“Manifesto Palantir e a Pergunta que o Brasil Não Fez” – Por Mauro Oliveira

Mauro Oliveira fará palesra de abertura da Caravana LF, em São Paulo.

Com om título “Manifesto Palantir e a Pergunta que o Brasil Não Fez”, eis artigo de Mauro Oliveira, professor do IFCE, PhD em Informática por Sorbonne University e ex-secretário nacional de Telecomunicações do Ministério das Comunicações. “Enquanto a IA desce a ladeira abaixo feito carroça sem freio na Ladeira da Preguiça no Pelourinho (confere, Prof Raimundo Macedo? rsrsr), o Brasil segue dando “milho aos pombos”, oferecendo às big techs dados, mercado, território, energia limpa e farta, além de contratos públicos sem exigir nada, ou pouco, em troca … Bota “entusiasmo” nisso. Nenhuma transferência de tecnologia. Nenhuma contrapartida estratégica. Nenhuma exigência de uma “política nacional de IA com dentes fortes”.

(Ao Tarcísio Pequeno, amigo que inspira)

Confira:

Há algumas semanas, publiquei no Blogdoeliomar o artigo “Datacenters, IA e a Pergunta que Ninguém Faz”. Nele, procurei chamar atenção para um imaginário coletivo que nos acompanha alguns de nós desde os tempos da colonização: uma tendência persistente de celebrar novidades vindas de fora antes mesmo de compreender suas ameaças e oportunidades (o tapete vermelho ao estrangeiro é um pouco maior que o estendido ao local, né não? rsrsr).

É um pouco do que Nelson Rodrigues chamava de “complexo de vira-lata”. Ou, numa versão mais contemporânea, aquilo que chamo no livro SABIA – Soberania Autonomia Brasileira IA (disponível em maurooliveira.blog) de “entusiasmo do colonizado”: esse festejo com bomba” Rasga Lata” (da minha infância nas festas juninas) que costumamos dedicar às novidades “made in lá fora”, sem antes perguntar quem ficará com o valor produzido, quem controlará a tecnologia ou quais interesses estratégicos estão verdadeiramente em jogo.

Foi aí que levei um choque, tipo um colonizado em vias de se libertar (rsrsr). A leitura do recente manifesto da big tech Palantir produziu o que chamarei, com toda a elegância que o tema não merece, de “desconforto intelectual”. Outros, sem essa cerimônia toda de cabra encabrunhado como eu, estão chamando pelo nome “mermo”: tecnofascismo. E o mais constrangedor no lobo frontal do córtex cerebral (essa e tive que consultar o tio GPT) não é o conteúdo, é a franqueza … e vice-versa (rsrsr). Sem eufemismos, sem papel de seda, sem o verniz filantrópico que as big techs costumam passar por cima de seus projetos de poder. Uma cara de pau histórica de dar inveja ao “Zé Tarifaço”.

O texto, publicado em abril de 2026 e assinado pelo CEO Alex Karp, coautor de The Technological Republic, dispensa rodeios. Em três cacetadas ideológicas:

– Dissuasão por IA: substituição da dissuasão nuclear por armas autônomas de inteligência artificial.
– Lealdade ao Estado: obrigação moral do Vale do Silício de servir à defesa nacional americana.
– Nacionalismo Cultural: rejeição do relativismo cultural e retomada aberta da supremacia de valores ocidentais.

O destino está escrito sem “lero-lero”: uma nova ordem global fundada na superioridade tecnológica e cultural do Ocidente. Simples assim. Assustador assim.

Quem controla os algoritmos controla as infraestruturas digitais. Quem controla as infraestruturas digitais controla uma parcela crescente do poder econômico, político e tecnológico do século XXI. Não é exagero. É a nova anatomia do poder.

Foi raspando o fundo desse pote que percebi: meu artigo anterior fez a pergunta certa, mas parou antes da pergunta mais funda.

Não interessa apenas…

Quem ficará com o valor produzido pela inteligência?

Mas…

Quem controlará as refinarias da inteligência?

A diferença parece sutil. Mas não é!

Durante décadas, soberania tinha cheiro de petróleo, peso de aço, quilometragem de cabo submarino. Era física, palpável, cartografável. O mundo mudou de matéria-prima.

Na economia informacional, o mundo mudou de endereço e a maioria dos países ainda está procurando a nova casa no mapa errado.

Dados brutos são minérios. Abundantes, pesados, quase sem valor enquanto não processados. O valor emerge quando integrados, analisados, refinados em conhecimento capaz de orientar decisões econômicas, políticas, militares, sociais. A questão não é quem “tem o minério”. É quem “opera a refinaria”.

É exatamente esse o negócio da Palantir. E o portfólio de clientes não deixa margem para romantismo de bodega. A empresa tornou-se referência mundial em plataformas que integram milhares de bases de dados, identificam padrões que o olho humano não vê e transformam ruído em conhecimento acionável. Os clientes dizem tudo: o ICE (o serviço americano de imigração que se tornou o rosto das deportações em massa), o Pentágono, o governo Netanyahu e por aí vai. Não é coincidência. É modelo de negócio.

Muitos países já começaram a perguntar onde termina o serviço e onde começa a dependência. Não por ideologia. Por instinto de sobrevivência. Alguns chegaram tarde demais à pergunta.

O debate ganhou contornos mais sombrios com o CLOUD Act. A legislação americana é direta: autoridades dos EUA podem requisitar dados controlados por empresas sob jurisdição americana, não importa onde esses dados estejam armazenados. Brasil, Europa, qualquer lugar. A fronteira física deixou de ser garantia jurídica.

Isso coloca uma questão que o Brasil ainda não encarou de frente: a localização física e governança de dados é soberania digital ou é apenas a ilusão dela? A Europa vem discutindo essa pergunta há anos. O Brasil ainda está comemorando a chegada de datacenters de IA sem maiores questionamentos … e incentivos fiscais, ora essa!

Não é fofoca de quermesse, juro. Mas dizem por aí que têm surgido questionamentos sobre contratos da Palantir em órgãos públicos brasileiros, na gestão de dados governamentais. Dados de Estado. Matéria-prima de poder sendo processada em plataformas de uma empresa que, pelo seu próprio manifesto, se declara instrumento da supremacia ocidental. É a refinaria operando… a favor de quem?

Se a própria empresa declara, em manifesto público, que tecnologia, dados e IA são instrumentos de interesse dos EUA, a questão não é ideológica. É estratégica. Qual é o plano de “reciprocidade” do Brasil?

Esta pergunta não tem endereço fixo. Vale para a Palantir. Vale para Google, Microsoft, Amazon, Meta, OpenAI, Anthropic, ByteDance. Para qualquer organização que controle plataformas estratégicas de informação. O logo muda. A lógica é a mesma, em Washington ou em Pequim.

Nenhuma grande potência trata a Inteligência Artificial como tema secundário. Os EUA a elevaram a ativo estratégico de Estado. A China fez o mesmo e com uma disciplina que o Vale do Silício observa com desconforto crescente. A União Europeia, mais lenta porém determinada, construiu uma arquitetura regulatória inteira em torno da soberania digital.

Talvez essa seja a contribuição involuntária mais reveladora do texto de Karp: nos obrigar a encarar o que preferíamos não nomear. A questão central não é tecnológica. É política. É econômica. É estratégica. É civilizatória.

O manifesto da Palantir não é inquietante pelo que esconde, mas pelo que não se dá ao trabalho de esconder. Nele, a IA aparece sem disfarce: não como ferramenta de progresso, mas como instrumento de poder. Uma tese de autoritarismo redigida a céu aberto, mais assustadora que o “manifesto Trump” contra o PIX precisamente porque não especula. Declara.

Enquanto a IA desce a ladeira abaixo feito carroça sem freio na Ladeira da Preguiça no Pelourinho (confere, Prof Raimundo Macedo? rsrsr), o Brasil segue dando “milho aos pombos”, oferecendo às big techs dados, mercado, território, energia limpa e farta, além de contratos públicos sem exigir nada, ou pouco, em troca … Bota “entusiasmo” nisso. Nenhuma transferência de tecnologia. Nenhuma contrapartida estratégica. Nenhuma exigência de uma “política nacional de IA com dentes fortes”.

Queremos estar na Fórmula 1 da CT&I. Mas estamos escolhendo onde se sentar na arquibancada.

A inteligência artificial não é o futuro. É AGORA. Temos uma das maiores comunidades científicas do hemisfério sul: matemáticos, físicos, engenheiros, linguistas, cientistas de dados, formados em universidades públicas construídas com o imposto do trabalhador brasileiro.

Temos o INPE, que monitorou a Amazônia quando era mais cômodo não monitorar. A Fiocruz, que enfrentou uma pandemia quando o Estado tentou ignorá-la. A Embrapa, que transformou o cerrado em celeiro. Instituições que já provaram, em momentos decisivos, que o Brasil é capaz de ciência de resultados … quando decide que quer. Foi assim que o Dr Marcelo Alcantara, empresas, entidades públicas e privadas no Ceará criaram o ELMO, um respirador que salvou milhares de vidas, na Covid.

A pergunta é se teremos vontade política, e urgência, antes que a janela da IA feche.

Afinal, o manifesto da Palantir foi escrito por quem já fez a pergunta, já encontrou a resposta e teve a audácia de publicá-la.

Está na hora de o Brasil fazer a sua.

Bora, meu povo da academia … antes que a Palantir feche a janela por nós.

*Mauro Oliveira

Professor do IFCE, PhD em Informática por Sorbonne University e ex-secretário nacional de Telecomunicações do Ministério das Comunicações.

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