experiência sensorial: pode ser tocado, folheado, cheirado. Mas, acima de tudo, oferece a possibilidade de uma pausa, de um encontro com a linguagem e de uma imaginação que não precisa receber tudo pronto.

É nesse sentido que as duas vozes se encontram também no pensamento do crítico literário Antonio Candido, trazido por Cláudia Melo para essa reflexão. Ele que é referência para quem compreende a literatura como um direito humano. Sua defesa da literatura como dimensão fundamental da humanização nos ajuda a perceber que ler não é um luxo reservado a algumas pessoas, tampouco uma atividade menor na formação das crianças. É uma experiência que amplia nossa capacidade de imaginar, sentir e compreender o outro.

Que infância estamos ajudando a construir?

Nesta semana, a pergunta não deve ser apenas quantos livros infantis foram publicados ou quantas atividades de leitura estão previstas nas escolas. Precisamos perguntar quem tem acesso a essas obras, quais experiências literárias estamos oferecendo e que lugar a leitura ocupa na vida das nossas crianças.

Cláudia Melo nos lembra que a literatura é um direito a ser garantido, Liduina Vidal nos mostra a beleza de vê-la presente na vida cotidiana e minhas próprias lembranças me dizem que, quando uma criança encontra espaço para ler, imaginar e escrever, algo pode começar ali — mesmo que ela só compreenda muitos anos depois a dimensão daquele encontro.

Que nenhuma criança seja privada dessa possibilidade. Que os livros cheguem a todas as infâncias, respeitando suas diferenças, ampliando seus repertórios e abrindo caminhos para outras formas de existir.

E você, lembra qual foi o primeiro livro que leu ou a história que marcou sua infância? Talvez seja hora de compartilhar essa memória com uma criança.

Blog do Eliomar
Eu, Mirelle Costa, e Liduína Vidal

Pequenos autores, grandes aventuras

E, para mostrar que a literatura nas infâncias também é feita de imaginação, coragem e boas histórias, vale destacar o lançamento de As aventuras dos Duas Caras Robôs, escrito e ilustrado pelos irmãos Gustavo e Danilo. Inspirados pelo tio, o escritor Rafael Caneca, criador do projeto Pacote de Textos e autor do livro Não volte sem ele, os meninos colocaram a criatividade no papel e deram vida a uma história em quadrinhos (HQ) repleta de aventuras, super-heróis, vilões e reviravoltas. O lançamento aconteceu na Livraria Leitura do Shopping RioMar Fortaleza e celebra não apenas a chegada de uma nova obra, mas também o poder inspirador da literatura entre gerações. Afinal, quando uma criança encontra espaço para ler, imaginar e criar, ela também pode descobrir que tem histórias próprias para contar.

Parabéns, amiguinhos!

Blog do Eliomar
Gustavo e Danilo, autores da obra “As aventuras do duas caras robôs”
COMPARTILHE:
Facebook
Twitter
WhatsApp
Telegram
Email

Uma resposta

  1. Que lindeza de texto. Tão importante e necessário qt a leitura literária na vida de nós, seres humanos. A humanidade se tornará mais justa qt TODOS tiverem acesso às leituras. Obrigada Mirelle por vc ser essa voz na nossa literatura✍️🌷

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Mais Notícias