Com o título “Datacenters de IA e a Pergunta que Ninguém Faz”, eis artigo de Mauro Oliveira, professor do IFCE, PhD em Informática por Sorbonne University e ex-secretário nacional de Telecomunicações do MInistério das Comunicações. “Quem ficará com o valor da inteligência produzida a partir desses bilhões?, instiga o articulista.
Confira:
Há algo curioso acontecendo no Brasil.
Enquanto governos, empresários e parte da imprensa celebram a chegada de gigantescos datacenters de Inteligência Artificial, ainda discutimos pouco uma pergunta fundamental:
Quem captura o valor produzido por essa infraestrutura?
A questão está no centro de uma das maiores transformações econômicas do século XXI.
Durante boa parte da história, riqueza significava terra, fábricas, petróleo ou máquinas. O poder econômico estava associado à posse de ativos físicos e à capacidade de transformá-los em bens e serviços. Hoje, cada vez mais, riqueza significa capacidade de gerar, processar, organizar e coordenar informação.
Essa mudança foi percebida há décadas por Manuel Castells em “A Sociedade em Rede”, importante referência para compreender a economia contemporânea. Castells percebeu aquilo que muitos governos ainda não compreenderam (ou talvez não queiram): na nova economia informacional, a riqueza não decorre apenas da posse da infraestrutura física, mas da capacidade de processar dados, controlar fluxos de informação e ocupar posições estratégicas nas redes que conectam empresas, mercados e pessoas. Em outras palavras, o valor não está necessariamente onde a infraestrutura se encontra. Frequentemente, ele está onde a informação é transformada em conhecimento, inovação e poder econômico.
A Teoria da Economia Informacional aprofunda essa percepção ao reconhecer a informação e sua capacidade de processamento como os principais fatores de produção da nova economia. Nesse cenário, os datacenters de IA são as novas “fábricas de neurônios virtuais” do planeta: estruturas monumentais onde energia, dados e algoritmos são combinados para produzir conhecimento, inteligência e poder econômico. E, assim, a pergunta decisiva não é quem abriga a infraestrutura, mas quem controla o valor gerado por ela.
Mas a história econômica brasileira nos ensina uma lição desconfortável: nem todo investimento produz desenvolvimento.
Já vimos esse filme. A Amazônia forneceu a borracha e Minas o minério; Detroit fabricou os automóveis. Exportamos petróleo e importamos produtos de maior valor agregado. Agora podemos estar diante de uma nova versão da mesma história: fornecemos energia limpa, território, conectividade enquanto a riqueza, a tecnologia e as decisões permaneceram em outro lugar.
Parece não ser fácil nos livrarmos deste desafio cultural que costumo chamar de “entusiasmo do colonizado”: aquela “alegria dentes à mostra” diante de tudo que chega de fora, acompanhada da estranha incapacidade de perguntar quem controla a tecnologia, quem apropria o conhecimento e quem fica com o valor econômico produzido.
Durante décadas, essa lógica beneficiou grandes multinacionais. Hoje ela reaparece sob novas vestes, agora personificada nas Big Techs.
Não se trata de rejeitar investimentos. Seria um erro!
O Brasil deve disputar projetos estratégicos de datacenters e IA. Deve atrair capital, infraestrutura e conhecimento. Mas precisa fazê-lo com inteligência, transparência e capacidade de negociação.
Afinal, quando cerca de 65% do investimento (“Capital Expenditure”) de um grande datacenter é destinado, em sua maioria, à aquisição da própria infraestrutura computacional (especialmente GPUs, aceleradores e equipamentos produzidos no exterior) talvez seja necessário revisitar alguns discursos excessivamente entusiasmados sobre os impactos econômicos locais desses empreendimentos… ou seja, “bora” refazer a conta nos discursos?
A questão não é apenas quanto será investido.A questão é quanto desse investimento permanecerá no país, quanto conhecimento será transferido, quantos empregos qualificados serão criados, quais empresas nacionais serão integradas à cadeia de valor e quanto da riqueza gerada será efetivamente capturada pela sociedade brasileira.
O debate não pode ficar restrito a governos e empresas. Precisa envolver universidades, centros de pesquisa, entidades de classe e a própria sociedade civil. Pesquisadores das áreas de computação, economia, energia, recursos hídricos, meio ambiente, saúde pública, direito, sociologia e planejamento urbano têm muito a contribuir para uma discussão dessa magnitude.
Estamos falando de empreendimentos capazes de consumir energia equivalente à de cidades inteiras, pressionar recursos ambientais, influenciar políticas públicas e redefinir o posicionamento econômico de regiões inteiras. É mole?
Não parece razoável que decisões dessa dimensão sejam discutidas apenas entre investidores e governos. Precisamos compreender com clareza qual é o negócio que está sendo oferecido.
Estaremos construindo as bases de um verdadeiro ecossistema nacional de inovação e inteligência artificial? Ou estaremos apenas alugando território, energia, conectividade e incentivos para que o conhecimento, a propriedade intelectual e a maior parte da riqueza sejam produzidas e apropriadas em outro lugar?
Fazer essas perguntas não significa ser contra o investimento. Significa apenas recusar o papel histórico de plateia entusiasmada diante de promessas grandiosas. Significa exercer a maturidade que se espera tanto dos governos quanto da sociedade que os elegeu.
Os países que hoje lideram a economia digital não chegaram lá apenas oferecendo incentivos fiscais. Planejaram. Negociaram. Protegeram setores estratégicos. Construíram capacidades tecnológicas próprias. Transformaram infraestrutura em conhecimento.
O Brasil encontra-se diante de uma encruzilhada histórica. Pode limitar-se a fornecer energia, território e dados para plataformas globais ou pode utilizar este momento para construir uma estratégia nacional de desenvolvimento baseada em ciência, tecnologia, inteligência artificial e formação de talentos.
Desenvolvimento Sustentável não se constrói só com incentivos fiscais. Exige uma Política Nacional ousada, transparente e corajosa, capaz de articular governo, universidades, empresas e sociedade em torno de um projeto de longo prazo.
Uma política que não trate a IA apenas como mercado, mas como instrumento de soberania nacional; que transforme capacidade computacional em inovação, inovação em riqueza e riqueza em oportunidades.
Afinal, queremos construir em nossas cidades hubs de inteligência ou apenas enclaves digitais? Vale lembrar que parques tecnológicos podem ser construídos. Ecossistemas emergem. Datacenters podem ser instalados. Soberania precisa ser construída.”
E, na era da Inteligência Artificial, talvez a pergunta mais importante não seja quantos bilhões serão investidos. Talvez seja:
Quem ficará com o valor da inteligência produzida a partir desses bilhões?
E, acima dela, uma questão ainda maior:
Que Brasil queremos deixar para nossos netos?
Um país que fornece energia, dados e território para que outros construam o futuro? Ou uma nação capaz de produzir, governar e capturar o valor da inteligência que ajuda a construir?
Porque, no fim, não estamos discutindo apenas datacenters, algoritmos ou Inteligência Artificial. Estamos discutindo o futuro do país.
A esperança de um Brasil soberano, capaz de transformar informação em conhecimento, conhecimento em prosperidade e prosperidade em oportunidades para todos.
Uma esperança que ultrapasse a nossa geração e alcance aqueles que ainda virão: a esperança de um país capaz de construir o próprio futuro com suas próprias mãos.
*Mauro Oliveira
Professor do IFCE, PhD em Informática por Sorbonne University e ex-secretário nacional de Telecomunicações do MInistério das Comunicações.