Com o título “Mentiras e Corrupções: O PT no Imaginário dos Brasileiros”, eis artigo de João Arruda, sociólogo e professor aposentado da Universidade Federal do Ceará. “A rejeição visceral que emerge dos cidadãos comuns, refletida em protestos espontâneos por todo o país e nas redes sociais, não é fruto do acaso, mas da indignação diante de décadas de escândalos documentados, julgamentos históricos e condenações sucessivas”, expõe o articulista.
Confira:
Para compreender a indecorosa metamorfose do Partido dos Trabalhadores é preciso percorrer sua trajetória conturbada e nada dignificante. Fundado em 1980 sob a bandeira da ética, da justiça social e da defesa dos trabalhadores, o PT construiu, desde o berço, uma falsa narrativa de pureza ideológica que sua própria prática trataria de destruir. A verdadeira história petista foi marcada por recorrentes escândalos de corrupção, desvios de finalidade, falsos dossiês, extorsões, cooptações políticas e alianças espúrias que contradizem frontalmente o discurso inicial. Os malfeitos que a narrativa oficial tenta reduzir a episódios isolados revelam, em perspectiva, uma reincidência sistemática que moldou profundamente a trajetória do partido. A distância entre o discurso de ética e a realidade das práticas expõe uma das mais profundas contradições da política brasileira: um partido que chegou ao poder prometendo combater desigualdades, injustiças e vícios da velha política acabou incorporando os mesmos erros como instrumentos de disputa e preservação do poder.
Ao longo de sua trajetória, o Partido dos Trabalhadores esteve no centro de investigações e controvérsias sobre financiamento partidário, fraudes administrativas e corrupção sistemática. Acompanhando a linha cronológica desde os anos 1990 até o período recente, destacam-se os seguintes episódios registrados pela imprensa e pela Justiça:
Oficialmente, a estreia do Partido dos Trabalhadores no mundo do crime ocorreu em 1987, quando Paulo de Tarso, militante histórico do partido e ex-secretário de Finanças em Campinas e São José dos Campos, denunciou dirigentes petistas por cobrarem propina de órgãos municipais por meio da prestadora de serviços CPEM-Consultoria para Empresas e Municípios. O objetivo era abastecer os cofres de campanhas locais e financiar parte da militância, revelando já naquele momento o uso sistemático de esquemas ilícitos para sustentar o projeto político do partido.
Sem que o escândalo da CPEM tivesse sido superado, o Brasil foi novamente abalado pelo assassinato de Toninho do PT, prefeito de Campinas, ocorrido em 10 de setembro de 2001. Ele foi morto a tiros ao retornar para casa após um jantar, em circunstâncias que seus familiares e aliados sempre relacionaram a denúncias de corrupção em contratos públicos da prefeitura. Em 2002, outro episódio criminoso envolvendo o PT ganhou repercussão nacional: o assassinato do prefeito de Santo André, Celso Daniel. Segundo o Ministério Público de São Paulo, o crime esteve diretamente ligado a um esquema de propinas cobradas de empresas de transporte coletivo e prestadoras de serviços públicos, operado por dirigentes petistas. O empresário do setor de transportes Luiz Alberto Gabrili desempenhou papel central ao denunciar o mecanismo de corrupção petista, tornando-se uma das principais testemunhas e vítimas de um sistema de corrupção que expunha, de forma brutal, o modus operandi petista de governar.
Em 2004, explode o caso Waldomiro Diniz, assessor do todo poderoso ministro José Dirceu, flagrado pedindo propina a bicheiros. O caso ficou conhecido como Escândalo dos Bingos e como o Caso GTech. Em 2005, o PT se envolveu no chamado escândalo dos Correios, o estopim para a revelação do esquema do Mensalão. Tudo começou quando um funcionário dos Correios, Maurício Marinho, foi filmado recebendo propina de empresários em troca de facilidades em contratos da estatal. A investigação mostrou que o dinheiro, estimado em R$ 200 milhões, arrecadado por meio de propinas e contratos superfaturados alimentava um sistema de compra de apoio parlamentar no Congresso. Esse episódio detonou uma crise política sem precedentes, que resultou na cassação de José Dirceu. Ainda em 8 de julho de 2005, um assessor do deputado José Guimarães foi preso com US$ 100 mil escondido na cueca. O caso nunca foi esclarecido, mas o deputado passou para a história com a epígrafe de Zé Cueca.
Em 2006, mais um escândalo atingiu o Partido dos Trabalhadores: o caso dos “Aloprados”. O episódio ocorreu às vésperas das eleições presidenciais, quando militantes petistas foram flagrados pela Polícia Federal com cerca de R$ 1,7 milhão em espécie, destinados à compra de um dossiê falso contra José Serra, então candidato ao governo de São Paulo, e Geraldo Alckmin, candidato à presidência. O objetivo era acusá-los de envolvimento na chamada “máfia das ambulâncias”, revelando a disposição do partido em recorrer a práticas criminosas para manipular o processo eleitoral e atacar adversários políticos.
Nesse mesmo ano, ocorreu o escândalo da compra superfaturada da Refinaria de Pasadena, que gerou um prejuízo de aproximadamente US$ 790 milhões para a Petrobras. Em 2011, já no governo Dilma Rousseff, em apenas quatro meses, seis ministros foram afastados após denúncias de corrupção. Em 2013, vieram à tona as chamadas “pedaladas fiscais”, caracterizadas pela maquiagem das contas públicas, que culminaram no processo de impeachment de Dilma em 2016. Em 2014, explodiu a Operação Lava Jato/Petrolão, revelando um esquema bilionário de corrupção na Petrobras e resultando na prisão de Lula, condenado em primeira, segunda e terceira instâncias pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro.
O atual vice-presidente, Geraldo Alckmin, foi profético ao afirmar que Lula desejava retornar à “cena do crime”. Com sua eleição em 2022, os escândalos de corrupção voltaram a ocupar as manchetes. Na gestão iniciada em 2023, figuras de destaque do governo, incluindo familiares do presidente, foram associadas a denúncias de corrupção e fraudes bilionárias no INSS, irregularidades em emendas parlamentares, suspeitas em estatais como a Codevasf e a Dataprev, além do caso do Banco Master, que surgiu sob influência petista nos governos de Rui Costa e Jaques Wagner e hoje envolve altos escalões dos três poderes da República.
O resultado desse longo histórico é a consolidação de uma marca indelével na memória coletiva nacional: a associação direta entre a sigla partidária e a palavra “corrupção”. A rejeição visceral que emerge dos cidadãos comuns, refletida em protestos espontâneos por todo o país e nas redes sociais, não é fruto do acaso, mas da indignação diante de décadas de escândalos documentados, julgamentos históricos e condenações sucessivas. Ao examinar a gênese e a evolução dessa estrutura, constata-se que a corrupção e a fraude discursiva nunca foram meros desvios ocasionais na trajetória do PT, mas sim o combustível e a espinha dorsal de seu projeto de poder.
No dia 4, ao se dirigir para a cabine de votação, reflita e pense no futuro do nosso país: não seja conivente com a corrupção e com o atraso. Nossos filhos e netos merecem um futuro mais próspero.
*João Arruda
Sociólogo e professor aposentado da Universidade Federal do Ceará.