“Lula na ONU e a Manipulação do Jornal Nacional” – Por Pedro de Albuquerque Neto

Pedro de Albuquerque Neto é sociólogo e advogado.

Com o  título “Lula na ONU e a Manipulação do Jornal Nacional”, eis artigo de Pedro de AlbuquerqueNeto, sociólogo e advogado, direto de Otawa (Canadá) para o Blogdoeliomar.

Conifra:

Li o artigo de Ângela Carrato, “Lula na ONU e a manipulação do Jornal Nacional”, que chegou até mim por WhatsApp. Não consegui identificar, até o momento, onde foi originalmente publicado. Mas o texto me provocou uma reflexão que vai além daquela edição específica do Jornal Nacional.

E talvez seja importante começar por uma ressalva.

Se não estivéssemos em plena campanha eleitoral, eu provavelmente trataria a questão de maneira mais ampla: a relação da grande mídia brasileira com Lula, seu governo e sua presença no cenário internacional.

Mas estamos em campanha eleitoral.

E isso muda a natureza da discussão.

Porque há algo que me parece cada vez mais difícil de ignorar: a maneira como parte da nossa mídia trata Lula e Flávio Bolsonaro como se estivéssemos simplesmente diante de dois candidatos concorrendo à Presidência da República, cujas diferenças pudessem ser reduzidas às alternativas normais de uma disputa eleitoral.

Não são.

E o discurso de Lula na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas oferece uma boa oportunidade para perceber isso. Pode-se concordar ou discordar de Lula. Pode-se criticar seu governo, suas escolhas e suas posições. Isso é absolutamente legítimo e faz parte da democracia.

Mas é difícil imaginar Flávio Bolsonaro pronunciando, diante da Assembleia Geral da ONU, um discurso como aquele de Lula: falando de soberania nacional, multilateralismo, reforma da governança internacional, democracia, guerras, ingerência externa e do direito de o Brasil decidir seu próprio destino.

Flávio não faria aquele discurso. Não se trata de uma questão de gosto pessoal. Trata-se de diferenças políticas concretas.
Lula foi à ONU e afirmou que o Brasil não é quintal de ninguém. Criticou a interferência externa nos processos políticos brasileiros e defendeu uma ordem internacional fundada no multilateralismo e na soberania dos Estados.

Ao mesmo tempo, o debate eleitoral brasileiro convive com uma situação em que um dos principais candidatos mantém uma relação política explícita com Donald Trump e com o ambiente político norte-americano que vem pressionando o Brasil.

É aqui que a cobertura jornalística passa a ter importância.

Porque, ao colocar Lula e Flávio simplesmente na mesma moldura de “candidatos”, a imprensa pode produzir uma espécie de falsa equivalência. E existe uma ironia que não consigo deixar de perceber.

Enquanto Lula vai à ONU dizer que o Brasil não é quintal de ninguém, há quem se apresente como candidato a porteiro do quintal que Trump parece querer transformar a América Latina.

Talvez seja aqui que caiba uma velha expressão de Leonel Brizola: “Costeando o alambrado.” Só que, desta vez, o alambrado parece ser o do próprio Trump.

E há uma questão ainda maior.

Tenho a impressão de que parte da nossa grande mídia continua olhando para os Estados Unidos como se estivéssemos diante de uma espécie de potência tutelar da América Latina — e para qualquer governo latino-americano que reivindique soberania com uma desconfiança que raramente demonstra diante do poder norte-americano.

É curioso.

Trump pode falar, ameaçar, pressionar, interferir e tratar a América Latina como área de influência. A notícia está lá. Mas quando um presidente brasileiro responde que o Brasil não aceita ser quintal de ninguém, parece haver sempre uma necessidade de procurar o outro lado da história: o excesso de Lula, a provocação de Lula, a estratégia eleitoral de Lula, a conveniência política de Lula.

É nesse ponto que volto ao Jornal Nacional.

A questão levantada por Ângela Carrato não é apenas sobre aquilo que foi noticiado. É sobre a hierarquia das notícias, a ordem em que os acontecimentos são apresentados, o espaço concedido a cada fato e o enquadramento utilizado para interpretá-los.

Isso é jornalismo.

E justamente por isso pode também ser política. Há uma observação que tenho ouvido de diferentes pessoas e que me parece merecer atenção: não é correto dizer simplesmente que toda a grande imprensa brasileira esteja fazendo campanha aberta por Flávio Bolsonaro.
Aliás, isso seria fácil de desmentir.

O próprio Estadão, por exemplo, publicou recentemente um editorial intitulado “Programa bom, candidato ruim”, fazendo uma avaliação bastante crítica da candidatura de Flávio. E outros veículos da grande imprensa também têm publicado críticas duras ao candidato.

Mas isso não resolve a questão.

Eu diria até que esses editoriais podem ser a homenagem que o vício presta à virtude. Porque uma coisa é o editorial de domingo, ou a manchete extraordinária que, em determinado momento, desfere uma crítica contundente contra determinado candidato.

Outra, muito diferente, é a cobertura cotidiana.

É ali que o viés pode ser muito mais sutil e, justamente por isso, mais poderoso.
Está nas notícias corriqueiras.
Nas chamadas.
Nas manchetes.
Na escolha das palavras.
No destaque dado a um acontecimento.
Naquilo que aparece na primeira página e naquilo que é relegado ao interior do jornal.
E, sobretudo, na relação entre a manchete e o conteúdo da matéria.

Às vezes, a manchete já entrega ao leitor uma interpretação negativa de Lula, enquanto o próprio texto da reportagem, lido com mais atenção, apresenta uma realidade muito mais complexa — e, em alguns casos, bastante diferente da impressão produzida pela chamada.

E aí está um detalhe importante.

A maioria dos leitores não lê o jornal como um pesquisador.

O leitor médio vê a manchete.
Vê a fotografia.
Lê o título.
Talvez leia o primeiro parágrafo.
A primeira impressão já foi produzida.

É assim que se constrói, no cotidiano, uma percepção política. Por isso, não me convence o argumento de que basta procurar um editorial crítico a Flávio para demonstrar que a grande imprensa é equidistante.

Não é disso que estou falando.

Estou falando da construção cotidiana da percepção pública. E aqui aparece outra característica que me parece recorrente na nossa mídia: a
procura permanente por uma terceira via. Não necessariamente uma terceira via partidária.

Uma terceira via como alternativa política aceitável aos olhos do mercado, dos setores dominantes e dos próprios grandes veículos de comunicação. O problema é que Lula já ocupa, em certa medida, esse lugar que a mídia procura deslocar.Ele é, hoje, o candidato que reúne uma experiência política, eleitoral e internacional que não pode simplesmente ser apagada pela fabricação de uma equivalência artificial
com qualquer outro concorrente.

E talvez por isso exista tanta insistência na procura de uma alternativa “mais
aceitável”.

Um candidato que seja suficientemente competitivo para enfrentar Lula, mas suficientemente confiável para determinados interesses econômicos e políticos. Nem que seja apenas candidato a porteiro do quintal.

Voltemos, então, à ONU.

O discurso de Lula poderia ser criticado. Poderia ser confrontado. Poderia ser analisado sob todos os ângulos. Mas deveria ser tratado como aquilo que foi: um acontecimento político e internacional de primeira grandeza. E, se a imprensa pretende exercer seu papel numa democracia, sua obrigação não é diminuir Lula nem o favorecer.

É mostrar ao eleitor o que está realmente em jogo. Inclusive as diferenças entre os candidatos. Porque democracia não é apenas oferecer tempo de televisão e espaço nos jornais para que candidatos façam suas declarações.

É permitir que o cidadão compreenda o significado daquilo que está sendo dito. E talvez seja justamente isso que esteja faltando.
Não apenas na cobertura da ONU. Mas na cobertura cotidiana da campanha eleitoral brasileira.

Não é apenas sobre Lula. É sobre o jornalismo.

E, no fim das contas, é sobre o direito do eleitor de conhecer as diferenças — reais, profundas e concretas — entre os projetos que estão diante dele.

Porque, em uma eleição, esconder diferenças pode ser tão significativo quanto
escondê-las.

*Pedro de Albuquerque Neto

Sociólogo e advogado (OAC/CE 16224).

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