“Mercosul e União Europeia: quem sai ganhando?” – Por Angela Cristina Tripoli

Abngela Tripoli é mestre em Administração e coordena o curso de Comércio Exterior da Uninter.

Com o título “Mercosul e União Europeia: quem sai ganhando?”, eis artigo de Angela Cristina Kochinski Tripoli, mestre e doutora em administração e coordenadora do Curso de Comércio Exterior do Centro Universitário Internacional Uninter. “(…) o Acordo Mercosul–União Europeia não produz vencedores e perdedores absolutos. A União Europeia tende a obter ganhos mais imediatos e estruturais na indústria e nos serviços, enquanto o Mercosul amplia oportunidades no agronegócio e na atração de investimentos.

Confira:

Após mais de vinte e seis anos de negociações, o Mercosul e a União Europeia concluíram, no início de 2026, a assinatura formal do Acordo de Parceria Estratégica entre os dois blocos. A aplicação de sua vertente comercial, contudo, passou a ocorrer de forma provisória a partir de 1º de maio de 2026, enquanto avançam os processos de ratificação definitiva, especialmente no âmbito europeu.

O tratado institui uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, reunindo cerca de 720 milhões de pessoas e um Produto Interno Bruto combinado superior a US$ 22 trilhões, sendo celebrado por governos e setores empresariais como um marco histórico da integração inter-regional. Ainda assim, a pergunta central permanece: quem realmente sai ganhando com esse acordo?

Do ponto de vista europeu, os ganhos são claros e mensuráveis. A Comissão Europeia estima um aumento de até 39% nas exportações da UE para o Mercosul, especialmente em setores de alto valor agregado, como automóveis, máquinas, produtos químicos e farmacêuticos, hoje sujeitos a tarifas que chegam a 35%. Além disso, empresas europeias passam a ter acesso ampliado a compras governamentais nos países sul-americanos, fortalecendo sua presença em economias emergentes estratégicas.

Para o Mercosul, os benefícios concentram-se sobretudo no agronegócio. A União Europeia eliminará tarifas sobre cerca de 93% de sua pauta de importação proveniente do bloco sul-americano, com destaque para carnes, soja, café, açúcar, etanol e celulose, ainda que muitos desses produtos estejam sujeitos a cotas e salvaguardas agrícolas. Em 2025, a UE já era o segundo principal destino das exportações agropecuárias brasileiras, respondendo por aproximadamente US$ 25 bilhões em vendas.

Entretanto, o caráter assimétrico do acordo desperta críticas. Analistas apontam o risco de reforço de um padrão histórico de especialização: o Mercosul exportando commodities e a Europa ampliando a venda de bens industrializados, o que pode aprofundar desigualdades produtivas. Além disso, existe o impacto das normas ambientais europeias, como o Regulamento Europeu de Desmatamento, que pode restringir o acesso de produtos associados a áreas desmatadas após 2020 ao mercado europeu, transferindo custos de adaptação aos produtores sul-americanos.

Portanto, o Acordo Mercosul–União Europeia não produz vencedores e perdedores absolutos. A União Europeia tende a obter ganhos mais imediatos e estruturais na indústria e nos serviços, enquanto o Mercosul amplia oportunidades no agronegócio e na atração de investimentos.

Contudo, o verdadeiro saldo do acordo dependerá da capacidade dos países sul-americanos de utilizá-lo como instrumento de transformação produtiva, investindo em inovação, sustentabilidade e agregação de valor. Caso contrário, corre-se o risco de que a integração comercial reforce antigas dependências, beneficiando mais quem já parte de uma posição econômica mais sólida. Assim, mais do que perguntar quem ganha hoje, o desafio central é definir quem saberá ganhar no longo prazo.

*Angela Cristina Kochinski Tripoli

Mestre e doutora em administração, graduada em administração com habilitação em Gestão de Negócios Internacionais, além de Coordenadora e Professora do Curso de Comércio Exterior do Centro Universitário Internacional Uninter.

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