Com o título “Meta o saca-rolhas”, eis mais um conto da lavra de Francisco J. Caminha, advogado e ex-deputado estadual.
Confira:
Anselmo era um empresário bem-sucedido do comércio.
Dono de lojas, postos de gasolina e de uma barriga que crescia na mesma proporção da conta bancária.
Trabalhava tanto que parecia ter feito um pacto clandestino com o relógio: enquanto o mundo dormia, ele continuava acordado negociando futuros que talvez nunca chegassem.
Colecionava vinhos como quem coleciona pequenas vaidades engarrafadas. Sua adega climatizada parecia mais um cofre suíço do que um lugar de prazer. Havia rótulos franceses, italianos, portugueses, espanhóis, chilenos… garrafas que atravessaram oceanos apenas para morrer lentamente numa prateleira escura, sem jamais conhecer a dignidade de uma ressaca.
Anselmo não comprava vinho para beber. Comprava para possuir.
E possuir, para certos homens, é apenas um jeito elegante de ter medo da morte.
Era o tipo conhecido no Ceará como “unha de gato”.
Mão de vaca num grau quase científico. Sofria mais para abrir a carteira do que muito sujeito sofre para abrir o coração. Se pudesse, parcelava até abraço em doze vezes sem juros.
A esposa, Helena, às vezes tentava romper aquele bloqueio econômico-afetivo.
— Anselmo, hoje fazemos trinta anos de casados… vamos abrir aquele Bordeaux?
Ele arregalava os olhos como se ela tivesse sugerido rifar um rim.
— Mulher, tu endoidou? Esse vinho ainda vai valorizar muito!
Para Anselmo, vinho não era bebida. Era previdência privada líquida.
E assim a vida foi passando.
As rolhas intactas como seus afetos.
As garrafas envelhecendo melhor que o casamento.
Porque existe gente que conserva mais os objetos do que os sentimentos.
Até que, numa terça-feira abafada de novembro, depois de discutir vinte minutos por causa de quarenta reais no frete de um caminhão, Anselmo sentiu uma fisgada violenta no peito, ficou roxo igual uva Cabernet e caiu duro no escritório.
Morreu sem abrir um Romanée-Conti.
O enterro foi bonito. Coroas de flores, discursos emocionados, funcionários chorando e até um sujeito dizendo:
— Seu Anselmo foi um homem que soube construir patrimônio.
Construiu mesmo.
Só não soube morar dentro da própria vida.
Passados alguns meses, Helena conheceu Osvaldo. Um aposentado simples, barrigudo, dono de uma felicidade sem luxo e de uma filosofia curta:
— Se Deus criou hoje, é porque era pra usar hoje.
Osvaldo era o tipo de homem que comprava queijo sem perguntar o preço e tomava café olhando chuva. Um irresponsável perante o capitalismo moderno.
Começaram um relacionamento. Depois de algumas semanas, Helena resolveu mostrar a adega.
Quando Osvaldo abriu a porta iluminada e viu centenas de garrafas alinhadas como soldados franceses esperando ordens para morrer, levou a mão ao peito e murmurou:
— Meu Deus… acho que entrei no céu sem precisar morrer antes.
Pegou uma garrafa, leu o rótulo francês sem entender absolutamente nada e perguntou:
— Helena… teu finado era dono de vinícola?
Ela riu.
— Não. Era só dono da vontade de possuir sem usufruir.
Osvaldo ficou calado alguns segundos. Depois pegou um saca-rolhas com a solenidade de um padre levantando a hóstia.
E disse:
— Então hoje nós vamos libertar pelo menos uma dessas criaturas.
Naquela noite abriram um Bordeaux que valia mais que o carro do próprio Osvaldo.
Ele cheirou a taça, fechou os olhos e comentou:
— Rapaz… isso aqui tem gosto de financiamento quitado.
No outro dia abriram um Château Pétrus.
Na sexta-feira foi a vez de um Romanée-Conti.
E enquanto o vinho respirava na taça, Osvaldo pensava sorrindo:
— O ex dela passou a vida inteira juntando felicidade pros outros.
Helena, por sua vez, ria mais depois dos cinquenta do que em todos os trinta anos de casamento.
Porque a vida possui uma crueldade silenciosa:
o amanhã é um terreno que ninguém possui.
Ninguém toca o depois.
Ninguém mora no futuro.
A única coisa que verdadeiramente pertence ao homem é este instante breve que já começa a desaparecer enquanto está sendo vivido.
Mesmo assim, as pessoas continuam guardando a louça bonita, o perfume caro, a toalha nova, o elogio, o pedido de desculpas… e o vinho especial.
Como se a existência tivesse obrigação de esperar que elas finalmente ficassem prontas para viver.
Mas a morte não marca horário.
Ela simplesmente entra.
E às vezes encontra a adega cheia e a vida vazia.
Por isso, meu amigo…
Antes que o tempo beba tudo sem você,
meta logo o saca-rolhas.
*Francisco J. Caminha
Advogado e ex-deputado estadual.